Tradução de Júlio Marques Mota
Os zombies de Grillo
Mario Nuti
“O senhor é um homem morto que fala !” – disse Beppe Grillo a Pierluigi Bersani que lhe perguntava se o Movimento 5 Estrelas apoiaria uma plataforma de legislatura que incluísse algumas das iniciativas de estimação de Beppe Grillo. Reconhecidamente Bersani é um líder lúgubre, uma figura de funeral, totalmente sem carisma e, na verdade, “em fase de declineo ou mesmo de anulação”, para usar um termo cunhado por um antigo colega de Cambridge para insultar Tony Giddens, então um candidato a um alto cargo da Faculdade. Afinal de contas, Bersani agora exige respeito, depois de chamar a Grillo “um fascista da Web”, o que ainda é pior e não é confirmado ou mesmo injustificado. O movimento 5 estrelas caracteriza-se pela sua postura não-fascista, não‑ racista, não de direita. Bersani foi totalmente inconsistente: criticou Mario Monti, mas ajudou-o e foi cúmplice nas suas desastrosas políticas recessivas durante quatorze meses. Um partido democrático liderado por Bersani só deixou de considerar a hipótese de formar um novo governo com Monti, dado o desaire eleitoral deste último.
O problema é que Beppe Grillo está a tratar a sua equipa de 54 novos, limpos e jovens senadores e de 109 “deputati Onorevoli” (ou talvez melhor de “cidadãos”, como ele quer ser chamado, rejeitando os tradicionais títulos), precisamente como sendo zombies. “Não vamos dar um voto de confiança para qualquer governo, muito menos a um governo PD-PDL: vamos votar numa base de lei-a-lei , de acordo com o nosso programa”. Mas isto é claramente uma brincadeira, uma mentira: os 163 parlamentares do M5 estrelas não terão a oportunidade de votar lei-a-lei a menos que haja um governo no poder que peça um voto de confiança em ambas as câmaras. Os 163 cidadãos são, assim, transformados por Grillo em Homens Mortos que Não falam.
Congelados, hibernados, silenciados, prontos para serem ressuscitados apenas para deixarem as suas respectivas Casas, quando o Parlamento for em breve dissolvido. Um final bastante inglório para um sucesso tão extraordinário, auspicioso, revolucionário. E quando as novas eleições forem marcadas, os votantes de protesto que se concentraram em Beppe Grillo nos dias 24 e 25 de Fevereiro, agora frustrados com a perda completa dos seus votos, irão voltar para os partidos tradicionais, mais provavelmente para o PDL que também irá absorver alguns dos apoiantes de Mário Monti – a menos que os magistrados enviem Berlusconi para a cadeia.
A sugestão de Grillo, de formar ele próprio um governo, com o voto de confiança ou apoio do PD e PDL, está votada ao fracasso tal como a oferta de Bersani a Grillo de um governo do PD com suporte M5S sobre algumas políticas específicas extraídas do seu programa. O que é necessário é a partilha eficaz do poder, com uma divisão exacta de ministérios, não o vago e inexplicável apoio a políticas presumivelmente a serem desejadas em conjunto (quantas? até que ponto? acompanhadas pelo quê a mais?). Grillo parece favorecer um “Governissimo ” PD-PDL que não duraria muito tempo e levaria a que o PD perdesse metade do seu eleitorado (como aconteceu com a esquerda na Grécia e em Espanha). Massimo D´Alema poderia pagar este preço elevado, pois é o único governo que lhe daria o lugar, o poder. Napolitano e Veltroni também poderiam, para lá do que interessa à estabilidade e ao lugar da Itália na Europa, mas Bersani e os seus comparsas não são susceptíveis de morder esse isco. No entanto, existem três perspectivas ténues para se saír desta crise constitucional sem precedentes.
Primeiro, na sexta-feira Dario Fo – o candidato indicado por Grillo como sucessor de Napolitano, embora não disponível – disse que existe a possibilidade de um acordo com o PD sob a liderança de alguém que não seja Bersani (Matteo Renzi? Fabrizio Barca? Dario Fo não o quis dizer). Já antes, nesse mesmo dia, Massimo D’Alema tinha dito, na televisão, que se Grillo define essa condição ela deve ser imediatamente aceite.
Em segundo lugar, os 163 parlamentares que foram tratados como zombies por Grillo não são nada deste tipo. Há personalidades que estão a surgir dentro do grupo, muito diversas e articuladas . Eles não têm que se revoltar , podem simplesmente ignorar as tentativas para que façam o que lhes é dito para fazerem. Ao dar-lhes um gosto da vida parlamentar dos romanos, eles poderão preferir ficar como parlamentares em vez de voltaram para as suas terras.
Por fim, pode realmente Beppe Grillo perceber que rejeitar a oportunidade de mudar, enfim, alguns dos males fundamentais da vida política italiana pode realmente prejudicar o seu comando actual do voto de protesto. Ele simplesmente não vai ter uma segunda oportunidade.
Comentário ao texto, transcrito do blogue de Domenico Mario Nuti, por A Viagem dos Argonautas:
A uma pergunta que lhe foi dirigida, se Nuti “pensa que uma grande coligação pode ser uma boa solução ? “ este respondeu:
Uma grande coligação requer um significativo terreno comum e finalidade e líderes honestos e competentes.
Um líder acusado de comprar um senador por 3 milhões de euros, violando o silêncio eleitoral, acusando a magistratura de ser uma máfia e prometendo a devolução do montante de um imposto sobre a primeira habitação que ele e o seu partido tinham aprovado é, no mínimo, uma companhia inadequada.
Assim é um líder que falhou duas vezes no governo por não ser capaz de resolver o conflito de interesses, de reformar um sistema eleitoral, projectado para ser antidemocrático a ponto de tornar o país ingovernável e por ter subscrito uma ruinosa mistura de austeridade e das chamadas reformas estruturais.
Dio li fa e poi li accoppia, Deus os faz e depois os acasala.
