CARTA DE PARIS – Aconteceu na Europa –II – por Manuela Degerine

(Continuação)

 Em fevereiro de 1944 Marta vai à escola, pratica desporto, acredita no futuro, diverte-se com as amigas… Espera ansiosamente pelo fim da guerra. A família não pode fazer festa de aniversário, mas a adolescente recebe diversas prendas. A percetora que a educou, Juszti, o ser que Eva mais ama no mundo, foi obrigada – por ser “ariana” – a separar-se da menina, mas vem discretamente vê-la. Os adultos sentem o cerco a fechar-se e reagem consoante o género: as mulheres – a avó, a mãe – choram, indignam-se, lamentam-se, os homens – o avô, o pai, o padrasto – calam-se.

Nos três meses seguintes, até 30 de maio, data do último texto, as mudanças precipitam-se – ao ponto de a avó enlouquecer. Obrigam-nos a usar a estrela amarela. Tiram-lhes o que possuem, dos rádios, bicicletas, eletrodomésticos aos lençóis das camas. Prendem o pai de Marta. Mudam-nos no dia 5 de maio para o gueto, transformado em campo de concentração, onde a promiscuidade e condições sanitárias são alarmantes. Onde tantos se suicidam que o necrotério – um armazém de lenha – está sempre repleto: “Até vemos pernas a sair cá para fora.” (p. 128). Onde quase tudo é proibido: “Em caso de transgressão, pouco importa a gravidade, não nos põem de castigo, não nos batem, não nos privam de comida, não nos obrigam a copiar cem vezes os verbos irregulares, como na escola, nada disto, nada de nada! Uma só e única punição: a morte” (p. 116). Ági repete contudo à família: “Se nos mantivermos vivos, tudo se há-de recompor” (p. 119). Confiscam-lhes os últimos bens, comida, lenha – até os cigarros. Torturam o avô, torturam Ági para obterem algum resto de jóias e economias confiado a “arianos”. Começam a encher comboios de mercadoria, sem água, sem sanitários, que ficam ao sol durante a tarde e partem à noite… Para onde?

O diário de Eva Heyman poderia ter o poema de Bertolt Brecht em epígrafe: “Primeiro levaram os negros, mas não me importei, eu não era negro”. O antissemitismo agravou-se a partir da ocupação da Hungria pelos alemães em 19 de março de 1944 porém, como os judeus representavam 825000 habitantes e, no caso particular de Oradea, constituíam cerca de vinte mil, um terço do total, não era possível expropriá-los e deportá-los de um dia para o outro. Tiraram-lhes primeiro um direito, depois um emprego, a seguir uma propriedade, obrigaram-nos a pagar, a renunciar, a obedecer… Quem se revoltava era deportado. Os outros calavam-se com medo: a sua situação podia ser pior. Este “podia ser pior” – o nosso familiar PSP – foi-os iludindo até chegarem a Auschwitz. Mesmo a família de Eva Heyman, culta, militante, abastada, informada – o padrasto é um intelectual de esquerda – não tomou as medidas necessárias para, por exemplo, enquanto podia, no mínimo, pôr a adolescente a salvo. Entretanto alguns dos não-judeus pensavam que isto não lhes dizia respeito e, como a realidade era de facto inimaginável, confiavam que haveria um limite, optando por ignorar o máximo, não acreditar em boatos – para evitar problemas. Quase todos os outros aderiam à propaganda: as autoridades proclamavam estar a defender-lhes os direitos usurpados pelos judeus. E muitos iam recuperando os bens, as profissões, os negócios, os alojamentos, o mobiliário, as obras de arte dos expropriados. A família de Eva confiou as jóias a Juszti, que no fim da guerra declarou ter sido roubada; verdade provável. Ou mentira. Raros eram os que corriam riscos… No entanto a cozinheira, Mariska, continuou durante vários dias, enquanto foi possível, a levar comida aos antigos patrões através das grades do gueto. E escondeu o diário de Eva.

(Continua)

Leave a Reply