Selecção, tradução e introdução por Júlio Marques Mota
Entrevista a Emmanuel Todd conduzida por Aude Lancelin e Laurent Neumann, revista Marianne, Domingo, 12 de Maio de 2013
Parte I
Introdução
Dedico esta peça a um amigo francês dos sete costados, amigo de longa data, a atravessar um momento que penso nada fácil de alguns disfuncionamentos que a crise diariamente lhe cria. Dedico-lha e publico esta peça editada em França pela revista Marianne, e dedico-lha como resposta à sua pergunta sobre o que eu pensava quanto à traição de Hollande aos ideais do socialismo. Disse-lhe que lhe dava depois a resposta, e ei-la portanto, por interposta pessoa, pela mão de um dos mais importantes intelectuais franceses, Emmanuel Todd, que convidado foi a tomar o pequeno-almoço com o seu Presidente, François Hollande… .
Trata-se de uma entrevista feita a Emmanuel Todd e em que muito claramente este bem conhecido antropólogo Emmanuel Todd mostra possivelmente menos consideração política pelo seu Presidente, e di-lo duramente, que Miguel Sousa Tavares terá pelo Presidente de todos nós, homem em que não votei, um economista de profissão. Sendo economista de profissão e doutorado até, coisa que não sou, vir o Presidente de todos nós defender a manutenção das políticas de austeridade em Portugal, um país outrora país e agora sítio mas que país dignamente há-de voltar a ser, onde os alemães poderão passar férias ao desbarato depois de nos levarem a mão-de-obra altamente especializada, num país já incapaz materialmente de se reproduzir como país e portanto em regime de extinção, vir apelar a mais políticas de austeridade por força das regras aprovadas e impostas por Bruxelas releva ou da ignorância absoluta do que são os mecanismos económicos, ou da falta de solidariedade pelas formas de vida das pessoas que trabalham ou que morrem por querer ter trabalho que não têm neste canto do Paraíso à beira-mar agora prantado , releva do humor negro digno de um qualquer humorista de boa ou má qualidade como os há em Itália, ou então releva da maldade pura a rondar já psicologicamente outros adjectivos, para não dizer mais, tal é já o disfuncionamento actual da sociedade portuguesa por efeito exactamente das políticas de austeridade . .
Talvez não seja nada disto, mas expliquem-me então que assim não é.
Um olhar rápido sobre alguns sinais desta Europa martirizada pelas políticas neoliberais que têm na verdade um defensor, entre muitos, em Belém, um olhar rápido sobre alguns sinais que claramente anunciam uma Grande Depressão sem termos um Roosevelt para lhe dar resposta, temos antes muitos políticos como Herbert Hoover ou como François Hollande, Cameron ou Angela Meerkel, no fundo a fazerem parte de um grupo de políticos a que Krugmann chama os austerianos, um olhar portanto sobre alguns sinais dessa realidade que os políticos actuais à custa de a querem ignorar ou mesmo manipular pensam que o tempo dela nos há-de curar:
1. A taxa de desemprego na França representa agora 10,6%. O número de desempregados acaba agora de atingir um novo um novo recorde histórico, com 3,2 milhões de desempregados.
2. A taxa de desemprego na zona euro acaba de atingir o nível recorde de 12%.
3.A taxa de desemprego de Portugal era de cerca de 12% em 2011. Hoje, é aproximadamente 17%.
4 . A taxa de desemprego na Espanha atingiu o nível recorde de 27%. Mesmo os Estados Unidos nunca tiveram uma tal taxa de desemprego durante a grande depressão dos anos 1930.
5 .A taxa de desemprego dos jovens alcançou 57,2% em Espanha.
6 . A taxa de desemprego na Grécia já atingiu o nível recorde de 27,2%.
7 . A taxa de desemprego dos jovens na Grécia chegou 59,3%.
8. As vendas de carros na França caiu de 16% relativamente ao ano passado, durante o mês de Março.
9 . As vendas de automóveis na Alemanha caíram 17 por cento no ano passado durante o mês de Março.
10. Na Holanda, o endividamento das famílias já atingiu os 250% do rendimento disponível.
11 . A produção industrial de Itália caiu de 25% nos últimos 5 anos.
12 . O número de empresas espanholas apresentação declaração de pedido de falência aumentou de 45% em relação ao ano passado.
13 . Desde 2007, o valor do crédito mal parado na Europa aumentou de 150%.
14 . Os levantamentos nos bancos em Chipre durante o mês de Março foram o dobro dos valores de Fevereiro e isso apesar do facto de que os bancos estiveram fechados durante metade do mês.
15. Contam-se 3 milhões de casas vagas em Espanha depois do colapso do mercado imobiliário.
16. As coisas estão a ir tão mal na Espanha que edifícios inteiros são invadidos e ocupados por gentes sem dinheiro. Estes ocupantes são pessoas que perderam o emprego e que foram expulsos das suas casas, porque eles deixaram de ser capazes de pagar as suas mensalidades das hipotecas. Actualmente existem 30.000 pessoas sem domicílio fixo em Espanha.
17. Existem tantas crianças com fome na Grécia e em Espanha que os sistemas escolares nesses países se tentam organizar para aliviar o mal-estar das crianças .
18. A relação dívida/PIB está agora em 136% em Itália.
19. No Reino Unido, 25% de todos os activos bancários são colocados nos bancos que praticam a alavancagem de 40 para 1.
20. O gigante bancário alemão Deutsche Bank está exposto a mais de 55000 mil milhões de euros em produtos derivados. Por comparação, o PIB anual total na Alemanha representa «isto»: 2.700 mil milhões de euros.
Em suma, a Europa a ser liquidada em nome da austeridade. E se alguma se deveria exigir a um Presidente dos portugueses seria que apelasse às Instituições Regionais e aos governos de maior peso que se deveria colectivamente pensar retornar ao projecto inicial da Europa e a abrir o caminho para isso, seria que lembrasse à Europa dos nórdicos, que a Europa deve o espaço das solidariedades em comum, dos pequenos passos em conjunto, dos dons, dos planos de crescimento no espaço europeu e não num só país, seria dizer não à Europa dos empréstimos usurários, não à Europa das condicionalidades, como os planos de ajustamento estrutural veiculados via FMI. Isso seria o discurso que gostaríamos de ouvir de um Presidente, mas Cavaco Silva, o economista de profissão seria incapaz de escrever um tal discurso ao Presidente do mesmo nome. A sua fidelidade à Alemanha imperial, como François Hollande, aliás, como outros mais já o fizeram e fazem, neste cerco de austeridade absurda à Europa do Sul só me faz lembrar os liquidacionistas dos anos nos Estados Unidos nos anos 30. E as palavras sibilinas de alguém que fez como fazem os actuais dirigentes europeus, Herbert Hoover, merecem ser aqui relidas:
“Deixem estar o que está e como está dirigido pelo Secretário do Tesouro Mellon… fazer sentir que o governo deve manter as suas mãos de fora e deixar a depressão liquidar-se a si-mesma. O Secretário de Estado Mellon conhece apenas uma fórmula: ‘ liquidar o trabalho, liquidar os mercados bolsitas, liquidar os agricultores, liquidar o sector do imobiliário’…Ele mantinha mesmo a opinião de que até o pânico não era uma coisa completamente ruim. E afirmava: assim será estar a limpar a podridão do sistema. O elevado custo de vida e o elevado nível de vida irão descer . As pessoas vão trabalhar mais, viver uma vida com muito mais moralidade. Os valores serão ajustados e as pessoas empreendedoras vão-se distanciar dos destroços que são as pessoas menos competentes “
De Herbert Hoover a Merkel, a Cameron, a François Hollande, a Cavaco Silva, a História os há-de julgar, e essa é a mensagem que deixo ao meu amigo francês de sete costados, cujos netos a ter uma outra vida que não esta irão certamente viver.

