CONTOS & CRÓNICAS – “Fazia o favor de ser meu amigo” – por Sérgio Madeira

contos2 (2)

Rodrigo Abrantes fazia o favor de ser meu amigo.

Quando Marília Abrantes, sua neta, quis vender a história de seu avô ao Século Ilustrado, deparou com uma muralha de argumentos que a impediu de realizar uns cobres. Foi após a morte de Rodrigo, em 1972 e, confesso, fiz parte da maçonaria de tertulianos, da conspiração que não deixou que uma pobre, mas engenhosa indústria fosse posta a nu. Anos depois, já em democracia, queixava-se ela, persistia a má vontade em a deixar revelar a história. Eu era, nesse começo da década de oitenta responsável por um semanário com alguma projecção e influência na opinião pública. Sabendo, numa conversa de café com colegas de outros jornais, que a rapariga andava de redacção em redacção oferecendo a história por tuta e meia, mandei que a contactassem e lhe marcassem uma entrevista. Quando entrou no meu gabinete, o corpo franzino e esguio, o rosto magro e os olhos míopes piscando aturdidos atrás das lentes, trouxeram-me à lembrança a figura de Rodrigo.

Por volta de finais dos anos 50, Rodrigo era figura de presença muito frequente nas tertúlias dos cafés da Baixa lisboeta. Começava na Brasileira do Chiado, vinha depois até ao Café Chiado e terminava a manhã no Chave d´Ouro. Após o almoço ia até ao Avis, passava pelo Gelo e encerrava a tarde no Restauração. Para a noite havia alternativas ao habitual Café Lisboa, nessa altura ainda vizinho do Parque Mayer – a Bijou, o Império, o Continental… muito raramente o Ribatejano. Isto durante os dias se semana, Os sábados e domingos destinava-os a itinerários mais sofisticados, aparecendo na Brasileira de Coimbra ou no Ceuta do Porto onde não causava surpresa. Tinha o condão de estar um ano sem aparecer e ninguém dar pela sua falta. Longilíneo, parecia mais alto do que realmente era. Cabelo curto, óculos de lentes grossas. A idade era indefinida. Viemos depois a saber que nascera em 1908, pelo que rondaria os 50 anos. Com ar tímido, falava muito pouco. Sabia-se que, funcionário da Biblioteca Nacional, fora dispensado por motivos políticos.

Tinha uma forma peculiar de se exprimir e quando evocava factos passados, nunca era ele o herói – apenas uma testemunha apagada. Por vezes, quebrava o silêncio respeitoso com que escutava as nossas conversas para dizer uma frase de aprovação. E quando ficávamos à espera de que continuasse, sorria timidamente e percebíamos que nada mais iria dizer.

Uma expressão que usava muito quando falávamos de nomes como Raul Brandão, Fernando Pessoa, Raul Proença ou Teixeira de Pascoais, era: «- Fazia o favor de ser meu amigo». E em vão aguardávamos mais qualquer pormenor. O seu negócio era modesto, mas engenhoso. Uma manhã em que coincidimos a uma mesa da sala interior do Café Chiado, onde eram colocados os jornais para leitura dos clientes, entrou em confidências comigo. Pareceu-me que me queria como sócio do seu negócio. Disse precisar de alguém mais jovem, com boa vista e cultura literária. Aos poucos, por frases dispersas e incompletas consegui compreender no que consistia esse negócio. Andava pelos alfarrabistas e comprava edições de autores diversos, daqueles de que tinha a letra em dedicatórias por ele solicitadas nas sessões de autógrafos ou, dos mais antigos, fac-similes de cartas. Compunha então dedicatórias simples, tipo: “Com um abraço de grande amizade, seu Raúl Brandão” ou “Oxalá não desgoste totalmente desta modesta obra. Saudações amigas, Eça de Queiroz”. Coisas assim. E depois aparecia pelas diversas tertúlias, ao cair da tarde, e casualmente mostrava os livros aos potenciais compradores. E após se mostrar completamente desinteressado, por pura simpatia e amizade, lá “se desfazia” do valioso livro por importâncias que, sem serem exageradas, eram muito interessantes.

Um fim de tarde, no Gelo, o Luiz Pacheco, com ao seus olhinhos perfurantes por detrás das lentes, ia dando cabo de um destes negócios detectando um qualquer vocábulo que, sendo dedicatória datada de 1906, seguia já o Acordo Ortográfico de 1911. Um anacronismo ortográfico, comentara Pacheco. Rodrigo, recolhendo logo o livro, saiu-se airosamente, gaguejando uma graça: «- Ora, amigo Luiz Pacheco, há muitos anacronismos. O seu nome, por exemplo. Por que o escreve com z?» – as pessoas riram-se, passou-se a outro tema. Na manhã seguinte, obteve na Biblioteca Nacional uma cópia do Acordo de 1911. Não voltaria a acontecer.

Quando, cuidadosamente, lhe chamei a atenção para a imoralidade de vender gato por lebre, respondeu-me que os preços por que vendia as supostas lebres, até para gatos eram baixos. E acrescentou que, por uma pequena quantia, dava felicidade a quem queria oferecer ou conservar uma recordação de um grande escritor.

Dei-lhe razão e apreciei a confiança que depositara em mim. Ofereceu-me uma primeira edição de “O Prato d’arroz doce”, de Teixeira de Vasconcellos, datada de 1875 e dedicada ao “Ill. E Ex.mo Sr. Marquez de Sá da Bandeira”. No anterrosto, Rodrigo escrevera com tinta azul «Com muito affecto do seu A.A. Teixeira de Vasconcellos». «- Letra de general», comentou Rodrigo com o seu sorriso envergonhado.

Fiquei de lhe dar uma resposta, mas, dias depois desta conversa, arranjei uma colocação num jornal do Porto e não voltei a ver Rodrigo Abrantes. Quando, pouco antes de Abril de 1974, regressei à capital, morrera já.

Despachei a neta em poucos minutos. Passei um cheque da importância que ela pedia a troco da assinatura de um termo de responsabilidade que o jurista do jornal redigira e que a ameaçava de tudo e mais alguma coisa se voltasse a falar publicamente do assunto. Saiu com o ar de quem pensava que podia ter ganho mais com o negócio.

Nem sequer li o que escrevera. Foi à minha vista que a secretária passou as folhas dactilografadas pela máquina trituradora. Foi assim que o segredo de Rodrigo foi sepultado e muita gente mantém nas estantes obras dedicadas a cidadãos desconhecidos por gigantes da literatura.

Rodrigo Abrantes fizera o favor de ser meu amigo.

 

Leave a Reply