OS HOMENS DO REI – 42 – por José Brandão

Damião de Góis (1502-1574)

 

Damião de Góis nasce em 1502, em Alenquer, filho de Rui Dias de Góis e de Isabel Gomes de Limi. Quando órfão do pai (aos nove anos de idade), Damião de Góis torna-se pajem do Paço de D. Manuel. Em 1521, morre D. Manuel e D. João III sobe ao trono. D. João III nomeia Damião de Góis secretário da Casa da Índia, em Antuérpia, cidade onde irá permanecer até 1533.

 

Esta época é marcada pela grande afirmação das ideias de Erasmo na Europa. Damião de Góis faz também inúmeras viagens de negócios ao serviço da feitoria da Flandres, entre 1528 e 1531. Nesse período, faz viagens a Inglaterra e França, na Alemanha e nos países baixos, à Polónia, com passagem na Hungria, Boémia, Dinamarca e Lituânia. O domínio do Latim permitia-lhe também a comunicação com as elites do poder económico, político e cultural Europeu.

 

Em 31 de Dezembro de 1531 Damião de Góis está em Bruxelas, no banquete oferecido pelo embaixador D. Pedro de Mascarenhas ao Imperador D. Carlos V para comemorar o nascimento, a 1 de Novembro desse ano, de D. Manuel, o quinto filho de D. João III. Damião de Góis, nos Países Baixos, à medida que se afirma como humanista surge também como músico e coleccionador de arte, e mecenas ilustre de muitas formas culturais. Em 1538, Damião de Góis regressa a Lovaina e fica com autorização de D. João III, até 1544.

 

Em 1539, matricula-se na Universidade de Lovaina, cidade onde publicará a sua terceira obra ainda nesse ano. Em Portugal, tendo sido estabelecida a Inquisição em 1536, desenvolve-se entre 1537 e 1540 toda a estrutura de censura, sendo publicado em 1547 o primeiro índice de livros proibidos. A obra de Damião de Góis chega a Lisboa e é examinada por censores inquisitoriais e a obra é proibida de circular por D. Henrique (inquisidor-geral do reino desde 1539).

 

O cardeal D. Henrique, numa carta plena de amabilidade e fraternidade que escreveu ao humanista, «proíbe Damião de Góis de escrever sobre assuntos teológicos e incentiva-o a desenvolver outras escritas. E, na verdade, Góis jamais voltará a publicar seja o que for directamente sobre matérias religiosas.» Em 1542, Francisco I declara guerra a Carlos V. Lovaina é atacada nesse mesmo mês pelo exército Francês. Damião de Góis é um dos chefes da defesa da cidade, acaba por ser feito prisioneiro e é levado para França tendo sido libertado em 1543, pelo pagamento de um resgate por D. João III.

 

Este Rei ordena, então, a Damião de Góis que regresse a Portugal. Em 1548 foi nomeado guarda-mor dos Arquivos Reais da Torre do Tombo e encarregado de escrever a Crónica de D. Manuel. Missão perigosa, perante uma sociedade e uma época em que ainda estavam vivos tantos dos responsáveis dos factos que haviam de cair sob a alçada da crítica. A Crónica de D. Manuel, logo que conhecida, suscitou as censuras que lhe fez a rainha D. Catarina e lhe foram notificadas por Alcáçova Carneiro, e as ásperas repreensões do conde de Tentúgal. O escritor teve de cortar, modificar, refazer.

 

O conde de Tentúgal chega a sublinhar frases que considerava casos de Inquisição – a qual não tardaria, aliás, a nelas atender, como nas velhas acusações do padre jesuíta Simão Rodrigues. Mas, apesar de tudo, a crónica conservou muito do que o escritor pretendia comunicar; e, entre o mais, a página admirável em que descreve a matança dos cristãos-novos em tempo de D. Manuel e as referentes a quanto foi feito para impedi-los de sair do Reino, e lhes impor a necessidade de baptismo e de profissão da Fé católica. Padre Simão Rodrigues, que o havia acusado em 1545 perante a Inquisição de Évora, denunciava-o de novo à Inquisição de Lisboa, só porém dez anos depois de ele ter sido nomeado guarda-mor do Arquivo da Torre do Tombo.

 

Foi ainda desta vez nulo o resultado das perseguições. Mas foi-lhe dado, por seu mal, o encargo de escrever a famosa Crónica de D. Manuel, e já sabemos como foi acolhida. É depois disto que seu genro, Luís de Castro, acusa o sogro de afirmações, não de falta de fé, mas de desassombro de juízos contra aspectos da vida do clero. Góis foi, pois, chamado ao Santo Oficio. Outras acusações vieram, que ele próprio confessa: livros proibidos, relações com Erasmo, relações de amizade com chefes protestantes e certos elogios que lhes fazia. Tanto bastou para que fosse condenado como simpatizante de Lutero. Preso, queixava-se de doenças várias – vértigo, rins e sarna. É de supor que lhe tivessem dado então liberdade, implícita no passo definitivo no caminho da benevolência, que já o havia feito transferir das masmorras inquisitoriais para o mosteiro da Batalha.

 

De qualquer modo, tendo-se posto em 1574, a caminho do mosteiro de Alcobaça e pernoitando numa venda, ficou ao lume, depois de deitados seus criados e as pessoas da estalagem. Como apareceu ele, no dia seguinte, queimado e morto? Por ter caído, desmaiado, sonolento sobre o fogão? Assim se pensa; mas, dados os antecedentes, todas as explicações são conjecturais.

 

A seguir:Paulo Dias de Novais

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