POESIA AO AMANHECER – 235 – por Manuel Simões
13 anos ago
REINALDO FERREIRA
( 1922 – 1959 )
A QUE MORREU ÀS PORTAS DE MADRID
A que morreu às portas de Madrid,
Com uma praga na boca
E a espingarda na mão,
Teve a morte que quis,
Teve o fim que escolheu.
Nunca, passiva e aterrada, ela rezou.
E antes de flor, foi, como tantas, pomo.
Ninguém a virgindade lhe roubou
Depois dum saque – antes a deu
A quem lha desejou,
Na lama dum reduto,
Sem náusea mas sem cio,
Sob a manta comum,
A pretexto do frio.
Não quis na retaguarda aligeirar,
Entre “champagne”, aos generais senis,
As horas de lazer.
Não quis, activa e boa, tricotar
Agasalhos pueris,
No sossego dum lar.
Não sonhou minorar,
Num heroísmo branco,
De bicho de hospital,
A aflição dos aflitos.
Uma noite, às portas de Madrid,
Com uma praga na boca
E a espingarda na mão,
À hora tal, atacou e morreu.
Teve a sorte que quis.
Teve o fim que escolheu.
(de “Poemas”)
Por ter tido uma vida breve, parte dela vivida em Moçambique, onde faleceu, a sua poesia só se tornou conhecida com a publicação do volume póstumo “Poemas” (1960), que constituiu grande revelação. É dele o famoso poema “Receita para fazer um herói”.