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CHAMARAM-LHE PORTUGAL – 38 – por José Brandão

D. JOÃO V – O MAGNÂNIMO

 (reinou de 1706 a 1750)

 

Um casamento político. – Os meninos de Palhavã.

 

«Nascido em 1689, no Paço da Ribeira, foi cognominado de Magnânimo, ou Magnifico, este último pelos seus panegiristas ao celebrarem-lhe as excessivas prodigalidades e despesas sumptuárias, quase exclusivamente em pompas e obras de mera ostentação de soberba e megalomania.

Por morte de seu pai, em fins de 1706, sobe ao trono D. João V, com 18 anos incompletos e é aclamado rei a 1 de Janeiro de 1707, ainda em plena Guerra da Sucessão de Espanha.

Apesar das suas amantes e amásias não terem fim, cedo chegou a hora de o monarca casar. E uma coisa não impedia a outra.

A escolhida foi, na linha das preferências políticas já manifestadas por seu pai, uma austríaca, a arquiduquesa Maria Ana de Áustria. O casamento realizou-se em Viena a 9 de Junho de 1708 e chegaram a Lisboa a 26 de Outubro, esperando-os imponentes festejos.

Para tanta festança e opulência, as minas de ouro do Brasil, entre outras, forneciam os meios, e a fama destas vidas ultrapassava fronteiras. O gosto do monarca pelas artes e pelas literaturas, ainda que só pela ostentação, chegou ao ponto, de mandar emissários por todo o mundo em busca de raridades e preciosidades. Não podemos esquecer o grande marco da arquitectura e da cultura da época que é o Convento de Mafra, mandado construir por D. João V, como promessa.

Um casamento político.

Por conveniência política, D. João V casara com a desajeitada e feia arquiduquesa da Áustria, sete anos mais velha que ele, galante moço de 19 anos.

Amargurados lhe foram, pois, os sete primeiros anos de reinado, mesmo em apuros financeiros e miséria económica, a despeito da aleluia de esperanças com que, nos fins do reinado de seu pai, a auspiciosa notícia da descoberta de minas de ouro no Brasil alvoroçara a Corte e o Reino.

D. Maria Ana não conseguia dar-lhe filhos, apesar das múltiplas tentativas nesse sentido, ao ponto de a considerarem estéril para prover um sucessor ao trono.

O monarca fez, então, um voto de, se conseguisse descendência, mandar construir um monumental convento, o que veio a acontecer.

Um ano depois, em 1712, nascia D. Maria Bárbara, concretizando a profecia de Frei António de S. José. A princesa casou, mais tarde, com Fernando V de Espanha. Em 1714 nascia D. Pedro de Alcântara, morto em criança, e dois anos depois viria o sucessor do trono, D. José. Cumpriu-se a promessa e a construção movimentou meios humanos e materiais como até então nunca visto. O resultado é de todos conhecido e pode ser visto em Mafra.

Só a partir de então, e já tranquilizado em 1714 com o nascimento de um herdeiro, D. José, verdadeiramente começava D. João V, aos 24 anos, a gerir os negócios do reino, em puro regime de absolutismo real.

D. João V era galanteador, muitíssimo amigo de damas e donzelas, não só enquanto poeta mas também como voluptuoso. As suas aventuras não tinham fim, sempre emolduradas com o mais puro requinte. Rodeava toda a sua actividade de grande pompa e esplendor, imitando em tudo os hábitos de Luís XIV e da sua corte. Mandava vir as suas fartas cabeleiras de França, assim como os fatos, bálsamos e essências. Delicado e super-supersticioso na religião, a esta estendia os seus gostos sumptuosos, imitando o modelo francês.

No seu constante rodopio amoroso não faltavam senhoras nobres e plebeias, damas ou donzelas, como foi o caso da irmã de D. Filipe de Noronha, marquês de Cascais. De tal forma iludiu esta donzela que ela se considerou sua esposa, e logo, rainha. Ao descobrir-se a história, recolheu-se envergonhada ao convento, onde não tardaria a morrer com o coração, a alma e a honra despedaçados.

Quando o Prior de S. Nicolau recomendou maior contenção ao rei adúltero, este mandou servir-lhe galinha ao almoço e ao jantar vários dias seguidos. Quando o Prior lhe perguntou qual o motivo de lhe dar sempre galinha a comer, o rei respondeu-lhe: “Nem sempre galinha, nem sempre rainha!”.

A exemplo do anterior reinado, quis um irmão do rei, D. Francisco, repetir a façanha fazendo a corte à cunhada, senhora de extrema virtude. O seu carácter turbulento e criminoso muito contribuiu para as investidas frustradas e para todas as discórdias e intrigas que arquitectou.

Corte de relações com a Santa Sé.

Por volta de 1728, D. João V, que havia conseguido da Santa Sé a criação do Patriarcado de Lisboa e o respectivo título de cardeal inerente ao de Patriarca, corta relações com ela por ter sido negado o chapéu cardinalício ao Núncio Apostólico em Lisboa.

As relações são reatadas em 1731. Em 1748 o Papa dá a D. João V e aos seus sucessores o título de «Fidelíssimo».

Voltando ao capítulo das ligações amorosas do rei, estas chegaram aos hábitos sagrados. Nestas suas incursões pelos meios católicos, destacou-se Paula Teresa da Silva e Almeida, a Madre Paula, freira portuguesa que se tornou a amante mais célebre do rei D. João V. Paula entrou para o convento de Odivelas aos dezassete anos de idade, e ali professou, após um ano de noviciado.

D. João V, frequentador assíduo do convento de Odivelas, onde mantinha várias amantes que ia substituindo conforme lhe parecia, ao topar com a jovem Paula ficou loucamente apaixonado por ela. Nessa altura, já a famosa freira se havia tornado amante de D. Francisco de Portugal e Castro, conde de Vimioso, e que pouco antes tinha sido agraciado com o título de marquês de Valenças. Paula passou a ser amante do rei que era trinta anos mais velho do que ela.

Os meninos de Palhavã.

Não contente ou satisfeito com o que já tinha, atira-se a D. Madalena Máxima Miranda de quem teve D. Manuel Gaspar, que veio a ser arcebispo de Braga. Ao seu vasto curriculum juntou igualmente  D. Luísa Inês Machado Monteiro, que lhe deu um D. António muito dedicado à música. Os bastardos varões viviam em conjunto no palácio de Palhavã e daí serem alcunhados de «os meninos de Palhavã».

À lista juntou-se ainda uma senhora muito nobre e estimada, mas contudo casada, D. Luísa Clara de Portugal, alcunhada como «Flor da Murta» devido à casa a que pertencia. O marido, para além da desonra, viu-se ainda diminuído de «partes íntimas» por ordem do rei, enquanto esposa de D. João, lhe dava uma filha, D. Luísa, que viria a professar. Mulheres de todas as castas e origens gabavam-se dos bons momentos passados na real alcova, desde a actriz Gamarra à cigana Margarida do Monte.

Como «não há bela sem senão», os excessos vitimaram D. João. Atacado pelos excitantes que ingeria e pelo esgotamento ficou, paralisado do seu lado esquerdo, não lhe valendo os banhos aconselhados pelos mais ilustres médicos do reino.

Depois de uma vida de fausto e devassidão, deixou atrás de si gastos na ordem dos cento e vinte e cinco milhões de cruzados, noventa e sete mil e quatrocentos e setenta moedas de ouro, mil quinhentos e trinta marcos de ouro, doze milhões de diamantes, vinte e duas caixas de ouro em barra e duas de ouro em pó.

Apesar de tanta riqueza, o erário público ficou seriamente empenhado à altura da sua morte, em 31 de Julho de 1750. Mas apesar disso, os hábitos luxuosos e oponentes tinham criado raízes entre nós, não havendo luxo que não se tentasse.» *

* José Brandão, A Vida Dramática dos Reis de Portugal, pp. 195-200.

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