Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
Itália: da pós Democracia à pós Europa? O populismo, a assinalar o seu fim
Guillaume Boucard
Os dois grandes perdedores das eleições italianas são na verdade a Europa e a Democracia |
Pela sua presença renovada nos parlamentos, os riscos financeiros e judiciais incorridos por este homem encarnam o mais vil populismo e são, portanto, mais uma vez contornados. Berlusconi questiona também a Democracia, não se tenha nenhuma dúvida |
| Da Europa ou da Democracia, uma na outra, mantemos que a segunda continua a ser prioritária |
Mesmo se os comentários insistem sobretudo na derrota do Mario Monti, o enésimo retorno de Berlusconi e sobre a dinâmica crescente de protesto de Beppe Grillo, os dois grandes perdedores das eleições italianas são na verdade a Europa e a Democracia. A saída da Europa de um tal país, como o é a Itália, levaria a um duplo cataclismo, político evidentemente, mas também económico com uma Itália a ter uma dívida que se avizinha dos 2000 milhares de milhões de euros. Depois da Grécia, a Itália? Em seguida, a França? Que um ex-humorista seja a grande “revelação” da consulta nas urnas, estas eleições interrogam-nos sobre o estado da Democracia, o que é igualmente válido para muitos outros países europeus, marcando-se por uma taxa de absentismo sem precedentes ou de vitórias por ausência. Depois de ver um Papa retirar-se e com um eco inesperado, a Itália parece neste momento estar à beira de uma grave crise institucional de repercussões mais globalmente europeias. Este país, será que vai abrir o baile do luto anunciado pela Europa?
Enquanto liderava a sua sexta campanha, Silvio Berlusconi terá, pelo menos, conquistado a única vitória que na realidade ele desejava e esperava, ou seja, a de dar um golpe fatal na Europa assim como nos seus adversários que ele considera precisamente também muito enfeudados às exigências de Bruxelas. Em pouco mais de dois meses, ele foi capaz de relançar o seu partido através de uma das suas viagens mediáticas em que continua a ser um grande profissional na sua abordagem marketing do plano político. Esse homem, batendo todos os recordes de audiência na imprensa ‘”people” através de numerosos escândalos de costumes, e que reinou durante nove anos desde 1994, consegue pois subir novamente ao estatuto de alternativa aos partidos políticos que aos italianos desagradam fazem cada vez mais. Do plano dos costumes privados ao plano dos costumes unicamente políticos, as pessoas parecem muito mais exigentes ao nível deste último, a menos que tudo isto reflicta um estado geral. A França não foi poupada por esta confusão. Pela sua presença renovada nos parlamentos, os riscos financeiros e judiciais incorridos por este homem encarnam o mais vil populismo e são, portanto, mais uma vez contornados. Berlusconi questiona também a Democracia, não se tenha nenhuma dúvida .
Tratando-se de populismo, o sucesso de Beppe Grillo cobre assim um suplemento muito lamentável para toda a classe política italiana e, paralelamente, para a democracia arrancando-se aqui um esgar sem precedentes num dos mais importantes países da velha Europa. Obtendo quase 25% dos eleitores, o M5 estrelas seria capaz de ganhar mais de 100 deputados na Assembleia e no Senado. Depois de ter feito essencialmente um discurso bastante padronizado de anti-partidos, de anti-sistema, com a exigência acrescida do aumento inviável de salários ele declarou encarnar uma ” força extraordinária ” assegurando querer fazer ” tudo o que ele disse”. Ele excluía toda e qualquer aliança com os parlamentares de centro-direita, dizendo que «colocar a Itália nas mãos de Berlusconi, nem que fosse por seis meses apenas ou um ano, seria um crime contra a galáxia.» Berlusconi e Grillo pelo menos conseguiram assemelharem-se num ódio comum contra o Euro e a Europa. Retenhamos que a actual Constituição foi criada no final dos anos de fascismo (e reformulada em 1990), num esforço para reduzir o excesso de poder o que levou a um modo eleitoral, muitas vezes a desembocar numa governança pelo mínimo que se diga, de precária. A ameaça de um novo fascismo populista não pode ser excluída. Sim, a democracia perde muito dela própria, das suas ilusões, cada vez mais e por todo o lado.
Excepto a ver o partido de Berlusconi e o PD a constituirem uma grande coligação de unidade nacional, a hipótese de se assistir a novas eleições impõe-se como uma necessidade, como o horizonte político mais provável.
O outro facto marcante destas eleições assenta no tipo de campanha relativamente à população. Como noutros países da Europa, os partidos do ‘Governo’ não têm sido capazes de evitar muitas vezes o confronto directo com um povo particularmente irritado pela sua incompetência e corrupção. Por outro lado, o comediante genovês e os seus apoiantes têm contado todos eles com reuniões públicas nas principais cidades italianas. Eles terão sabido tirar partido eleitoral do caso Monte dei Paschi di Siena, este banco cujas perdas monumentais foram habilmente escondidas por artifícios sobre os títulos tóxicos. O centro-esquerda certamente pagou demasiado caro os estreitos laços com o banco em questão. Beppe Grillo conseguiu pelo menos agrupar a contestação crescente de toda uma parte da população atingida pela recessão. Como aliás, a não renovação da classe política faz pesar uma grave ameaça para a democracia e para os partidos políticos que a encarnam. Face a Grillo, homem que condensa na sua pessoa, uma mistura de Coluche e Jean Marie Le Pen versão anarco-trotzkista, Berlusconi não é menos perigoso por encarnar um tipo de populismo ‘leve’. Berlusconi conseguiu banalizar os seus extremos sob um suposto bom senso de futuro. A 2ª República nascida, no início da década de 1990, sobre os escombros do partido comunista e da Democracia-cristã, os democratas cristãos, sai feita em retalhos nestas eleições.
Após ter inicialmente saudado as boas pontuações de Bersani à Câmara, os mercados esfriaram-se no seu optimismo à frente de Berlusconi no Senado. Assim, o euro caiu para 1,31 dólar. Que a direita de Berlusconi ganhe no Senado graças ao seu avanço em duas regiões chave, a Lombardia e a Sicília, anunciava o regresso ao Senado bastante temido por alguns. O mercado mostrava toda a sua preocupação em Milão. A maioria dos traders pensará que o ‘Parlamento será bloqueado’ de acordo com um dos seus representantes entrevistado pelos meios de comunicação. A muita boa pontuação de Grillo, candidato ‘anti-sistema’ também terá impressionado os mercados para traduzir tanto uma rebelião popular consistente como uma possível inflexão de rigor orçamental iniciada até então pelo perdedor, Mario Monti, que alcançou menos de 10%.
O espectro de uma Itália ingovernável e incapaz de manter as reformas consideradas necessárias para o crescimento preocupa hoje os mercados e os investidores, daí a ideia de um “novo voto “, lançado por Pier Luigi Bersani. Resta ainda dizer que uma tal hipótese significaria manter a Itália na incerteza com a ameaça de uma maior radicalização do eleitorado, agora ousando pronunciar-se ainda com mais votos de protesto. Uma nova votação só poderia reforçar o regresso até então inconcebível de Berlusconi? A imagem do partido de esquerda de Melenchon, ou da vaga azul marinho de Grillo parece estruturar uma frente chamada a manter-se.
A coligação de centro-direita liderada por Silvio Berlusconi passa assim à frente de acordo com os últimos resultados. De acordo com as sondagens à saída das urnas, o partido de centro-direita teria finalmente conseguido 31,7% dos votos, contra 29 por cento para a esquerda liderada por Pier Luigi Bersani. O movimento M5 estrelas do cómico popular Beppe Grillo apareceu há um ano atrás sobre o ‘slogan ‘ ganhar 25% dos votos. Lembremo-nos que o Partido Escolha do Cidadão apoiado por Mario Monti, obteve cerca de 8,5% dos votos.
Escolha do cidadão? Enquanto que Pier Luigi Bersani conclui um livro recente, afirmando que a sua grande aspiração é que a Itália inverta a sua trajectória , que os jovens encontrem um espaço para construir o seu futuro, que a justiça, a cidadania e a solidariedade se tornem valores mais procurados, o povo que cobre uma grande maioria de contestação e de abstenção parece animado por um outro Estado de espírito do que o seu próprio. O líder do Partido Democrático (PD) sucederá daqui a 15 de Abril a Mario Monti, à Presidência do Conselho. Ele poderá ter grande necessidade de pragmatismo o que ele reconhece. Talvez ajude o facto de que após os seus estudos de filosofia ele defendeu uma tese dedicada ao Papa Gregório de que nem diz mal levando-o a lançar a esponja antes do termo como Bento XVI.
Relativamente desconhecido na cena internacional, Bersani fez recentemente uma viagem pelas capitais europeias. François Hollande não passou a oportunidade sem o homenagear no passado de Outubro no Palácio Eliseu. A 7 de Fevereiro de 2013 o mesmo Bersani viajou até Berlim para se encontrar com Angela Merkel. Este duplo apadrinhamento improvável que foi recebido por Bersani, foi-o já numa fase muito crítica da Europa. O Presidente francês ter-se-á mostrado na primeira linha, e a França brevemente poderá vir a conhecer horas bem difíceis. Irá o Cabri da Europa mencionado outrora pelo General De Gaulle “saltar” da forma mais explosiva que se possa pensar? Não é dito que maioritariamente as pessoas o temem realmente, excepto se na verdade o estiverem a desejar. Da Europa ou da Democracia, uma na outra, mantemos que a segunda continua a ser prioritária .
Guillaume Boucard, Italie: de la post Démocratie à la post Europe? Le populisme sonne le glas, texto recolhido no site Agora Vox

