UM ARGONAUTA ENTREVISTA OUTRO ARGONAUTA .
(COM EXPRESSA A
UTORIZAÇÃO DE ENTREVISTADO E ENTREVISTADOR )
Era capelão das tropas portuguesas na Guiné-Bissau, e nessa condição ousou pregar a Paz. Mas o tempo era de guerra, ainda que esta fosse uma guerra particularmente injusta. E Mário de Oliveira, o capelão pacifista, acabou com guia de marcha para a «metrópole», como então se chamava a Portugal continental. Não esteve mais de quatro meses no teatro de operações, mas foi o suficiente para perceber que, se queria espalhar a palavra de Jesus Cristo, teria de, como Ele, sujeitar-se à raiva e à incompreensão dos poderosos.
Ordenado presbítero da Igreja Católica em 5 de Agosto de 1962, Mário de Oliveira tinha sido até então coadjutor da Paróquia das Antas, professor de Religião e Moral nos Liceus Alexandre Herculano e D. Manuel II, no Porto, pároco de Paredes de Viadores, no Marco de Canavezes. Depois de expulso da Guiné, foi pároco de Macieira da Lixa, no concelho de Felgueiras. Aí continuou o seu apostolado pela Paz, e as suas homilias depressa começaram a andar de boca em boca, o que lhe valeu ser duas vezes preso pela PIDE e outras tantas julgado no Tribunal Plenário do Porto. A acusação era sempre a mesma, «subversão», tal como, quase dois mil anos antes, aconteceu com um certo nazareno.
A hierarquia católica não lhe perdoou a intromissão nas coisas terrenas, e sobretudo não lhe perdoou a coragem de afrontar o poder fascista, com que a Igreja sempre manteve relações privilegiadas. Como consequência, Mário de Oliveira foi afastado do ofício pastoral, e assim continua, mais de 30 anos passados sobre a restauração da democracia. Mas o ostracismo a que foi votado pelos seus pares não lhe quebrou a determinação, e em 1975 tornou-se jornalista profissional. Passou pelas redacções do República, do Página Um, do Correio do Minho, e actualmente dirige o Jornal Fraternizar, que ajudou a fundar em 1988.
Hoje como ontem, a sua voz permanece clara e incómoda. Íntegra como a coragem que demonstrou ao longo de toda a vida. Os vários livros que já publicou reflectem a mesma preocupação com o mundo e com as barbaridades que têm sido cometidas em nome de Deus. Que Fazer com esta Igreja?, Nem Adão e Eva, Nem Pecado Original ou Fátima Nunca Mais são alguns dos títulos que têm provocado alguma azia a bispos e cardeais. Mário de Oliveira, o Padre Mário da Lixa, padre católico sem templo nem altar. Que não lhe faz falta nenhuma.
– Três meses antes do 25 de Abril, o padre Mário estava preso, acusado de «actividades subversivas». Como viveu a revolução?
– Depois de duas prisões políticas em Caxias e outros tantos julgamentos no Tribunal Plenário do Porto, só podia viver a revolução de Abril 74 com emocionante alegria. Na manhã do dia 25, acordei em casa dos meus pais, em Lourosa, Santa Maria da Feira. Quando cheguei à cozinha, para o pequeno-almoço, liguei o rádio por notícias. Saiu-me aquela música em forma de marcha alegre, só interrompida pela leitura do comunicado do Comando do Movimento das Forças Armadas. Uma e outro foram de imediato interpretados por mim como sinais duma revolução para a liberdade. O meu coração ficou aos pulos, olhei a minha mãe e abracei-me a ela emocionado, enquanto lhe dizia: «Mãe, deve ter havido uma revolução libertadora no nosso país. Se assim for, nunca mais serei preso pela PIDE. Acabaram-se os sofrimentos por motivos políticos, quer para vós, quer para mim.» Felizmente, as horas e os dias seguintes confirmaram que assim havia sido. Por isso, a quem me queria ouvir, não me cansava de dizer: a verdadeira Páscoa, este ano de 1974, foi no dia 25 de Abril, não no dia em que o calendário a havia previamente fixado. Para mim, aquela foi a madrugada em que o nosso país nasceu como povo de povos e morreu definitivamente como império colonial. Respirei alegria e festa como nunca antes.
– A propósito, lembro-me de um livrinho editado por altura de uma das suas prisões, cujo título era uma pergunta: «Subversão ou Evangelho?» Era uma questão pertinente face à sua actividade de então?
– A questão era e é pertinente. O livro em causa contém as principais peças do processo do meu primeiro julgamento no Tribunal Plenário do Porto. Foi organizado e editado pelo meu advogado de defesa, o meu amigo Dr. José da Silva, então deputado com o Dr. Francisco Sá Carneiro e outros da chamada «Ala Liberal», na Assembleia Nacional. O título foi da responsabilidade do advogado. Na altura, o Bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes, chegou a sugerir, emocionado, um outro título: Evangelho no Pretório. O Dr. José da Silva achou a sugestão muito interessante e muito oportuna, mas não quis ir tão longe, porque entendia que a minha absolvição no Plenário do Porto tinha deixado furiosa uma certa direita católica no país. Um título tão afirmativo como o sugerido pelo Bispo D. António iria, certamente, acirrar ainda mais os ódios teológicos desses católicos do regime salazarista. Por isso, optou por um título mais humilde, em forma de pergunta. Mas a resposta à pergunta do título era óbvia para quem lesse as peças do processo que «faziam» o livro. Aliás, a própria sentença absolutória do colectivo de juízes apontou na mesma direcção. Contudo, o objectivo do advogado, com o título em forma de pergunta, não foi plenamente alcançado, uma vez que, poucas semanas depois dele ter aparecido, surgiu um outro livro, da autoria oficial de um tal Amadeu C. de Vasconcelos, cujo título afirmativo não deixava dúvidas da parte de quem vinha: Subversão, sim. Evangelho, não. Por mim, não fiquei lá muito surpreendido com esta reacção, ou não fosse verdade aquilo que diz o nosso povo: «O pior cego é o que não quer ver». Ou, dito ainda com mais propriedade: «O pior cego é o que não quer perder os seus inúmeros privilégios.» De resto, era também por aí que ia a tese da Pide contra mim: os agentes que me vigiavam e controlavam a minha actividade pastoral só viam subversão, lá onde eu só via Evangelho. Felizmente, o Tribunal Plenário do Porto teve o discernimento e a audácia de só ver Evangelho no exercício do meu ministério presbiteral e pastoral na paróquia de Macieira da Lixa. Foi por isso que me absolveu, ao abrigo da Concordata!
(…)
– Hoje, «sem paróquia nem altar», como faz para levar por diante o seu trabalho?
– Desde que me profissionalizei como jornalista e me vi na situação de padre ou presbítero da Igreja do Porto sem ofício pastoral, procurei abrir o meu próprio caminho eclesial fora do sistema eclesiástico, mas sempre dentro da Igreja de Jesus. Hoje, parece-me até que esta minha vivência é muito mais eclesial do que seria, se eu tivesse permanecido na condição de funcionário eclesiástico, como sucede com a generalidade dos meus colegas. Infelizmente, é isso que o sacramento da Ordem costuma fazer: funcionários eclesiásticos, ao incondicional serviço do sistema eclesiástico, na pessoa do funcionário eclesiástico-mor, o bispo residencial. Mas não é para isso o sacramento da Ordem. Na intenção do Espírito Santo que o faz acontecer na Igreja, o sacramento da Ordem destina-se a suscitar mulheres e homens que venham a ser, no hoje e aqui da Igreja e do mundo, outros Cristo, como Jesus, o de Nazaré, foi. Porque é de mulheres e de homens dessa têmpera, radicalmente libertadores, que a Humanidade carece, não de funcionários eclesiásticos! A verdade é que, a partir do momento em que me vi longe dos altares e dos templos, também me vi a ser cada vez mais presença fraterna e solidária entre os muitos católicos, mulheres e homens, que cada vez em maior número, deixavam e continuam a deixar de frequentar as paróquias. O mais curioso é que logo percebi que a Fé cristã jesuânica sempre se deu bem numa situação como a minha. Nunca devemos esquecer que também Jesus, o de Nazaré, sempre se deu bem longe das sinagogas do seu país e longe do altar do templo de Jerusalém. Não foi sacerdote, nem fez das suas discípulas e dos seus discípulos sacerdotes. Aliás, o Cristianismo de Jesus não é uma religião mais, entre as muitas religiões. É uma via ou caminho de libertação e de partilha que, se for percorrido até ao fim, nos humaniza e fraterniza. Deixei então de frequentar os templos e os altares, mas não deixei de frequentar as vidas concretas das pessoas, as suas casas e todos os outros locais frequentados por elas. Progressivamente percebi que o principal serviço de um presbítero, como o de um bispo, não é presidir aos cultos nos altares (coisa que faziam os sacerdotes dos cultos do paganismo), mas anunciar o Evangelho – Evangelizar os pobres – anunciar a Boa Notícia de Deus que um dia pudemos ver em plenitude no ser humano histórico, Jesus de Nazaré. E é esse serviço ou ministério que procuro realizar, com escândalo para muitas e muitos que continuam a pensar que um padre existe para queimar o seu tempo no altar, em missas em série, em actividades eclesiásticas que, na maior parte dos casos, em lugar de contribuírem para humanizar as populações e os povos, contribuem para alienar e oprimir quem insiste em as frequentar com regularidade. O simples facto de hoje já existirem pequenas comunidades cristãs de base, alternativas às paróquias territoriais (felizmente, também contribuí para o nascimento de algumas delas) está a dizer que a Igreja de amanhã só poderá ser uma Igreja de pequenas comunidades de iguais e de irmãs/irmãos, por isso, sem clero e sem qualquer hierarquia, para lá da do serviço maiêutico ou libertador. Hoje, a minha maneira de viver o ministério presbiteral ainda é olhada de soslaio e até com escândalo, por parte de muitos católicos tradicionais, mulheres e homens, mas num futuro não muito distante já será prática corrente. Quando a Igreja deixar efectivamente de ser Cristandade ou poder-com-o-poder-dominante, e for apenas presença-fermento na Humanidade; quando a Igreja perder de vez a excessiva visibilidade que hoje ainda tem como super-estrutura eclesiástica, e humildemente estiver a contribuir, como fecunda presença escondida, para uma maior visibilidade da Humanidade, progressivamente autónoma e protagonista. Por mim, já vejo e experimento este dia. E por isso posso dizer que sou um homem realizado e em paz.
– Fátima nunca mais é o título de um livro seu. Fátima foi uma fraude? Então o que é que aconteceu em Fátima em 1917?
– Fátima foi uma fraude. E continua a ser uma fraude. As chamadas aparições da senhora de Fátima são o que há de, cultural e teologicamente, mais parolo e parvo no nosso país. São o obscurantismo em acção. São o exemplo mais acabado do Portugal de pequeninos e de analfabetos que o catolicismo português produziu, em união com a monarquia, desde a fundação de Portugal, ao tempo de D. Afonso Henriques, o qual para ser reconhecido como rei pelo papa de então, teve que pagar quatro onças de ouro. Em Fátima, nada nos lembra Maria, a de Nazaré, a mãe carnal de Jesus. Tudo o que lá se faz é pura idolatria. É puro paganismo, travestido de cristianismo. Ou, se quisermos falar com mais propriedade, é Cristianismo pagão. Não tem nada a ver com o Cristianismo de Jesus, o de Nazaré. As pessoas geralmente não sabem que antes de Jesus, já tinha havido muitos Cristos. A novidade das comunidades primitivas que estão na origem da Igreja é que elas atreveram-se a reconhecer em Jesus de Nazaré, o Crucificado pelo Templo e pelo Império, o Cristo, o Libertador, o ser humano por antonomásia. Em mais ninguém. E foi assim que nasceu o Cristianismo de Jesus, ou o Cristianismo jesuânico. Em Fátima, o que há, desde 1917, é puro paganismo. Nada do que lá se faz tem as marcas de Jesus, o de Nazaré. Tem apenas a marca da mítica Deusa virgem e mãe dos cultos do paganismo mais primitivo, quando as sociedades foram matriarcais, e que, desde então, nunca mais descolou do inconsciente colectivo dos diversos povos do mundo, também do povo português.
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– Se Fátima é uma mentira, e se essa mentira é suportada e incentivada pela hierarquia da Igreja, ao mais alto nível, então eu posso concluir que o Papa é mentiroso?
– Não. Não pode concluir que o Papa é mentiroso. O que pode concluir é que a mentira foi e tem estado tão bem montada, que até conseguiu enganar um homem com a estatura e a formação do católico polaco Wojtyla, desde há 26 anos bispo da Igreja de Roma e Papa da Igreja universal. Para mal da Igreja e da causa do Evangelho de Jesus, trata-se de um Papa fatimista q.b., que confunde os cultos em honra da mítica Deusa virgem e mãe, já lucidamente combatidos pelos profetas bíblicos, muitos séculos antes de Jesus nascer, com a mulher história que veio a ser a mãe de Jesus, Maria de Nazaré, de seu nome. Esta confusão redunda numa aberração teológica sem paralelo. E o que a mim mais me impressiona é que as teólogas e os teólogos da Igreja católica e das Igrejas irmãs protestantes se mantenham em cúmplice silêncio. Nunca choraremos bastante, perante este desastre teológico e humano e suas consequências. Mas, infelizmente, não é a primeira vez que um desastre destes acontece. Quem não se lembra, por exemplo, que o judaísmo do tempo de Jesus, na pessoa dos seus líderes maiores, preferiu o Deus que se revelava em César de Roma, ao Deus que se revelava em Jesus de Nazaré? Mas é por causa de desastres destes que a Humanidade progride tão pouco em libertação para a liberdade e o Império que é mentiroso e assassino continua a ter pernas para andar e é saudado pelas populações e pelos povos do mundo como a salvação! Para nossa vergonha.
– Por falar no Papa: hoje já quase ninguém fala de João Paulo I, que – na minha modesta opinião de agnóstico – tinha o mais belo sorriso de que há memória na história da Igreja. No fim do seu curto papado, houve quem sugerisse que ele tinha sido assassinado. Acredita nessa hipótese?
– A esse propósito, escrevi há uns três anos o prefácio para um livro de um padre francês meu amigo que, infelizmente, nunca chegou a ser publicado nem lá nem cá. O livro tentava abordar o problema do assassinato ou não assassinato do Papa João Paulo I. É desse prefácio esta curta passagem que aqui revelo em primeira mão: «Se não o eliminaram fisicamente, o que é mais do que provável ter acontecido e daí a irrevogável decisão da Cúria em não permitir a autópsia ao cadáver – bastaria para tanto adicionar uma dose fatal de veneno sem sabor nem cheiro, digitalina, por exemplo, ao effortil que ele tinha que tomar todas as noites antes de se deitar e que o ajudava a manter, nos níveis ideais, as suas tensões habitualmente baixas – então mataram-no moralmente, mediante a prática de toda a espécie de golpes baixos que cometeram contra ele, próprios de uma máfia bem montada, bem organizada e bem dirigida, da qual fazia parte um restrito número de cardeais, por sinal, os mais influentes do Estado do Vaticano de então, e que não estavam nada dispostos a perder o poder de que desfrutavam, coisa que teria inevitavelmente ocorrido, se o papa não fosse fisicamente eliminado naquela precisa e fatídica noite de 28 para 29 de Setembro de 1978.» Infelizmente, a história da Igreja, como a história em geral, feita por homens e mulheres ainda em vias de o serem, tem sido fértil em crimes de lesa-Humanidade e de lesa-Natureza de bradar aos céus. O mais que provável assassinato de um papa tão humano como o Papa João Paulo I – o Jesus do século XX – ao lado desses crimes, é coisa de somenos importância. E a Cúria Romana não teve qualquer dificuldade em abafar o caso. Agora só falta mesmo propor a beatificação e canonização de João Paulo I, para que o crime de que foi vítima nunca mais seja lembrado!
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– Um aspecto que diferencia a sexualidade humana da sexualidade animal é o prazer e a dimensão afectiva. Wilhem Reich, por exemplo, foi perseguido por defender que o sexo era uma coisa bela e não um pecado ou um mal necessário. E eu atrevia-me a fazer uma divagação eventualmente herética e a dizer que «fazer amor» é uma expressão que quase remete para o Sagrado. Concorda comigo?
– Concordo, evidentemente. Fazer amor, mas com amor (o que nem sempre acontece, infelizmente) é tão sagrado como fazer a Eucaristia, por exemplo. Beijar é orar, é o título de um livro, cujo autor é pregador de retiros num mosteiro. A afirmação apoia-se no já referido livro bíblico, o Cântico dos Cânticos, que abre precisamente com estas palavras tão sadiamente provocadoras, quanto humanas: «Beija-me com os beijos da tua boca! Melhores que o vinho, são as tuas carícias!» Mas o mais impressionante é que todo o poema é protagonizado por um casal que o não é de facto, é um casal de amantes, como hoje diríamos. E porque é que as coisas são assim aos olhos de Deus, o de Jesus? Porque a glória de Deus é que o ser humano viva. Poderíamos traduzir: a glória de Deus é que o ser humano atinja o orgasmo, a plenitude, o êxtase, tanto nas suas relações conjugais/sexuais, como nas suas relações sociais e comunitárias. Entenda-se, evidentemente, orgasmo em sentido amplo, como plenitude de vida humana. O raquitismo, todo o tipo de raquitismo não glorifica a Deus, pelo menos, o Deus de Jesus que o que mais quer é que os seres humanos vivam e vivam em abundância. Mas esta abundância está longe de se esgotar na relação sexual, no fazer amor em sentido meramente sexual. Aliás, o amor que não consegue ir além da cama não tem asas para fazer seres humanos. Por isso, pode haver mulheres e homens que, sem nunca fazerem amor, em sentido sexual, o fizeram como ninguém, quando se tornaram dom para os demais, na maior das gratuidades e no maior dos despojamentos. Mas para se chegar aqui, é preciso falar a língua da fraternidade/sororidade universal, coisa que o nosso tempo, infelizmente, parece que nem quer ouvir falar, obcecado que anda com fazer amor na dimensão sexual. Mas é para aí que até o fazer amor em sentido sexual tem que apontar. Pobre de quem não for capaz de o perceber a tempo e não ousar avançar nessa direcção. Porque então não terá chegado a tocar o especificamente humano, por mais actividade sexual que mantenha nos anos de vida propícios a isso.
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