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EDITORIAL: A GREVE GERAL

Diário de Bordo - II

 

A greve é uma forma de protesto radical; uma das partes que, de um modo ou outro, celebrou o contrato social, sentindo que a outra não está a cumprir com o contratado, suspende a sua prestação, em princípio até haver um acordo que reponha um novo equilíbrio. Os dramas humanos, individuais e colectivos, que antecedem e acompanham uma greve foram descritos de forma única por Émile Zola, em Germinal. Dirão alguns que a realidade que ele descreveu já não existe; que as coisas hoje são diferentes do que eram no século XIX. Diferentes são com certeza, mas as contradições profundas continuam. A exploração do trabalho continua a ser a pedra de toque do sistema económico-financeiro que controla a nossa existência e transforma em mercadoria tudo em que toca. Aquilo a que se tem chamado crise é na realidade um aperto que a oligarquia está a dar aos 99%, para poder reforçar os seus lucros e os seus privilégios.

Obviamente que uma greve geral é dirigida contra um governo. Corresponde a uma situação de insatisfação generalizada. Em Portugal, é o que temos. Já nem os membros que integram o Governo Passos/Portas acreditam no trabalho que estão a desenvolver. Sabem que estão a trabalhar para o interesse de minorias, e que estão a impor aos cidadãos sacrifícios injustos e perfeitamente inúteis. Sabem também que a solução é reformar (chamemos-lhe assim, por agora…) o sistema financeiro e o sistema bancário, e combater a corrupção que gangrena os serviços públicos. Mas apenas conhecem a lenga-lenga do corte nos ordenados e reformas. Obviamente que esta greve geral é também contra  os organismos europeus, que se arrogam cada vez mais dar  diktats (parece que é assim em alemão) e os seus colegas FMI, OMC e quejandos. É a globalização…

As greves são convocadas por sindicatos, os quais, tal como os partidos políticos, têm muitas limitações. Burocracia, incompetência, sede de poder, há de tudo. As organizações, sobretudo as que tratam com problemas de poder, geram esses vícios. Para os combater é preciso lutar pela transparência e democratização, cada vez mais. E participar, dentro das possibilidades de cada um, procurando transcendê-las, permanentemente. Os tempos em que vivemos assim o exigem.

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