Viúvos de vida
Nunca de pequeno tanta excitação e medo sentia como quando o avô contava histórias de desaparecidos ao lume da lareira, envolvidas as mãos na cunca fumegante, espelhando chinescas sombras na parede. Nas noites de inverno quando o xistral caía sobre o burgo e o vento zoava qual gigante no mar, entre o bruar da coriscada e o trovão, hipnotizava-se naquela voz grave e maininha que contava os contos de ausentes começando desta maneira:
– Já vos tenho dito que quando alguém não está no seu sítio, no lugar onde é querido, diz-se que “vai na Espanha”.
É por isso que desde pequeno, desde a infância eterna, da sempre proteção do pai e da mãe, a Espanha parecia-lhe o fim do mundo, um sítio completamente fora do alcance dos mortais, como se para faltar fizesse falta morrer porque fosse impossível, doutro modo, tirar-nos do lugar onde nos amam.
Agora, à beira dos cinquenta, costumava pensar que lhe faria falta muito esforço para volver as cousas como eram. Por vezes sentia que tudo estava perdido, a começar pela sua vida, como se tivesse marchado à Espanha de si mesmo, lugar onde nunca mais se acharia quando fosse necessário. No fundo sabia que não queria encontrar-se, queria era perder-se e nunca mais saber daquele que abandonou.
O avô, porém, acompanhava-o sempre, mesmo anos depois de morrer. Porque nunca o deixou ir-se de tudo. Ainda lhe pedia cada noite um conto, que escutava como de neno e aprendia com báguas nos olhos. E, parece que sim, que foi de tanto fazer da vida um pensamento, de tanto mergulhar na saudosa lembrança do avô, que virou um daqueles protagonistas dos contos de ausentes.
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