NÃO SEI O QUE DIZER-TE, 25 de ABRIL – por Paulo Ferreira da Cunha


Não sei o que dizer-te, 25
De abril.
Já mil águas choram
Tua memória rasgada
E olvidada.
Tua flor murcha
Enxovalhada.
Não sei que te diga, 25
De abril,
que foste e agora
No calendário sobrevives
Só no calendário
Na alma e em pouco mais
Na memória e em pouco mais
Na parca esperança que teima
No fundo do vaso de Pandora.
Podia enfunar velas de ode
Mas sai só a melopeia
De quem comemora um espetro
Dando vida a sombras.
O calendário tem mais 364 ou 365 dias
E tu, 25, não te defendeste.
Seguirás os teus irmãos
Finados 5 de outubro e 1.º de dezembro?
Ainda te lembras de ti, 25
De abril?
Dizem alguns que é preciso outro.
Mas não pode haver dois dias no mesmo dia
Do calendário.
Há é 364 ou 365 dias para dizer
aos mesmos,
Com outras caras,
Que os mesmos daqui,
Que sempre os haverá,
Sempre terão,
A 25
de abril
Ou noutro dia
O seu 25
de abril.
Não te massacres, pois,
25
De abril:
Sempre haverá na alma e na cabeça
Dos que do cravo rubro
O perfume aspiraram
(subtil perfume de Liberdade)
Um 25 de abril.
Numa data qualquer
Mesmo que não haja comemorações
Ou que sejam usurpadas
Mesmo que não seja feriado
Porque os escravos têm de trabalhar
Sempre
E com isso ficar muito agradecidos,
Mesmo que a noite tenha caído de novo,
Sempre haverá claro dia para ti,
caro 25
De abril.
Apenas estás em mau calendário,
Meu 25
de abril.
Não sei que mais te diga.
“Tem Esperança” é dizer pouco,
Pode até ser
Revoltante.
É como um “Deus o favoreça”
Lançado ao pedinte
que quer pão
E não boas palavras
E excelentes intenções.
Dir-te-ei outra coisa:
Há sempre um 25
De abril
ou de outro dia
Num dia 25
ou noutro.
E pode haver todos os dias abril
E todos os dias serem 25.
Mas meditemos:
Não basta essa comemoração-outra
Essa esperançazinha confortante.
Não basta o bastar saber que a razão
Está no nosso cravo
E nosso lado
(razão bem plural e bem aberta).
Não basta. É precisa imaginação.
A Imaginação de quem tem
Grândola na voz e n’alma,
Terra da Fraternidade.
E eles não sabem que Grândola VIVE!
Eles não sabem que nós estamos em Grândola
E na Grândola que somos
o calendário chama-se
25 de abril.
Ilustração: Quadro de Adão Cruz