GOODBYE HOLLANDE! – Uma entrevista a Emmanuel Todd.

Selecção, tradução e introdução por Júlio Marques Mota

Entrevista a Emmanuel Todd conduzida por Aude Lancelin e  Laurent Neumann, revista Marianne,  Domingo, 12 de Maio de 2013

Emmanuel Todd

PARTE IV
(CONCLUSÃO)

E.T.: Claro. O Estado era tudo na Rússia, e após o fim da URSS, as mesmas pessoas permaneceram no controle do que foi privatizado. A encarnação totémica do sistema francês, é Michel Pébereau, tornado o padrinho deste pequeno mundo. Cito de novo, o que publicou Wikipédia: “Michel Pébereau deixou a administração para se juntar ao Crédito comercial da França em 1982. Ele conduz com êxito a privatização de dois bancos, de que será o Presidente Director-geral: o Crédito comercial da França, de 1986 a 1993 e, depois, do Banco Nacional de Paris (1993), que se irá tornar o BNP Paribas em 2000, que ele presidiu a partir de 1993 a 2003. »

Quanto aos jovens que saem melhor classificados de ENA – não os melhores, mas os mais aptos, moral e socialmente, a serem bajuladores – esses encontram-se hoje na Inspecção das Finanças, no Tribunal de Contas, em seguida, nos gabinetes dos ministros e, logicamente, no Ministério das Finanças. Os ministros importantes não têm a liberdade de escolher o seu chefe de gabinete e vivem sob vigilância.

Estes jovens, o seu futuro está no sector privado. Por isso eles pagam antecipadamente! Eles enterram a reforma dos bancos. Eles irão passar para estes bancos e para as grandes Caixas privadas, cooptados pelos seus patrocinadores. É de transparência sobre este mecanismo que nós muito precisamos. A verdade, agora revelada – o hollandismo, pelos seus enormes erros,  é revolucionário! — é que são os bancos que controlam o aparelho de Estado.

Marianne: O que você descreve, isso é exactamente a grande acusação que já se fazia a Nicolas Sarkozy. No momento da grande depressão de 2008, foi assim apontado o facto de que ele inventou a saída da crise em conjunto com os banqueiros. Essas acusações, elas são também são as mesmas que hoje são feitas contra Obama…

E.T.: A crise coloca a nu a oligarquia. Se formos ao fundo da questão , isto já não é o executivo que ataca o Parlamento exigindo a transparência, é o sistema bancário. Patrick Weil tem razão : deixemos de andar a perseguir a acumulação de mandatos que ao assegurar aos deputados as suas bases regionais os ajuda a resistir ao poder executivo e bancário .

Marianne: Tendo em conta a deterioração dramática do crédito concedido a François Hollande em menos de um ano, quais são os recursos que ainda lhe estão disponíveis a partir de agora?

E.T.: Se permanecermos na zona euro, qualquer pretensão para a acção é uma piada. Hollande, é um presidente local na zona marco. A realidade é que estamos de volta e na situação já onde o banco da França era uma questão de 200 famílias. Só que agora, já não as 200 famílias francesas que fazem a lei, é a Alemanha!

Marianne: Portanto você subscreve esta ideia do braço de ferro necessário com a Chanceler Angela Merkel, para sair do marasmo económico e para encontrar o crescimento e solidificar a esquerda?

E.T.: Atacar Merkel, esta é a última ilusão socialista, isso significa estar a atacar o centro do poder. São os patrões alemães que não         querem uma explosão da zona euro. São pois estes patrões, organizados, â alemã, que permitem a Mario Draghi [Presidente do Banco Central Europeu] poder estar a resgatar os bancos. Precisam ainda de mais quatro anos para dar cabo e definitivamente da indústria francesa. E este período é exactamente a duração da Presidência de Hollande, precisamente.

A situação, eu poderia esquematiza-la da seguinte forma … [Emmanuel Todd mostra então uma folha de papel e desenha um diagrama]. No topo: os patrões alemães. Logo imediatamente por baixo e ao lado , desfasada, Merkel, pre-disposta à gestão dos protectorados europeus! Directamente sob as ordens dos empregadores alemães: o Banco Central Europeu. Sob as ordens do BCE: os bancos franceses . Sob o controle dos bancos: os inspectores das Finanças, em Bercy, tendo como porta-voz para a Imprensa Pierre Moscovici, o ministro! E mais abaixo : François Hollande. Eu não consigo encontrar nenhuma função identificável para François Hollande. Assim, escrevo: “Nada”…

Marianne: Mas você não respondeu totalmente… Tendo em conta o que acabou de dizer hoje, será então uma má intuição por parte do PS ir enfrentar a Alemanha?

E.T.: Os nossos socialistas querem acreditar que o retorno dos sociais-democratas alemães no poder faria uma grande diferença. Karine Berger já me tinha feito este golpe antes mesmo das eleições presidenciais, durante um debate numa seção socialista. Mas as reformas mais duras na Alemanha foram feitas por Schröder! A social-democracia alemã, histórica e geograficamente, é a continuidade do protestantismo, logo do nacionalismo também. Com os sociais-democrats  seria pior ainda. Então, obviamente, a Alemanha é o problema. As políticas francesas , tão duras para com a sua população e com as suas PME, são a este nível os Ursinhos Carinhosos na amizade Franco-alemã.

Mas a Alemanha, que já rebentou duas vezes este nosso continente, é uma das Mecas da irracionalidade humana. As suas performances económicas “excepcionais” são uma prova de que ela é sempre excepcional. A Alemanha, é uma cultura imensa mas terrível porque desequilibrada, perdendo de vista a complexidade da existência humana. A sua teimosia em continuar a impor a austeridade, o que faz da Europa um buraco negro da economia mundial, levanta-nos uma questão: Europa não será ela , desde o início do século XX, este continente que se suicida a intervalos regulares, sob a direcção alemã?

Sim, um “princípio de precaução” deve ser aplicado à Alemanha! Isto não é um bastardo xenófobo a afirmá-lo, é um simples bom senso histórico. Tanto quanto este país está , na lógica e na sequência dos seus dirigentes,  numa autêntica dinâmica de poder. O único obstáculo para uma hegemonia sustentável na Europa, para a Alemanha, hoje como ontem, é a França, tanto quanto ela não esteja de modo definitivo deitada economicamente por terra. Mas eu entendo que seja difícil para nós, admitir esta evidência: nós pensamos nunca mais rever essas relações de força .

Marianne: O Presidente convidou-o a si o Palácio do Eliseu há já alguns meses para um pequeno-almoço. O que é que lhe aconselhou?

E.T.: Uma das poucas coisas de que me lembro é a de que ele tomava consciência da existência de uma Europa protestante e brincava sobre o facto de que os finlandeses eram ainda mais acentuadamente protestantes que os alemães. Sugeri-lhe a necessidade de convocar uma Comissão de reflexão sobre a viabilidade do euro com economistas ortodoxos e economistas críticos, tais como Jacques Sapir, Jean-Luc Greau , Gaël Giraud, Paul Jorion ou Frédéric Lordon. A simples existência desta Comissão teria intimidado os alemães e faria baixar o valor do euro.

Mas essa é a melhor prova de insuficiência intelectual e moral das classes superiores francesas: ninguém ousa, fora da frente nacional, colocar a questão da viabilidade do euro, que moeda que deve sucessivamente ser salva , com uma taxa de desemprego que se acelera e com os rendimentos a caírem a pique. Mesmo Melenchon não o consegue fazer. A esquerda do PS, as Marie-Noëlle Lienemann e Emmanuel Maurel, são incapazes e propõem-nos políticas de relançamento da economia impossíveis em regime de comércio livre que, à la limite, levariam a um maior reforço ainda da indústria alemã.

E quanto ao conformismo indefectível desta instituição central que é o jornal Le Monde ou revistas como “ sem alternativas económicas” ?

Para chegar a influenciar tudo isto seria necessário que François Hollande fosse melhor do que de Gaulle. Mas ele disse-o, ele é apenas um homem normal. Mesmo um homem comum. As minhas réstias de esperança continuam a ser, eu iria colocá-las sobretudo numa revolta do Parlamento.

Os meus fantasmas? A Câmara dos deputados, que dissolvida pelo Presidente, perdão, pelo sistema bancário, se recusaria a dispersar-se e apoiando-se numa sociedade exasperada.

Mas pode-se levar a sério alguém que tenha levado François Hollande a sério?

Emmanuel Todd - II

Emmanuel Todd - III

A União Europeia na hora alemã (desenho de Emmanuel Todd à mesa do café)
http://www.marianne.net/Goodbye-Hollande%C2%A0_a228622.html

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