O meu dia 25 de Abril de 1974 foi o de uma pessoa como qualquer outra. Nem podia ser de outra maneira. Não gostava de viver em ditadura, confiava em que haveria uma mudança mais tarde ou mais cedo, mas desconhecia tudo sobre movimentações militares. Apenas tinha tido notícias vagas sobre o 16 de Março e pouco mais. Mas naquele dia 25 de Abril, há quarenta anos, logo de manhã, quando cheguei ao serviço, percebi que havia qualquer coisa no ar, embora não soubesse nada do que se passava. O que me chamou a atenção foram as caras de caso dos chefes de serviço. Estavam muito preocupados, como nunca os tinha visto antes. Informaram o pessoal sobre a existência efectiva de movimentações militares. Resolveram fechar o serviço e dispensar o pessoal. Estive a ouvi-los à porta da rua, ali ao Rato, especulando sobre o que se passava, em tom de grande preocupação. Alguns dos que ali estavam, mais tarde, chegaram a ser figuras de relevo na vida partidária nacional. Na altura, estavam muito preocupados com o paradeiro do “Senhor Presidente do Conselho” e do “Senhor Ministro”. Fui a pé para casa. O dia estava bonito e fui falando com as pessoas que encontrava. Não pareciam muito preocupadas, embora se interrogassem sobre o que se passava.
Chegou-se a falar em movimentações de direita, que seriam chefiadas por Kaúlza de Arriaga. Terão havido notícias contraditórias na rádio, mas comecei a ouvir falar no Rádio Clube, que estava a dar muita informação. Fui ver da família, da mulher e das filhas. Estava tudo bem. Fomos todos para casa. Na altura, morava em Campo de Ourique. Dei uma volta pelo bairro. Algumas lojas tinham fechado, mas as pessoas estavam calmas. Na livraria, o Luís fez-me o resumo dos acontecimentos. Já se tinha quase a certeza de que não era o Kaúlza a comandar as operações, embora ainda não houvesse certezas. Acreditem, comprei flores vermelhas numa vendedeira, ali ao pé do mercado. Não vos posso dizer se eram cravos ou outras flores, porque era e continuo a ser péssimo em flores e em botânica em geral. Já mal me lembro da forma delas, não vos posso dizer quais eram, mas vermelhas eram, de certeza. Não tinha ainda ouvido falar dos cravos vermelhos. Gosto de pensar que foi um caso de “os bons espíritos encontram-se sempre”. Perdoem a um pobre diabo uma pequena vaidade.
Em casa pus-me a ver a televisão. E foi então que consegui finalmente começar a perceber melhor os acontecimentos, a ouvir as notícias dadas pelo Fialho Gouveia e pelo Fernando Balsinha. Fiz e recebi muitos telefonemas. Todos com quem falei estavam contentes, esta é que é a verdade.
Á noite, fui ao café ali ao Jardim da Parada. Estava pouca gente, obviamente porque estavam em casa agarrados à televisão. Comprei os jornais, porque houve várias tiragens especiais. Comprei também o Àvante, que o homem dos jornais tinha em exposição. Fiz então uma coisa que sempre gostei, sentei-me no café a ler as notícias. Estive ali um bocado entretido, e, de repente olhei em volta e pensei: foi a revolução, posso ler o jornal descansado.

