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500 ANOS DA LOUCURA DE ERASMO, E DAMIÃO DE GÓIS, por Sílvio Castro

  Publicado no Estrolabio em Abril de 2011, quando decorram as comemorações do V Centenário da publicação do Elogio da Loucura, de Erasmo de Roterdam, um dos grandes clássicos do Renascimento europeu.Imagem1

 Na abertura da cena, assim falou a Loucura, não como um orador qualquer, mas recoberta de vestes femininas, feéricas, ainda mais no alto daquela pequena tribuna que domina o público lá embaixo:

“Apesar de toda e qualquer coisa que digam os homens de mim habitualmente (sei muito bem de fato como seja ruím a fama da loucura até mesmo entre os loucos), o tema que estou por expor basta suficientemente para demonstrar que sou eu quem está aqui presente. Eu aqui presente, digo, e nenhum outro, a alegrar homens e deuses com a minha potência divina. Eis a prova: não apenas me apresentei a falar nesta reunião plena de expectadores, todos os rostos improvisamente se iluminaram de uma nova e incomum alegria; haveis alçado a fronte, me haveis aplaudido com um riso amável e pleno de benevolência“.

A mulher multicolorida não fala como um pregador e não usa a sua pequena tribuna como um púlpito. Mas, recita palavras e conceitos aparentemente absurdos, mas que cedo tomam em mãos todo o público, homens e mulheres felizes, alegres, raptadas pela mensagem insólita –

“A inteira vida dos mortais, no final das contas, o que é senão uma comédia na qual diversos atores se adiantam com máscaras diversas e recitam cada um deles a sua parte, até que o diretor não os faz deixar a cena? Muitas vezes depois faz com que se adiante a mesma pessoa maquilada diversamente, de maneira tal que aquele que antes recitara como um rei vestido de púrpura agora represente o servoem mulambos. Tudofalso, certamente, mas não de outra forma se entra em cena.“

Assim, desconcertante, se apresentava naquele 1511 pelos tipos de uma pequena editora parisiense, a Jehan Petit, um apólogo paradoxal, Moria encomium, Erasmus declamatio. A partir de então o Renascimento europeu apresentava uma sua nova face, não mais carregada de dúvidas e ambiguidades, mas aberta a todas as invenções que a existência humana pode conhecer, desde que disponível à partipação com a Loucura.

O Elogio da Loucura, de Erasmo, logo se faz um clássico e passa a indicar caminhos.

O jovem Erasmo deseja aperfeiçoar seus estudos humanísticos na Itália. Assim, em 1506, encontra-se em Turim, onde obtém o doutorado em Teologia. Noperíodo 1505-1508 se fixa em Veneza, hóspede do grande editor Aldo Manuzio. Na Sereníssima República, Erasmo aperfeiçoa o seu grego e publica, com o seu amigo editor, a segunda edição das famosas Adagia, recolha e comentários de provérbios antigos, mais de três mil, alguns dos quais mais tarde desenvolvidos em tratados. Deixando Veneza, parte para Roma (1508-1509) e, em seguida, para a Inglaterra, onde se fixa mais longamente (1509-1514). Na sua demorada estação londrina, conhece as peripécias iniciais em que cai o reinado de Henrique VIII, bem como convive em grande amizade intelectual com o humanista inglês, Thomas More. O Elogia da Loucura e a Utopia,  de More, serão os dois marcos que conduzirão os homens a um renovado espírito renascimental.

Damião de Góis, um dos máximos humanistas portugueses, soube desde logo deixar-se acativar pela Loucura. Tomado de admiração pela obra de Erasmos – além do Elogio da Loucura, igualmente, ainda que em outra direção, pelo erasmiano Ciceronianus, de 1528 – o jovem cavaleiro português, em serviços de seu Rei pelo Norte da Europa, toma os primeiros contatos com o sábio holandês em abril de 1533, com o pedido de um primeiro encontro pessoal.  Erasmos acolhe muito bem os desejos expressos por Damião de Góis.

O encontro estava fixado, porém um evento eccepcional impede o jovem estudioso português de imediatamente ir de encontro ao seu escolhido Mestre: tendo sido designado por D. João III, por indicação de seu amigo João de Barros para seu substituto no posto de Tesoureiro do Reino, encargo que o máximo Cronista-Mór então deixava, Damião de Góis não pode senão regressar de imediato a Lisboa. Porém, o seu desejo de encontrar Erasmos e deixar-se guiar por ele nos seus estudos humanísticos não se arrefece. Poucos meses depois o jovem estudioso conseguiria recuperar a  meta anteriormente desejada. Antes do findar de 1533, alcança a benevolência do Rei para não continuar no honroso cargo. Podia, desta maneira, retomar a sua peregrinação cultural.

Damião de Góis soube escutar os ditos da Loucura, e assim renunciava ao poder e aos benefícios materiais, em favor dos ideiais que sempre cultiravara. Pelos conselhos-guias de Erasmos ele parte para Pádua e ali conquista definitivamente aqueles valores que fazem dele uma das vozes maiores do Renascimento português.

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