UM CAFÉ NA INTERNET – Onde estão os homens caçados neste vento da loucura, por Alda do Espírito Santo

 (1926 – 2010)

Um café na Internet

 

 

 

 

 

O sangue caindo em gotas na terra

homens morrendo no mato

e o sangue caindo, caindo…

nas gentes lançadas no mar.

«Fernão Dias» para sempre na história

da Ilha Verde, rubra de sangue,

dos homens tombados

na arena imensa do cais.

Ai o cais, o sangue, os homens,

os grilhões, os golpes das pancadas

a soarem, a soarem, a soarem

caindo no silêncio das vidas tombadas,

dos gritos, dos uivos do dor

dos homens que não são homens,

na mão dos verdugos sem nome.

Zé Mulato, na história do cais

baleando homens no silêncio

do tombar dos corpos.

Ai Zé Mulato, Zé Mulato,

as vítimas clamam vingança,

o mar, o mar de Fernão Dias

engolindo vidas humanas

está rubro de sangue.

─ Nós estamos de pé ─

Nossos olhos se viram para ti.

Nossas vidas enterradas

nos campos da morte,

os homens do cinco de Fevereiro

os homens caídos na estufa da morte

clamando piedade

gritando p’la vida,

mortos sem ar e sem água

levantam-se todos

da vala comum

e de pé no coro de justiça

clamam vingança…

…Os corpos tombados no mato,

as casas, as casas dos homens

destruídas na voragem

do fogo incendiário,

as vidas queimadas

erguem o coro insólito da justiça

clamando vingança.

E vós todos carrascos

e vós todos algozes

sentados nos bancos dos réus:

─ Que fizestes do meu povo?…

─ Que respondeis?

─ Onde está o meu povo?…

…E eu respondo no silêncio

das vozes erguidas

clamando justiça…

Um a um, todos em fila…

Para vós, carrascos,

o perdão não tem nome.

A justiça vai soar.

E o sangue das vidas caídas

nos matos da morte,

o sangue inocente

ensopando a terra

num silêncio de arrepios

vai fecundar a terra,

clamando justiça.

É a chama da humanidade

cantando a esperança

num mundo sem peias

onde a liberdade

é a pátria dos homens…

                        (É nosso o solo sagrado da terra)

 

 

Fui buscar este poema a Poesia africana di rivolta, livro organizado por Giuseppe Tavani, editado por Laterza, em 1969, e que contém um ensaio de Mário de Andrade sobre a poesia africana de expressão portuguesa. Alda do Espírito Santo, são-tomense, professora, poetiza, com uma carreira política no seu  país, escreveu este poema sobre os massacres ocorridos em 1953, em S.Tomé, para sufocar a revolta ocorrido quando o governador Carlos Gorgulho quis impor o trabalho obrigatório.  A família de Alda do Espírito Santo, com algum atraso apresentamos os nossos pêsames. E obrigado ainda ao blogue Os Caminhos da Memória e à Diana Andriga que nos ajudaram a recordar os acontecimentos acima mencionados.

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