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GOODBYE HOLLANDE! – Uma entrevista a Emmanuel Todd.

Selecção, tradução e introdução por Júlio Marques Mota

Entrevista a Emmanuel Todd conduzida por Aude Lancelin e  Laurent Neumann, revista Marianne,  Domingo, 12 de Maio de 2013

Parte II

Com o trajecto imposto a partir de Bruxelas, na verdade, desde 2008 que estamos a viver num verdadeiro sistema de  Ponzi, um sistema tipo de  Dona Branca à escala europeia,  esquema aprovado pelas Instâncias Internacionais e Regionais, sistema   que  acabará por  explodir, como todos os esquemas de Ponzi, cujo exemplo mais recente  é o de Madoff.  Estabelecido este sistema e por muitos anos, a acreditar em Merkel, em Jens Weidmann, criámos portanto um sistema verdadeiramente  explosivo, definido  por uma globalização selvagem ao nível do comércio internacional e definido no plano interno à zona euro pela adição de défices, de dívidas, e de políticas de austeridade, o que torna a situação pura e simplesmente insustentável. Neste quadro, a recessão (e a  muito baixa taxa de  inflação) não permitem que o peso relativo da dívida  venha a ser reduzido pelo crescimento,  ao mesmo tempo que se está a   complicar   a redução dos défices. E os esforços de redução dos défices acentuam a recessão, melhorando apenas marginalmente o nível dos défices, como até mesmo o FMI admite. E enquanto isso, o peso da dívida aumenta, sem recurso possível ao BCE no nível da zona  euro, forçando ainda mais as privatizações, eventualmente ao desbarato e mesmo que seja uma transferência de propriedade pública para propriedade privada que afinal é também ela propriedade pública, como aconteceu com a EDP. Não é privatização, é mudança de dono.

Mas porque os políticos e os eurocratas, como Passos Coelho, Rajoy, Napolitano, Cavaco Silva quer na qualidade de  Presidente quer na qualidade de   economista de profissão,  François Hollande , o mais recém-chegado ao clube dos austerianos, e muitos outros que me dispenso de estar a citar,  como todos eles   não estão dispostos a reconhecer os seus erros, continua-se  a tentar fazer com que o sistema funcione desta forma transferindo as dívidas de uns países sobre os outros , daí os múltiplos  ‘planos de resgate’  aos estados  (Grécia, Irlanda, Portugal, Espanha, Chipre) e aos bancos (Dexia França, Irlanda, Itália, Espanha, Portugal). É claro, de tempos a tempos, a dureza da realidade dita as suas regras, e então  exige-se  uma reestruturação, tal como já aconteceu duas vezes na Grécia, com essa monumental farsa de reestruturação informal e voluntária, mas também significa que se está a deslocar o foco do incêndio como  vimos com os bancos gregos e com os de Chipre. E por esta via os nossos políticos transformam-se em  pirómanos modernos, onde a substância a arder e a que deitam fogo, e de rápida propagação, são os nossos patrimónios, é  o nosso presente, é o nosso futuro, é também o nosso passado materializado no património público e privado assim como nas bases produtivas nacionais. Tudo à venda,  ou em decomposição, em degradação, mesmo até por não utilização, e é assim  por todo um continente. Pirómanos da Democracia real, eis pois uma nova profissão.

Inacreditável,  mas é a verdade dolorosa  a que todos nos devemos pôr  um  fim, nas urnas, a partir de onde seja possível, de  onde seja viável, mas com a certeza de que  a consciencialização sobre este crime horrendo que é o de se estar continuamente  a alimentar a fogueira  onde estão a queimar a Democracia, é uma condição prévia à reinstalação da Democracia real nos espaços nacionais, no  espaço europeu.

De Emannuel Todd excertos:

“1. A austeridade, é o ‘restaurar das contas públicas’, é a atitude de manter o Estado numa posição de disposição para servir os interesses e a incapacidade de fazer a única coisa que ele terá que fazer um dia, inevitavelmente: o incumprimento sobre a dívida. Recusar pagar.

2. Hollande escolheu Cazuhac. É uma falha moral. Essa escolha sugere que o Presidente sofre de uma insuficiência no instinto da moralidade. Quando eu soube que o tesoureiro de sua campanha, Jean-Jacques Augier, tinha uma conta nas ilhas Caimão enquanto ao mesmo tempo Hollande fazia o seu discurso anti-ricos em le Bourget, eu só pasmei, pasmei…

3. Estou aqui em desacordo com a ideologia dominante, no impensável de uma época cujo dinheiro é a religião e a divindade, o euro. No entanto, a interrupção das economias desenvolvidas é bem devida à acumulação de dinheiro inútil no topo da estrutura social. Para reiniciar a máquina e relançar a democracia, será necessário repor os contadores a zero. Parcialmente somente, eu não sou um revolucionário.

4. Se permanecermos na zona euro, qualquer pretensão para a acção é uma piada. Hollande, é um presidente local na zona marco. A realidade é que estamos de volta e na situação já onde o banco da França era uma questão de 200 famílias. Só que agora, já não as 200 famílias francesas que fazem a lei, é a Alemanha.

5. A situação francesa, eu poderia esquematizá-la da seguinte forma … [Emmanuel Todd mostra então uma folha de papel e desenha um diagrama]. No topo: os patrões alemães. Logo imediatamente por baixo e ao lado, desfasada, Merkel, predisposta à gestão dos protectorados europeus! Directamente sob as ordens dos empregadores alemães: o Banco Central Europeu. Sob as ordens do BCE: os bancos franceses . Sob o controle dos bancos: os inspectores das Finanças, em Bercy, tendo como porta-voz para a Imprensa Pierre Moscovici, o ministro! E mais abaixo : François Hollande. Eu não consigo encontrar nenhuma função identificável para François Hollande. Assim, escrevo: “Nada”. .

6. Alemanha, que já rebentou duas vezes este nosso continente, é uma das Mecas da irracionalidade humana. As suas performances económicas “excepcionais” são uma prova de que ela é sempre excepcional. A Alemanha, é uma cultura imensa mas terrível porque desequilibrada, perdendo de vista a complexidade da existência humana. A sua teimosia em continuar a impor a austeridade, o que faz da Europa um buraco negro da economia mundial, levanta-nos uma questão: Europa não será ela, desde o início do século XX, este continente que se suicida a intervalos regulares, sob a direcção alemã”

Nada, nada, nenhuma função pensável para François Hollande, é a tese de Emmanuel Todd, é a minha também para o professor de economia Aníbal Cavaco Silva, a não ser para todos eles a profissão de pirómanos modernos como acima se disse, mas para essa função  ilegal no plano da Democracia , não há eleições, ninguém é eleito.

(continua)
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