CARTA DE VENEZA – 55 – por Sílvio Castro

 Bicentenário do nascimento de Wagner

As centenas e milhares de pessoas que diariamente frequentam o Casino de Venezia, situado no Palácio Vendramin-Calergi, um dos monumentais palácios que orlam as margens do Canal Grande da cidade dos Doges, praticamente não percebem que naquele mesmo Palácio, numa espécie de sobre-loja, com entrada direta do pátio que dá acesso aos espaços da Casa de jogos, ali morou por muitos anos e ali morreu Richard Wagner. Será a incontida ânsia pelas possíves-impossíveis vitórias sonhadas que os leva a uma tal distração. Porém, passada a ânsia, caminhando pelas elegantes salas e salões que hospedam os jogos, muitos deles se dão conta daquele outro precioso espaço. E procuram conhecê-lo.

O chamado “apartamento de Wagner”, amplo espaço mobiliado com as peças originais do século XIX, logo revela a sacralidade de que é revestido o ambiente. O plano alçado, colocado entre o primeiro andar do Palácio e seu térreo, tem a entrada autônoma diretamente do pátio amplo, mas pode ser igualmente alcançado a partir do interior do edifício renascentista, das salas de jogo ou daquelas do restaurante que ocupa todo um andar. Naqueles apartamentos residiu por longo tempo o grande compositor e sua segunda mulher, Cosima. Wagner, viúvo, casou-se em segunda núpcias com a figlia de Franz Lizt e da contessa M. de Agoult, em 1870, um ano depois que Cosima se divorciara do pianista e maestro de orquestra H. von Bulow, aluno de Wagner.

Depois da morte de Richard Wagner na sua residência veneziana a 13 de fevereiro de 1883, Cosima Lizt continuou a sua missão de divulgação da música do compositor no Festival de Bayreuth, por ela transformado em estável Instituto.

Como acontecera igualmente com Verdi, Wagner cresce musicalmente como um auto-didata de fato, pois não pode senão frequentar lições de um singular mestre, inibidos ambos de entrar num regular conservatório. Mas assim como acontecera com  o autor da Aida, Wagner cresce sempre e em breve alcançará os pontos remarcantes de sua arte revolucionária.

Transferido muito jovem ainda com a família para Lípsia, Wagner continua os esforços para uma pessoal formação musical, bem como passa a frequentar estudos filológicos e filosóficos aos quais era muito interessado. O jovem Wagner frequenta então os grandes centros de discursões filosóficas e  literárias, bem como políticas, que caracterizam a intensa vida cultural da cidade. Tudo isso será de grande importância para a estruturação da poética musical wagneriana. Será dalí que lhe virão os maiores impulsos para a exaltação da grande nação alemã, típica de seu teatro musical.

Sempre em paralelo às experiências vividas por Verdi, Wagner conquista igualmente os maiores reconhecimentos musicais depois que encontra a definitiva estruturação de sua obra artística. Para a definitiva elaboração desta obra, o compositor ansioso de uma nova modernidade, se ampara na melhor tradição musical de seu país, Gluck, Beethoven para a linha temática; e de um Weber para aquela lírica.

Apoiando-se nesta grande linha da tradição musical e aperfeiçoando sempre sua cultura filológica e filosófica, Wagner lenta, mas conscientemente, atingirá as suas vetas. Tudo começa com o poder de tradução da incontida natureza do Norte com a reveladora composição do Nibelungo. Wagner está por realizar as conquistas imortais do Tannhäuser e do Lohengrin. A música oitocentista a partir de então acrescenta novas conquistas que preanunciam os grandes próximos momentos derivados do Impressionismo musical.

Também para a obra de Richad Wagner, nas comemorações do segundo centenário de nascimento, assim também como o faz para os correspondentes do renovador da lírica italiana, Giuseppe Verdi, o teatro La Fenice dedica uma série de espetáculos que fazem sempre vivo o genial compositor alemão. O encontro das duas comemorações do Teatro veneziano servem para ajudar sempre mais a superar a inútil controvérsia sempre existida sobre as obras dos dois grandes compositores.

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