Cecília Meireles é, indiscutivelmente, uma das vozes poéticas mais límpidas do universo da lusofonia. A evocação da sua figura e da sua obra, há dias realizada no centro Cultural de Belém e integrada no Ciclo de Clássicos da Literatura Brasileira do século XX, constitui um acto cultural de grande relevância . A Clara Castilho esteve lá e traz-nos a sua crónica.
No dia 18 de Março, no Centro Cultural de Belém, Cecília Meireles foi evocada. Arnaldo Saraiva. No ciclo “Ciclo Clássicos da Poesia Brasileira do séc. XX” falou-nos da grande poetisa brasileira.
Depois de um breve comentário sobre a presença da mulher na poesia ao longo dos tempos, falou da influência de Fernando Pessoa na obra de Cecília. Realçou a influência dos vários géneros da poesia portuguesa, desde a tradição oral, às cantigas de amigo, à poesia épica.
Não deixou de considerar a influência da sua formação musical e visual na sua obra. Percorrendo as relações com Portugal (sua avó açoriana, seu primeiro marido, Fernando Correia Dias, diversos amigos portugueses) e a influências nas suas produções literárias (Cancioneiro de Penajoia), Arnaldo Saraiva considera que Cecília Meireles é, no séc. XX quem melhor trabalha com a tradição e a modernidade.
Não deixou de abordar os temas que atravessam a sua obra – a transitoriedade da sua vida, a temática da morte, da solidão e da saudade, relacionando-as com a sua vida pessoal.
Leu-nos, com emoção, o último poema escrito, dedicado a seu marido:
Assim aos poucos vai sendo levada
a tua Amiga, a tua Amada! E assim de longe ouvirás a cantiga da tua Amada, da tua Amiga.
Abrem-se os olhos – e é de sombra a estrada para chegar-se à Amiga, à Amada! Fechem-se os olhos – e eis a estrada antiga a que levaria à Amada, à Amiga.
(Se me encontrares novamente, nada te faça esquecer a Amiga, a Amada! Se te encontrar, pode ser que eu consiga ser para sempre a Amada Amiga.
II
E assim aos poucos vai sendo levada a tua Amiga, a tua Amada!
E talvez apenas uma estrelinha siga a tua Amada, a tua Amiga. Para muito longe vai sendo levada, desfigurada e transfigurada.
Sem que ela mesma já não consiga dizer que era a tua profunda Amiga.
Sem que possa ouvir o que tua alma brade que era a tua Amiga e que era a tua Amada.
Ah! do que disse nada mais se diga. Vai-se a tua Amada – vai-se a tua Amiga!
Ah! do que era tanto, não resta mais nada… Mas houve essa Amiga! mas houve essa Amada!
Outro outro belo poema de Cecília, em duas versões: