Cabana Muenemutapa
Ela se ergue como uma lança,
e entre o céu e a poeira
simplesmente
dança.
Glória de Sant’Anna
Tou maningue cansado!, queixava-se o rapaz entanto os pés batiam na escaldante poeira do areal. Era a caminhada de volta, já com a prezada água nas costas. Os irmãos troçavam, igualmente cansados, com a ideia de pegar o ónibus: Espera o machimbombo que te leva pra casa! O mais velho, ao olhar tenso da mãe, segurou o pequeno nos ombros dizendo em guitonga: Vem cá um bocado.
Como se tivesse fumado suruma, atordoado pelo Sol, o neno deixava-se embalar em delírios de matapa cozinhada pela mãe, e sonhava a mãe cultivando mandioca e abóboras na machamba, e via a sua capulana ir pra cima e pra baixo e pra frente, seguindo os movimentos de quem sementa ou de quem colheita ou de quem mói o cereal.
Ela tinha aquele olhar de xipeia ferida que cantavam as poetas da terra e, silenciosa, ia dando voltas a um conto que lhe tinha ouvido ao molunga. Uma porta que se abre de Moçambique para Moçambique e que ninguém pode cruzar porque o porteiro não deixa. E no final o estrangeiro mandando em inglês comprava porta, porteiro e chave e já ninguém podia nem sequer sonhar.
Mas o seu filho sonhava e não havia porta nenhuma no trajeto da água à casa, só a poeira quente de Inhambane. Onde estaria essa porta que dividia Moçambique em dous lados incomunicados? Tou maningue cansado, chimâmi, e quero matapa! Meu filho, eu sei. Cruzaram-se com um vizinho e todos deram os bons dias: Lichile! Lichile!
Chegaram e ao pé aguardava, vigiante, o Magaíça. Nimbuguide por ter conta, Magaíça, vou preparar comida, quer ficar connosco? Não sei, minha negra, você assim, sem marido… Eu assim, sem marido e com três filhos, levo a casa, cuido da machamba, vou por água, e agora cozinho e o Magaíça come connosco, tá bom? Entre, concluiu ela abrindo a porta da cabana Muenemutapa.
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