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CARTA DE PARIS – Aconteceu na Europa – I – por Manuela Degerine

A editora “des Syrtes” acaba de publicar em Genebra a tradução francesa do diário de Eva Heyman, “J’ai vécu si peu”, (“Vivi tão pouco”), escrito em húngaro e divulgado pela mãe da adolescente, Ágnes Zsolt, em 1949. Eva é judia e nasceu em 1931. O texto sugere que já anteriormente ela escrevia porém a parte publicada começa no dia do seu aniversário: 13 de fevereiro de 1944. A guerra está quase no fim…

Eva vive na casa dos avós maternos, em Oradea, na Transilvânia do norte. O avô é farmacêutico e, até às leis antijudaicas, foi presidente da liga dos farmacêuticos da cidade, o pai dela é engenheiro, a família paterna possui um hotel e diversas lojas, o padrasto é um escritor conhecido… Uma família culta, respeitada, abastada. Eva gosta de ler, de estudar, de praticar desporto; quer ser fotojornalista e casar com um inglês. Na Hungria, país do qual esta parte da Transilvânia fez parte entre 1940 e 1947, a vida dos judeus ainda parece resguardada, embora não ignorem o que ocorre na Roménia, na Polónia, na Alemanha…

A família passou todavia por três grandes alarmes. O primeiro foi em 1940 quando as autoridades entregaram a um húngaro a farmácia do avô e este só a conseguiu recuperar dois meses mais tarde após o pagamento de uma soma elevada; entretanto as leis não mudaram e, sendo judeu, ele não pode ter uma loja, por conseguinte em 1944 é outro “ariano” quem dirige a farmácia, embora o avô exerça a função e – claro – partilhe com ele os lucros: do mal o menos. Eva ainda vê em pesadelos o húngaro na farmácia.

Depois, em 1941, a menina dera um passeio de bicicleta com Marta, cujo pai, também judeu, não nascera na Hungria; lanchavam ambas em casa de Eva quando vieram de súbito buscar Marta e a enviaram com os pais para a Polónia – sem bagagens. A bicicleta vermelha continua onde a dona a deixou…

“Cada vez que vê as duas bicicletas, Ági [a mãe de Eva] desfaz-se em lágrimas. Inquiri por que chora daquela maneira. Não temos que nos inquietar, já que o papá nasceu em Budapeste, o tio Béla [o padrasto] em Komárom e o avô em Kaposvár. Ela continuou a soluçar dizendo que muita coisa podia acontecer e nos levariam de comboio para a Polónia só por sermos judeus, pois o fascismo ditava as suas leis” (pp. 47-48, tradução do francês e parênteses meus).

O terceiro traumatismo é a deportação do padrasto, Béla Zsolt, para um campo de trabalho forçado na Ucrânia do qual ele apenas escapa graças à ação da mulher. Em seguida, por Béla Zsolt não poder trabalhar como jornalista, sendo judeu, ambos se refugiam até ao fim da guerra em Oradea. Pensam eles.

(Continua)

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