A ERA DA GRATIFICAÇÃO SOCIAL INSTÂNTANEA – JÚLIO MACHADO VAZ NO ENCONTRO DA APPIA por clara castilho
clara castilho
No dias 16 e 17 de Maio decorreu o XXIV Encontro Nacional de Psiquiatria da Infância e da Adolescência, em Leiria, sob o título “As múltiplas interfaces na saúde mental infanto-juvenil”. Na rubrica “Uma hora com…” esteve o Prof. Júlio Machado Vaz e Inês Meneses, ambos responsáveis pelo programa de rádio da Antena Um, “O amor é”. Pretendia-se falar sobre “Novas modalidades de relação e comunicação” e sobre adolescência. Compartilho convosco algumas das notas que tomei.
Considera Júlio Machado Vaz que vivemos numa época com tantas formas de comunicação, algumas sendo inovação, mas o que se verifica é mais dificuldades na comunicação.
Estas novas tecnologias dão a ilusão de omnipotência, de que se convive, de que não há necessidade de se sujeitar ao crivo do mundo real. E, assim, há muitos adolescentes que se refugiam atrás do anonimato. Mas, mais dia, menos dia, vão ter de meter o pescoço no mundo real. E se o não conseguirem fazer, dá-se a patologia total.
Colocou-se a questão “Devem os pais ser amigos dos filhos no facebook?”. Depende da idade e de quem toma a iniciativa para isso. Há quem crie perfis falsos para poder “espiar” os filhos… Mas o facto é que os pais não precisam de saber tudo o que os filhos fazem.
O que precisamos é de ajudar os adolescentes a fazer escolhas, a fazer triagens. Estes estão a crescer num mundo com novos conceitos de “amizade”. Mas é preciso que os jovens aprendam o que pode surgir da tecnologia, quando se não tomam os devidos cuidados. É preciso que aprendam que nem sempre podem confiar.
Neste momento, estão permanentemente “ligados”, quase não há tempo para estarem sozinhos com eles próprios. Ficam dependentes do objecto externo, da aprovação que podem ou não receber. E depois podem “cair na fossa” quando não recebem a aprovação que desejavam.
A verdade é que vivemos na sociedade mais adolescente que jamais existiu. Desce-se a adolescência na idade da puberdade e prolonga-se até dentro da adultícia. As crianças chegam cedo à adolescência e os jovens continuam na dependência dos pais e com comportamentos tipicamente adolescentes pelos “vinte” fora. Cada vez mais existe a noção de que o trabalho é variável, que não será pra toda a vida, cada vez mais se tem a ideia de que as relações podem ser curtas e se pode partir para outra. Já não há os homens e mulheres das nossas vidas, o amor é contingente. Há uma contínua procura da felicidade. E retardamos o envelhecimento, o que não significa envelhecer melhor mas fingir que não envelhecemos.
Por um participante foi colocada a questão de saber a opinião de psiquiatra sobre uma realidade em vários jardins de infância em França, em que as crianças são permanentemente filmadas e os pais podem ver, em directo, o que estão a fazer. Este tipo de “big brother” põe a questão da privacidade e da intimidade do pensamento. Sem elas não pode haver crescimento psicológico. Esta intrusão no espaço físico dos filhos. Isto poderá tornar as crianças patologicamente dependentes. A criança, para crescer, necessita de ser capaz de estar sozinha.