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Da Galiza, mensagem : Batepá – por Isabel Rei

Da Galiza mensagem

Batepá

Era 3 de fevereiro de 1953 quando arredor de mil pessoas foram assassinadas pelos colonos na praia de Fernão Dias e noutros lugares da ilha de São Tomé. A poeta são-tomense Alda do Espírito Santo descreveu assim o massacre de Batepá:

O sangue caindo em gotas na terra
homens morrendo no mato
e o sangue caindo, caindo…
Fernão Dias para sempre na história
da Ilha Verde, rubra de sangue,
dos homens tombados
na arena imensa do cais.

A imensa ‘arena’ traz o recordo lostregante das touradas de galegos trabalhando os secos campos castelhanos, cantando alalás, única água daquelas fontes. E dos galegos poderosos, endo-colonialistas na própria terra.

Para vós, carrascos,
o perdão não tem nome.

Como sonhava a poeta no mormaço tropical dessa terra de África, agora crianças novas brincam na areia desenhando a senda de todos os destinos. Mas ainda outra poeta principense, Maria Manuela Margarido, nos alertava:

É preciso não perder
de vista as crianças que brincam:
a cobra preta passeia fardada
à porta das nossas casas.

Em São Tomé e Príncipe mudaram os tempos, mas em Portugal mudaram as vontades? Neste Finisterrae galego, porto cêntrico, onde a angústia da revolta atravessa o pensamento, ainda os berros ecoam não somente daquele infausto dia, mas de todos os dias em que as pessoas, aqui e ali, foram torturadas pelo terrorismo do poder.

Alto sonho, alto
como o coqueiro na borda do mar

Como com as vítimas da ditadura espanhola, cumpre o restauro das maldades infligidas e nunca cicatrizadas. E nos dias de hoje, em que as independentistas galegas sofrem sequestro e acosso, é preciso invocar a África e berrar: Não permitiremos outro Batepá! Queremos o alto sonho, alto como o pinheiro na borda do mar.

 

Dores Dias Valinho (1905-1963)

 

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