DIA DO BRASIL – Cecília Meireles e Maria-Cecília Correia – por Clara Castilho

Cecília Meireles e Maria-Cecília Correia, chegam-pela mão da nossa colaboradora Clara Castilho, filha de Maria-Cecília Correia. O texto que publicamos foi dedicado pela grande escritora brasileira à notável escritora portuguesa. Inserido numa carta, ignora-se se é ou não um inédito. É muito interessante, Eis duas breves notícias biográficas de ambas:

 

Maria Cecília Correia Borges Cabral Castilho (1919-1993) nasceu em Viseu e faleceu em Lisboa. Usando o nome literário de Maria-Cecília Correia, dedicou-se sobretudo à Literatura Infantil. Os seus  livros, inspirados sobretudo em acontecimentos do quotidiano, têm em geral como tema central o mágico mundo da criança.

 

Principais obras: Histórias da Minha Rua,  1957; Histórias de Pretos e Brancos e Histórias da Noite, 1960; Histórias do Ribeiro, 1974;  O Coelho Nicolau, 1974; Amor Perfeito,  1975; Histórias da Minha Casa, 1976; O Besouro Amarelo,  1977; Bom Dia,  1983; Manhã no Jardim, 1978; Pretérito Presente, 1976.

 

Cecília Meireles nasceu em 1901, no Rio de Janeiro e faleceu em 1964, também no Rio de Janeiro. Considerada uma das grandes vozes poéticas da língua portuguesa no século XX. No período de 1919 a 1927, colaborou nas revistas Árvore Nova, Terra de Sol e Festa. Fundou a primeira biblioteca infantil do Brasil. Lecionou na Univerdade do Distrito Federal em 1936 e na Universidade do Texas em 1940. Trabalhou no Departamento de Imprensa e Propaganda no governo de Getúlio Vargas, dirigindo a revista Travel in Brazil (1936).

 

Principais obras: Espectros, 1919 l Nunca mais… e Poema dos Poemas, 1923 ; Baladas para El-Rei, 1925; Criança, meu amor, 1927; Viagem, 1939; Vaga música, 1942; Mar Absoluto e Outros Poemas, 1945;Retrato natural, 1949 Amor em Leonoreta, 1951; Dez noturnos de Holanda & O aeronauta, 1952 ; Romanceiro da Inconfidência, 1953; Pequeno Oratório de Santa Clara, 1955; Pistóia, Cemitério Militar Brasileiro, 1955; Canções, 1956; Romance de Santa Cecília, 1957; Obra poética, 1958; Metal Rosicler, 1960; Poemas escritos na Índia, 1961; Solombra, 1963; Ou isto ou aquilo, 1964; Crônica trovada da cidade de Sam Sebastian, 1965; Poemas italianos, 1968; Ou isto ou aquilo & Inéditos, 1969; Cânticos, 1981; Oratório de Santa Maria Egipcíaca, 1986 .

 

 

À direita: “Cecília Meireles em Lisboa”. (Desenho de seu primeiro marido, Fernando Correia Dias).

 

 

 

 

 

 

 

O gato desce

a escada

 

Para Maria-Cecília Correia

 

 

 

 

Não tem nome nenhum. Não sabe que é gato, quadrúpede, mamífero, de pêlo preto. Não sabe que está num jardim, nem de que casa, em que rua, no mundo, num planeta, entre planetas, lua, sol, estrelas, nebulosas, cometas – no meio do universo.

 

O gato desce a escada. Solenemente. Como se soubesse tudo isso e muito mais.

 

O gato desce a escada. Silenciosamente. Como se não existisse.

 

Pedras, árvores, brisa da tarde, pingo d’água da fonte no muro, passarinhos na ponta dos telhados, nada disso o distrai. Botânica, Zoologia,

Mineralogia, nada disso tem nome, para êle, nem conteúdo, nem separação.

 

O gato desce a escada.

 

Ninguém o chamou. Não tem família. Não tem casa. Não parece ter fome nem sêde: é luzidio, nédio, grande e sereno.

 

Mas desce a escada.

 

Lá fora, pode ser ferido pela pedrada dos meninos máus. Pode ser atropelado por uma roda qualquer, dos milhares de rodas que sobem e descem pelos caminhos. Pode ser agarrado, esfolado, e virar tamborim, nas festas de Carnaval que estão preparando nos morros. E, se algum feiticeiro o avistar, pode ser cozido numa panela nova, que é a fórmula de tornar os homens invisíveis.

 

Humanidade, Vida, Morte, Dôr, Alma, Deus, – êle caminha solitário entre as palavras e as idéias. Ele desce a escada.

 

Quando escurecer, seus olhos serão fosforecentes. Mas êle nunca viu seus olhos. Atrás dêle vão a sua sombra e o meu pensamento. Cada qual mais precário.

 

O gato desce a escada.

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E encerramos com «Modinha», poema de Cecília Meireles, musicado e interpretado por Carlos Walker:

 

4 Comments

  1. Olºa Clara,Obrigada pela lembrança. O livro Ou isto ou aquilo, foi editado em primeira-mão pela Giroflé, até hoje estudada como um editora de baguarda na área da literatura infantil.O site Vidas Lusofonas, tem também uma excelente biografia da Cecília Meireles. E porque vale a pena ler, deixo-te como prenda, este poema, com um beijinho a acompanhar.27.1.11Lua depois da chuvaOlha a chuva molha a luvacada gota de águacomo um bago de uvaA chuva lava a ruaa viúva leva o guarda chuva e a luvaolha a chuva molha a luvae o guarda chuva da viúvavai a chuva e chega a lualua de chuvarecadinhos :)26.8.10Canção de DulceDulce, doce Dulcemenina do campode olhos verdes de águade água e pirilampoDoce, Dulce doce, dócilestendendo pelo sol lençóisentre anil e ventoDócil, doce Dulcede face vermelhadoce rosa airosaa fugir da abelhada abelha, de vespase besoiros tontospelo arroio de oirode seixos redondosrecadinhos :)1.6.10Cantiga da babáEu queria pentear o meninocomo os anjinhos de caracóis.Mas ele quer cortar o cabelo,porque é pescador e precisa de anzóis.Eu queria calçar o meninocom umas botinhas de cetim.Mas ele diz que agora é sapinhoe mora nas águas do jardim.Eu queria dar ao meninoumas asinhas de arame e algodão.Mas ele diz que não pode ser anjo,pois todos já sabem que ele é índio e leão.(Este menino está sempre brincando,dizendo-me coisas assim.Mas eu bem sei que ele é um anjo escondido,um anjo que troça de mim.)recadinhos :)30.1.10Jardim da igrejaDalila e Lélia,e Júlia e Euláliacortavam dálias.Dalila e Lélia,Eulália e Júliacantavam dúlias.Dálias e dúliase harpas eólias…E a alada lua– alta camélia?– célia magnólia?dália – Flordúlia – Culto prestado aos anjos e santos.harpa eólia: instrumento de cordas que, quando suspenso, emite sons harmoniosos pela acção do vento.alada – Que tem asas.camélia – Flormagnólia – Florrecadinhos :)8.1.10Ou isto ou aquiloOu se tem chuva e não se tem solou se tem sol e não se tem chuva!Ou se calça a luva e não se põe o anel,ou se põe o anel e não se calça a luva!Quem sobe nos ares não fica no chão,quem fica no chão não sobe nos ares.É uma grande pena que não se possa estarao mesmo tempo nos dois lugares!Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,ou compro o doce e gasto o dinheiro.Ou isto ou aquilo, ou isto ou aquilo…e vivo escolhendo o dia inteiro!Não sei se brinque, não sei se estudo,se saio correndo ou fico tranquilo.Mas não consegui entender aindaqual é melhor: se é isto ou aquilo.

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