Site icon A Viagem dos Argonautas

A CANETA MÁGICA – “Muito barulho por nada” – por Carlos Loures

A cada facto da actualidade devemos tentar atribuir a importância que tem numa perspectiva histórica. Na minha opinião o que se está a passar, nessa perspectiva, é completamente irrelevante. – os nomes que alimentam a crónica diária, serão pasto para especialistas e coca-bichinhos. Much ado about nothing, é, como se sabe, o título de uma peça do divino Shakespeare. Vi-a há mais de vinte anos muito bem encenada e representada no Teatro da Cornucópia, dirigido pelo excelente Luís Miguel Cintra. Para o que quero dizer hoje, a história que o mestre William conta não interessa; aproveitei o título. Todo o barulho mediático que se faz com as irrevogabilidades revogáveis do Portas, com a teimosia carreirista de Coelho ou com a desonesta indecisão de Cavaco, tudo isto é igual a zero. Porta, Coelho e Cavaco, três pigmeus malignos, mas que ficarão invisíveis aos olhos dos historiadores. Bastar-lhes-á dizer que desde 25 de Abril de 1974, não apareceu um grande político em Portugal. O discurso político mais válido tem sido produzido por gente que não faz da política o seu “métier”. A qualidade intelectual da nossa classe política deixa muito a desejar.

«Então e Francisco Sá-Carneiro?» perguntarão os neo-liberais. Figura de proa do PPD/PSD, o que disse de importante? O que li na (quanto a mim paupérrima) obra política de Sá Carneiro foi uma defesa algo envergonhada, de conceitos neo-liberais, a recusa da luta de classes. A recusa da revolução, portanto. Refiro-me a Por uma Social-Democracia Portuguesa (1975) que li há mais de 30 anos. Nunca percebi a razão do culto. A única explicação reside na sua morte trágica. Com valor hagiográfico, é pouco em termos de filosofia política. Pacheco Pereira é a única cabeça daquele partido, mas o episódio maoísta marcou-o. Marcelo Rebelo de Sousa parece ter ideias, mas é apenas um destruidor das ideias alheias.

«Então e o Mário Soares?», perguntarão os social-democratas e os neo-liberais que se enganaram e querendo ir para a Buenos Aires, apanharam o eléctrico para o Largo do Rato. Na ida viajam de eléctrico, os carros topo de gama vêm depois. Além de memórias interessantes (Portugal Amordaçado), no plano teórico, Soares deixa-nos tanto como Sá-Carneiro – zero.  Como político, foi habilíssimo, talvez o mais arguto da Terceira República.

«Então e o Álvaro Cunhal?» perguntarão os pecepistas. Homem inteligente, político hábil na condução do seu partido, coerente com as ideias, aplicando a táctica adequada a uma estratégia global em cuja definição não participava. Não deixou uma obra teórica consistente. Os seus textos vão mais no sentido de justicar a linha reformista seguida pelo PCP.

Apesar de tudo,  estes nomes que referi – Sá-Carneiro, Mário Soares, Álvaro Cunhal, Pacheco Pereira, são os nomes de políticos com uma qualidade superior à dos actuais. A nossa classe política tem vindo a piorar a olhos vistos. Na esquerda a quebra de qualidade não é tão acentuada; ao centro e à direita é dramática. António José Seguro não resiste a qualquer comparação com Soares. Passos Coelho comparado com Sá Carneiro ou Paulo Portas com Freitas do Amaral, só se for para nos rirmos. E no entanto, o preço que pagamos para ver o espectáculo justificaria que a qualidade dos actores fosse melhor. Só barulho mediático. Muito barulho por nada.

Exit mobile version