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GOODBYE HOLLANDE! – Uma entrevista a Emmanuel Todd.

Selecção, tradução e introdução por Júlio Marques Mota

Entrevista a Emmanuel Todd conduzida por Aude Lancelin e  Laurent Neumann, revista Marianne,  Domingo, 12 de Maio de 2013

Parte III
(continuação)

Goodbye Hollande!

Entrevista a Emmanuel Todd conduzida por Aude Lancelin e  Laurent Neumann, revista Marianne,  Domingo, 12 de Maio de 2013

Um ano depois da eleição presidencial, o intelectual, co-autor do « Mystère français » faz um balanço das esperanças traídas. Entrevista com Aude Lancelin e Laurent Neumann.

Legenda: Emmanuel Todd – BALTEL/SIPA

Marianne: Quando nos encontrámos, há já seis meses, Sapir mencionou ainda a suposição de que, no final do seu quinquénio Francois Hollande, poderia ter evoluído para uma espécie de gigante à Roosevelt… Hoje, um ano quase,  dia após dia, após sua eleição, pensa que quanto a essa ideia ele já falhou redondamente?

Emmanuel Todd: Não tem necessidade da minha opinião para o saber. Hollande teve a sua chance, talvez até tenha uma segunda. Eu gosto da expressão americana de uma ‘segunda chance’. Pela primeira vez, está já conhecido. Eu posso dizer-vos o que me fez aceitar a evidência.

Em primeiro lugar, a incapacidade de impor a tributação aos 75%. Um presidente da República francesa tem a arma do referendo, mas ele acobardou-se. Segunda coisa: a reforma do mercado de trabalho que coloca Hollande até mesmo à direita de Sarkozy. Terceira coisa: a reforma do sector bancário foi esvaziada do seu conteúdo. Algumas mudanças cosméticas estão em andamento, mas no fundo globalmente e na prática, o Estado continuará a ser o garante dos quatro grandes bancos sistémicos franceses.

Aparece depois o caso de Cahuzac. Primeiro, achei esta história ideologicamente genial. O garante da austeridade orçamental, é pois um homem completamente  podre: uma ratoeira da história para colocar a nu o sistema! Se reflectimos, na verdade, os seus alter ego europeus também têm ligações obscuras com o sistema bancário. O italiano Mario Monti, que  bem no-lo tentaram vender como um pai da virtude , estava, por exemplo, associado ao Goldman Sachs. Cahuzac não era um átomo solitário de corrupção, mas uma peça num sistema.

Marianne: E qual é a natureza desse sistema?

E.T.: Cahuzac revela-nos o que é a dívida pública. O empréstimo aos Estados é uma garantia do dinheiro dos ricos, Karl Marx tinha-o já visto. A dívida dos Estados é uma invenção da Finança privada! A austeridade, é o ‘restaurar das contas públicas’, é a atitude de manter o Estado numa posição de disposição para servir os interesses e a incapacidade de fazer a única coisa que ele terá que fazer um dia, inevitavelmente: o incumprimento sobre a dívida. Recusar pagar.

Estou aqui em desacordo com a ideologia dominante, no impensável de uma época cujo dinheiro é a religião e a divindade, o euro. No entanto, a interrupção das economias desenvolvidas é bem devido à acumulação de dinheiro inútil no topo da estrutura social. Para reiniciar a máquina e relançar a democracia, será necessário repor os contadores a zero. Parcialmente somente, eu não sou um revolucionário.

Que um tipo como Cahuzac se deixe apanhar, isto faz pois avançar o schmilblick. De seguida, continuei a pensar. Eu sou o oposto de um bom psicólogo, mas mesmo eu teria esperado que um médico, preferindo o implante de cabelo à cura das pessoas era um tipo apaixonado pelo dinheiro. Hollande escolheu-o. É uma falha moral. Essa escolha sugere que o Presidente sofre de uma insuficiência no instinto da moralidade. Quando eu soube que o tesoureiro de sua campanha, Jean-Jacques Augier, tinha uma conta nas ilhas Caimão enquanto ao mesmo tempo Hollande fazia o seu discurso anti-ricos em le Bourget, eu só pasmei, pasmei……

Marianne: A este respeito, a resposta do governo em pânico solicitando uma publicação do património dos eleitos ter-vos-á parecido relevante face à crise aberta pela fraude e pela mentira do ex-ministro do orçamento?

E.T.: Isto é a pior coisa, esta tentativa de nos encher de fumaça sobre a transparência. Aí, Hollande, torna-se uma ameaça. Cahuzac, que ele tinha nomeado, deixa-se apanhar, e que faz ele? Ele designa a classe política, toda ela, como suspeita! É um grande acto antidemocrático.

Nós conseguimos escapar ao ambiente fétido do sarkozzysmo, anti-Muçulmano, anti-estrangeiros, anti-ciganos. A prioridade, há um ano, era clara, era a de fazer saltar Sarkozy. É por isso que eu nunca me arrependerei de ter apoiado François Hollande! Mas o que há de mágico com os socialistas, é que, deixando de designar os bodes expiatórios, uma estratégia de diversão política do sarkozyismo, Hollande e o PS encontraram-se completamente a nu.

Eles deixam-nos ver as relações de força reais entre o Estado e a banca, inclusive. Eu penso nesse sketch do Café de la Gare: uma cena mergulhada na escuridão, um projector  se acende, um tipo aparece iluminado no centro, completamente nu. É o que acaba de acontecer a Hollande.

Marianne: No início de seu mandato de cinco anos, o bode expiatório, eram os ricos, e o inimigo apontado era a finança. A imprensa de direita desempenha aliás, ainda hoje mesmo, essa obsessão do matraquear fiscal. A votação da lei sobre a tributação das operações financeiras por exemplo, será, do seu ponto de vista, um bluff completo?

E.T.: Os ricos não são um bode expiatório, eles são o problema! [Risos] O fracasso da reforma dos bancos foi bem analisado por economistas como Gaël Giraud. Esta viragem, leva-me a pensar que existe uma corrente uma verdadeira “tendência bancária” opondo-se não somente à esquerda do partido, mas também à  maioria dos deputados implantados nas regiões.

A reforma foi neutralizada pela fresquinha deputada do PS Karine Berger, que, cito a Wikipédia, já tinha estado a trabalhar para Euler Hermes, subsidiária do grupo alemão Allianz, ajudada pela sua associada Valérie Rabault, que veio ela da Société Générale e do BNP Paribas. Juntas, assinaram um livro com um título de visionário: Les Trente Glorieuses sont devant nous..

Pode-se citar também pessoas como Emmanuel Macron, jovem assistente do secretário-geral do Elysée, que veio do banco Rothschild. O passado destas pessoas, e sem dúvida o seu futuro também, a partir de 2017, quando não houver mais do que um punhado de deputados do PS como membros da assembleia, está no sistema bancário. A operação “mãos limpas” é, pois, um escândalo.

Deveremos nós saber quantas bicicletas tem o ministro da juventude e dos desportos? O que seria decisivo, isso sim, seria ter a estrutura organizacional das interacções entre os bancos e a autoridade de supervisão financeira ou do Tribunal de contas. Em termos de ciência política, o poder está nestes links entre a alta finança do Estado e a alta finança privada.

A partir desta questão pode-se então desenrolar a história do “neoliberalismo” à francesa desde a década de 1980. O poder financeiro, originalmente na posse dos altos funcionários, gaulistas, honestos e patrióticos, passou a seguir para o sector privado. A única coisa que se conservou é o caracter hiperconcentrado do sistema.

Marianne: Um pouco sobre o modelo do que passou com os oligarcas na década de 90 na Rússia, depois da queda do muro de Berlim.

(continua)
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