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CARTA DE VENEZA – 54 – por Sílvio Castro

“Bicentenário do nascimento de Verdi”

  Entre as muitas datas deste 2013 dígnas de grandes comemorações encontra-se aquela de marcado interesse histórico não somente para os italianos, mas que repercute praticamente em todo o mundo: o bicentenário do nascimento de Verdi. Para os venezianos, em particular, tal evento recobre os maiores espaços em quase o total do ano. O Teatro La Fenice, de Veneza, dedica um grande espaço às comemorações verdianas, passando desde as óperas mais populares, como La traviata, até outras não frequentemente encenadas, como I masnadieri que teve a sua prima apresentação em Londres, com relativo sucesso. Outro ponto de grande realce da programação atual do teatro veneziano, quase ainda num infindável confronto ideal entre Verdi e Wagner, é aquele referente ao bicentenário de nascimento do grande compositor alemão (Lípsia, 1813; Veneza, 1883).

 Giuseppe Verdi, criador de um novo gênero de teatro operístico, desde o seu mais jovem aparecimento foi adotado pelos amantes da musica em geral. O autor de Il trovatore deu um tal impulso ao gênero da ópera ao ponto de fazer de seus trabalhos uma referência essencial para a melhor definição do mesmo. A sua dedicação à criação operística foi tal que até mesmo chegou a levar muitos cultores da música a lamentar um seu presumível desprezo pela música sinfônica.

Verdi, de longo nome, Giuseppe Fortunino Francesco, nasceu em Roncole di Busseto, Parma, no dia 10 de outubro de 1813. Curioso é o fato de ter o grande compositor sempre considerado e declarado que o ano de seu nascimento era 1814, porque assim lhe tinha sempre afirmado a sua mãe. Porém, uma certidão de nascimento do autor do Rigoletto, publicada pelo estudioso italiano G. Gatti, estabelece que ele nasceu em 1813. A carreira de Verdi tem um seu fulcro especial na realização logo depois Stiffelio, em 1850, libreto de Piave, da trilogia famosa: Rigoletto, Il trovatore e La traviata. Depois desse ápice da opera popular, Verdi passa por um período de grandes reflexões, a partir do qual cria obras de novas dimensões. Nesse mesmo período inicia-se igualmente a primeira fase do teatro de ópera de Wagner. Verdi, depois da trilogia, se dedica à composição de grandes óperas e a conquista de uma dimensão internacional. Paris é a grande meta e ali o compositor apresenta em 1855 aquela que inaugura a sua nova fase, Les vêpres siciliennes, com libreto de Scribe, logo seguida por Simon Boccanegra (1857), com libreto de Piave. Começava dessa maneira uma fase da obra verdiana que permitia a visão de uma maior atenção à parte formal das composições. A essas seguem muitas outras, muitas delas entre as óperas maiores do compositor italiano, D. Carlos, Aida, Othelo etc, etc.

 A partir de determinado momento de sua existência, o Verdi de tantas obras-primas diminue sempre mais a própria produção. Mas dessa fase de mais lenta produção, o compositor realiza em 1873 o Quarteto em mi menor para arcos, e em 1874 a sua belíssima Messa da requie, dedicada a Manzoni.

  Giuseppe Verdi morre em Milão, pátria de sua grande carreira, aos 27 de janeiro de 1901, quando já havia conquistado a admiração de todo o mundo.

 O compositor excelso de certa forma está igualmente ligado ao Brasil. Em 1870, Carlos Gomes, depois de ter passado também por experiências de aprendizagem musical diretamente com Verdi, apresenta à platéia do Teatro Scala de Milão, com a presença igualmente do Mestre, a prima da sua obra-maior, O Guarani. A tradição histórico-musical brasileira cultiva com grande empenho uma recordação do grande evento e ingenuamente repete um lendário comentário do grande Verdi ao sucesso de seu jovem discípulo brasileiro: “O senhor começa onde eu acabei.”

P.S. Permito-me aqui colocar uma retificação a um ponto da minha anterior Carta de Veneza, de n°. 33, a mesma em que trato da presença do romancista português Gonçalo M. Tavares no Festival Internacional de Literatura de Veneza. Num determinado ponto do artigo, quando me refiro à tradução italiana de um romance de Gonçalo Tavares realizada por Roberto Francavilla, por um lapsus de memória, cito mal o título do original português que, em verdade é: Aprender a Rezar na Era da Técnica, romance que já agora está conquistando muitos leitores também na Itália. S. Castro

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