Abril nunca existiu! Existe o mês de Abril. Ano após ano. Também Abril de 1974, quando, na madrugada do dia 25, um levantamento militar, na região da Grande Lisboa, avança sobre a capital e tem um final feliz. Em consequência, cai, de podre, o regime fascista de Salazar-Caetano. E as multidões, espicaçadas pelas rádios, ocupam as ruas de Lisboa. A Pide refugia-se na sua sede, na António Maria Cardoso, ainda hoje, todos estes anos depois, cheia de gritos e de sangue das inúmeras vítimas dos seus agentes torturadores. Alguns deles, desvairados, chegam a disparar contra as multidões desarmadas e reivindicativas, porventura, até, sei lá, carregadas de ódio e de sede de vingança. Os agentes da Pide são mesmo assassinos. Como são assassinos os agentes da Cia e da Gestapo. Cada regime de Poder tem a sua Pide, a sua Cia, a sua Gestapo, constituídas por agentes assassinos, em tudo iguais, aparentemente, aos demais cidadãos. Basta que lhes digam, Fulano é para abater, e o Fulano é abatido. Na hora programada. Sempre foi assim. Sempre será assim, enquanto, em lugar de sermos populações e povos economia e política praticadas, todos os dias da vida, preferirmos continuar a suportar, geração após geração, elites de Poder, nos três poderes em que o Poder sempre subsiste. Por isso, escrevo e digo, Abril, o 25, nunca existiu. O golpe militar desse histórico dia teve um final feliz, as populações ocuparam as ruas, meteram-se, inclusive, a festejar, a dançar, a manifestar-se, durante dias, semanas, meses, ocuparam terras e casas devolutas, porém, nunca se lembraram de serem elas próprias, nos seus próprios corpos, o País outro, maieuticamente organizado, que sonhavam. E sonham. E não se lembraram, porque sempre sonham – maldito messianismo/cristianismo religioso e político! – com o aparecimento de um salvador/messias/cristo poderoso, que as liberte e salve e lhes dê, de mão beijada, o País outro, o mundo outro, com que sempre sonham, sem nunca, elas próprias, lhe darem corpo, nos seus corpos. Sei que se vão zangar muito comigo, mas tenho de lhes voltar a dizer: Abril nunca existiu! Pela simples razão de que ainda lhe não demos corpo nos nossos corpos. Preferimos passar o tempo a ver futebol, novelas, a fazer a nossa vidinha cheia de rotinas, ir à missa ao domingo, ao funeral de um amigo, peregrinar até Fátima, nem que seja como turistas, fazer férias no estrangeiro, e entregar a sucessivas elites a condução do país e do mundo. Não é verdade que, até, a monstruosa elite política – a Pide no Poder executivo! – que presentemente está a atirar o País para o abismo, lembra, a todo o momento, que está em funções por vontade do povo português? Choremos e mudemos radicalmente de ser e de Deus! Porque tivemos o País, inteiro, ao nosso alcance, mas, preguiçosamente, reduzimo-lo a um cravo vermelho e a um slogan – “25 de Abril, sempre, fascismo, nunca mais!” Se verdadeiramente queremos um País outro, inteiro e limpo, então, façamo-nos pobres por opção, a única maneira de erradicamos o Senhor Dinheiro da face da terra, e de sermos, finalmente, irmãs, irmãos uns dos outros. E o País outro, inteiro e limpo, virá por acréscimo!