
Desculpem, mas eu sou assim. Não me consigo lembrar se foi a 25 ou a 26 de Abril. Fixei o sossego no café, o Jardim da Parada, e a satisfação de ter aqueles jornais todos para ler.
Sem dúvida que muita gente, na altura, terá estado em situações semelhantes à que conto nesta pequena anedota. Mas um aspecto importante da vida na altura, foi a crise que se abateu sobre a comunicação social, e que levou a questões muito faladas, e mal contadas, como foram o chamado Caso República, a situação no Diário de Notícias e outros. O interesse redobrado pela leitura de jornais, por ver a televisão, pela comunicação social em geral, não conduziu à sua consolidação, pelo contrário. Normalmente, atribui-se a causa dos problemas ocorridos a querelas partidárias.
Estas terão tido a sua influência, mas não terão tido o exclusivo na génese dos problemas. Fazer a história do ocorrido de uma maneira mais completa e mais rigorosa será uma tarefa importante, que julgo que ainda não foi abordada de uma maneira aprofundada.
Outro aspecto a salientar foi o interesse pelos cursos de jornalismoque despertouentre os jovensnaqueles anos a seguir ao 25 de Abril. Hoje em dia verifica-se um desemprego elevado na classe, particularmente significativo para compreender o que se está a passar com a comunicação social, passados estes anos. E o número de jornalistas desempregados é grande, mas provavelmente é bastante menor do que o número de jovens que tiraram cursos de jornalismo e nunca conseguiram chegar a profissionais do sector.
A internet terá criado novas perspectivas no sector. Mas o facto é que a comunicação social acabou por ser controlada por grupos económicos que tratam a informação como uma mercadoria, por um lado, e por outro, impõem a sua visão própria. Qual será a possibilidade de haver jornais, televisões e outros órgãos de informação , com um estatuto independente e códigos deontológicos próprios, dirigidos por jornalistas?
Julgo que esta é uma grande questão, 39 anos depois do 25 de Abril.

