OS HOMENS DO REI – 60 – por José Brandão

Diogo de Mendonça Corte-Real (1658-1736)

 

Diplomata e estadista de certo relevo nos reinados de D. Pedro II e D. João V, descendia de famílias fidalgas do Algarve, por seu pai, do mesmo nome, e por sua mãe, D. Jerónima de Lacerda, aparentados ambos com casas nobres do Reino.

 

Natural de Tavira, nasceu em 1658, e, depois dos estudos secundários, frequentou brilhantemente, muito novo, as faculdades de Teologia e Direito da Universidade de Coimbra, em que se graduo doutor em Cânones cm 1686 e se formou também no ano seguinte em Direito Civil.

 

Preferindo, porém, a magistratura, começou por ser provido na Corregedoria da Comarca do Porto, cujo cargo exerceu com inexcedível probidade e rectidão de carácter.

 

D. Pedro II, informado de seus méritos e integridade moral por fidalgos seus parentes dignitários do paço, chamou-o à corte, e em 1691 confiou-lhe a primeira missão diplomática, de enviado extraordinário à Holanda, então em excelentes relações de paz com Portugal, para, com os Estados Gerais na Haia, tratar dum momentoso caso de apresamento de navios portugueses por corsários holandeses.

 

Atormentada lhe foi a viagem a Amesterdão. Temporais violentos do mar do Norte fizeram naufragar o navio, de que a custo se salvou, com a tripulação e companheiros de viagem, nas costas de Inglaterra, graças ao seu admirável sangue-frio. De Londres, embarcou depois, num navio inglês, para os Países Baixos, em cuja capital se arrastaram dificilmente, por quase um ano, as negociações dum acordo satisfatório a que, porém, só se chegou dois anos depois, ratificado mais tarde pelos Estados Gerais nos começos do ano seguinte.

 

Esse êxito diplomático abria-lhe um começo de nova carreira. De regresso a Lisboa, logo D. Pedro II o nomeou chefe de missão na embaixada a Madrid. Durante os nove anos da sua situação diplomática junto da corte espanhola confirmava o conceito em que já era tido seu tacto e discrição nas delicadas circunstâncias que precederam a Guerra da Sucessão de Espanha, a que Portugal era também arrastado por Inglaterra na quádrupla aliança.

 

Em 1703, declarada a guerra, forçosamente recolhia o embaixador português a Lisboa. E foi a partir de então que a brilhante carreira diplomática de Diogo de Mendonça derivou definitivamente para a alta política interna do Reino.

Imediatamen

te D. Pedro II o nomeou seu secretário de Estado e dele se fez acompanhar para o teatro de operações na Beira Baixa, por onde começara a entrada dos exércitos espanhóis na sua rápida invasão de Portugal; e, como o rei, a pretexto de doença grave, tivesse de abandonar a direcção política da guerra in loco e voltar a Lisboa, confiou, em Novembro de 1704, esse espinhoso encargo ao seu secretário de Estado, que, nas maiores dificuldades, o desempenhou integralmente até à morte do monarca, em Dezembro de 1706.

 

Sucedia-lhe no trono, com 18 anos de idade, seu filho D. João V, que o pai havia já familiarizado com os assuntos da governação, admitindo-o nas reuniões do Conselho de Estado. Teve, pois, o novel soberano o bom senso e tino político de manter no cargo de secretário de Estado o ministro e diplomata de seu pai.

 

Na deplorável situação económica, política e militar em que o moço rei herdava o Reino, foram inestimáveis os serviços que desde logo lhe prestou Diogo de Mendonça Corte-Real. Havia, de entrada, a longa guerra com Espanha na raia do Alentejo; acresciam a ruína económica, a penúria do Tesouro, o cansaço do país; e a tudo condescendia o ministro o melhor que podia, até às negociações de paz geral no Congresso de Utreque, em 1715.

 

Por indicação de Diogo de Mendonça, o rei nomeou como seus delegados plenipotenciários D. Luís da Cunha e o conde de Tarouca, diplomatas cujo alto mérito o ministro bem conhecia e a quem passou a enviar de Lisboa instruções rigorosas, que os diplomatas estrangeiros com admiração reconheciam de subtil destreza e pertinência irrecusável.

 

Ratificada a paz com França e Espanha, saía Portugal da infausta guerra e do Congresso em fins de 1715, ressalvando, pelo menos, sem quaisquer compensações, a integridade do seu império ultramarino.

Figura predominante da política das três primeiras décadas do reinado, não mais pôde o Magnânimo dispensá-lo na Secretaria de Estado, por onde corriam os múltiplos e mais instantes serviços da administração interna e a própria correspondência oficial, muitas vezes secreta, com as chancelarias europeias.

 

De notável cultura geral, conhecimento perfeito dos problemas essenciais da época e exprimindo-se correntemente nas principais línguas veiculares, gozava de indiscutível prestígio nas outras cortes.

Em 1720, ao fundar D. João V a sua Academia Real de História, incluía-o no número fechado dos primeiros cinquenta académicos. Sob égide e protecção deste rei  foi criada a Academia devida à acção conjunta dos eruditos do tempo e que ele, rei, assiduamente frequentava, assistindo às sessões académicas.

 

Em 1722 produz-se um conflito diplomático com a França, que suscita o corte de relações entre os dois países. Motivou-o uma questão de mera etiqueta. O novo embaixador francês, abade de Livry, ao chegar a Lisboa, entendeu que devia ser o secretário de Estado a encetar as visitas do protocolo. Diogo de Mendonça recusou-se, afirmando que em Portugal nunca tal se tinha feito. O diplomata insistiu, o governo de Luís XV apoiou-o. O abade mandou um ultimato ao secretário de Estado: a visita ou o corte de relações. Como resposta definitiva, o secretário de Estado enviou-lhe os passaportes. As relações diplomáticas entre as duas cortes ficaram suspensas durante catorze anos.

 

Já velho, de quase setenta anos, impossibilitado por longa doença que o inabilitava de comparecer assiduamente na Secretaria de Estado, nem por isso o rei o exonerou e substituiu no alto cargo em que o manteve até ao fim da sua longa vida, de setenta e oito anos, em 1736, na casa de Benfica, onde ainda por vezes era procurado e consultado sobre problemas políticos de solução difícil.

 

A seguir: Manuel de Azevedo Fortes

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