Despedida de Camões
Psst, pssssst! Sr. Couto, acorde! Não tenho todo o dia! Lamento esta fugida matinal, esta despedida assim, sem formalidade nem cerimónias, mas prefiro ir embora antes de que o resto do mundo dê por mim. Ou seja, vou embora. Nada consigo. Sei que você me entende. O senhor fica bem, tem reconhecimento, prémio e diploma. Espero que não se importe, só quero um pouco de tranquilidade. Tantos anos, mas tantos anos! Não faz ideia, daqui pra ali, dali pra aqui, uma vez no Brasil, outra em Portugal, e volta no Brasil, quase nunca na África e nunca, mas nunca-nunca na minha casa. Estou farto, acabou-se, de hoje não passa.
Tenho saudade. Tanta, tanta saudade! Não faz ideia! Uma saudade acumulada por séculos, desde que os defuntos avós abandonaram o Norte e se acomodaram no Sul. Não me olhe assim, Sr. Couto, nem que fosse eu um fantasma. Aqui onde me vê saio nas capas dos livros oficiais e bem sabe quanto significo em valor monetário. Antes era diferente, quando navegava os mares bravios e desfrutava com as batalhas e era doado perder um olho ou dar com os ossos na gaiola.
Tá ver? Quanto mais penso em voltar à casa, mais me sai o idioma natal. Inda vou acabar revirando a língua que tanto sagraram. Porque, é incómodo, sabe?, ser imagem de algo que mudou tanto desde quando escrevia aquellas rimas que hoje polo mundo todo fazem espanto… Mas você não se espante, Sr. Couto, que logo disto já desapareço.
Vou farto, farto! que não cheio, que cheios vão os animais, dizia minha avó. Ai, a saudade! Tanta imagem e tanta gravura, tanta escultura e tanto desenho. Uma vez morto podiam ter-me enterrado. Mas não, fizeram de mim um medalhão. E sem nomear nunca o meu Norte! O meu ninho! Eu que cantei melhor que Homero, melhor que Virgílio. Eu que dei vida aos Argonautas, que sam vistos de vos no mar yrado. Eu que so co pensamento naveguei aquelle saudoso poema da de Padrão.
Volto pra Camões. Foi bom, Sr. Couto. Mas que nam me procurem. Regresso à Galiza, onde elles nunca irão. Terra sem igoal, que por ella sesqueção os humanos / de Aßírios, Persas, Gregos et Romanos. Hum dia nos encontraremos de novo e ali estarei per a daruos seruiço, que tam illustre escritor nam merece menos. Fique feliz et muitas vezes!
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UMA LINDA MÚSICA, EM PORTUGUÊS E CASTELHANO, DO GRUPO OLIVENTINO “ACETRE”
http://www.YOUTUBE.com/watch?v=l7cX1unEk3I
Citando A Viagem dos Argonautas : > > > > Pedro Godinho posted: ” Despedida de Camões Psst, pssssst! Sr. > Couto, acorde! Não tenho todo o dia! Lamento esta fugida matinal, > esta despedida assim, sem formalidade nem cerimónias, mas prefiro ir > embora antes de que o resto do mundo dê por mim. Ou seja, vou > embora. Nada c” > > > > > >
… leva-me a imaginação àqueles Coutos… do lugar de Camos… (ali ao ladinho vivi eu bastantes anos) e às camoesas… mas… tb, claro, ao galego Vasco Pires de Camões…
mas… “sam”? terá sido galego? pois! há montes deles nos séculos recuados, como tb “saom”, “san”, “provisam”, “intençán”, “perdiçaom”…
e tudo… do sonho duma noite de verão… parabéns, Isabel!
As camoesas são umas maçãs, não? 🙂
O caso é deixar-se levar. Se a história é um teatro, o esperpento é sua máxima elaboração.
Obrigadíssima pela leitura e comentários. Grande abraço.
C, não te deixes despedir.
Não sei: Quererá o Camões português-galego continuar a ser utilizado por determinados “persoeiros” portugueses? Quereria o galego Cervantes continuar a ser massacrado no seu Quixote pelo nacionalismo radical do reino bourbónico? Poderíamos perguntar ao autor das obras de Shakespeare, mas é ignoto… Sim, Isabel, o teu fantasiado é tão real ou mais do que os fantásticos Camões e Cervantes … e mesmo Pessoa pelas “elites” nacionalistas correspondentes. Deixo de lado a pobrinha, a mal tratada Rosalia… Nunca os hitoriadores da “história” e das literaturas mentiram tão protervamente como hoje fazem os pagados pelos estados, intervindos ou não.