(Conclusão)
Eva regista o que um Velho do Restelo murmura no gueto de Oradea: “Julgam que nos mantêm até ao fim da guerra neste horrível lugar designado como campo para em seguida se despedirem de nós do outro lado das grades? Senhoras e senhores, tenham a gentileza de pôr no lixo as estrelas amarelas. Regressem aos lares, nós devolvemos tudo, queiram perdoar os incómodos! Não, claro que não! Uma vez por todas digamos as coisas francamente. Sabem para onde foram os judeus austríacos, alemães, holandeses, franceses? Enumerou assim não sei quantos países. Se ignoram, eu digo-o: para a Polónia. Meteram-nos em vagões para transporte de animais: setenta em cada um. Não sei o que sucedeu a seguir, mas sou capaz de imaginar. Acreditam que depois do que eles fizeram em Oradea, quando mais não fosse às mulheres, vão deixar algum de nós viver para testemunhar?” (p. 127)
A família é deportada para Auschwitz no dia 3 de junho de 1944; apenas a mãe e o padrasto conseguem esconder-se, fugir do campo e sobreviver até ao fim da guerra. No entanto Ágnes Zsolt suicida-se em 1948 e Béla Zsolt morre em 1949, vítimas ambos ainda provavelmente do nazismo.
Eva confiou o diário a Marika, a qual o entregou a Ágnes Zsolt. É possível que a mãe de Eva tenha alterado o texto, cujo original desapareceu pouco depois da publicação – mas pouco importa que houvesse modificações. Otto Frank, o pai de Anne Frank, fez o mesmo. Philippe Lejeune, que estudou a génese do diário publicado, acabou por concluir: “É um trabalho admirável do ponto de vista literário, corajoso do ponto de vista humano, um exemplo raro de colaboração póstuma.” (Philippe Lejeune, “Autogenèses, Les brouillons de soi 2”, Éditions du Seuil, Paris, 2012, p. 35, tradução minha). Como o manuscrito de Eva Heyman se perdeu ou foi destruído, é provável que este estudo nunca seja possível. No texto publicado por Ágnes Zsolt, a qual acompanhou os acontecimentos e podia compreender o que, por ter treze anos, Eva talvez não conseguisse sempre formular, lemos uma rara capacidade de expressão e observação: a ansiedade, a indignação, o ímpeto vital da adolescente; as falhas, a impotência e as contradições dos adultos. Este texto mostra singularmente a progressão mortífera na qual o nazismo conseguiu prender os judeus.
Eva Heyman poderia ter hoje oitenta e dois anos. Seria fotojornalista? Que imagens estariam associadas ao seu nome? Que textos? O nazismo degradou de maneira definitiva o género humano – ficámos a saber que o pior pode sempre suceder. O papel de Anne Frank, Ruth Maier e Eva Heyman é continuarem a alertar-nos para o risco. Estas três raparigas às quais não era concedido um estatuto humano tornaram-se exemplo das nossas melhores qualidades: venceram o nazismo.
