Tango galego
Entrou fugindo da chaira da realidade. Pretendia deixá-la atrás da porta e por isso empurrou a folha com força. No bar balorento pairava um besbelhar de gentes diversas, preocupadas com o seu. Arranjou um lugar no balcão e pediu uma cerveja.
Logo se lhe achegou aquele pendelho envolveito num ar de mistério simples, cheirando de longe a esmorga trasnoitada. Estava decidida a lhe dar uma labaçada caso de se sobrepassar. Mas, não, de cabeça baixa recuncava estantio a aguardente, sem dizer nada.
Matinou na vida da cidade, tão diferente. Tão indiferente a tudo quanto aprendera a amar de pequena. Porém, pensou, o comportamento dos animais não era distinto ao das pessoas. Todos os dias a fazer o mesmo percurso, as ruas, os semáforos, os edifícios de apartamentos, os gabinetes. As manadas a entrar pelas portas abertas dos empregos-lixo davam-lhe a mesma sensação de ciclo natural do que as vacas pastando ou o golpe assejando as galinhas.
O ruminar de papeis nos centros de funcionários, o verdelho das lâmpadas nos restaurantes, as roupas penduradas nos fios das tendas. Os currais-shopping e as cortes imensas de objetos. O cheiro da boutique onde tinha comprado o chapéu e a estola de lã lembrava-lhe o linho perto do rio depois duma noite bretemosa.
Colocou uma moeda e firmou-na sobre o balcão com o indicador entanto com a outra mão esgotava a pinta de cerveja. O nugalhão cabeça baixa matava o seu copo naquele instante. No último grolo pensou em fazer-lhe o que o cão com as ovelhas, conduzi-lo junto dos outros ao cortelho, a ritmo de tango.
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