Site icon A Viagem dos Argonautas

GERAÇÃO ABANDONADA – A MORTE SILENCIOSA DA ESQUERDA AMERICANA. POR JEFFREY ST. CLAIR

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

De Counterpunch

Generation Leftover

The Silent Death of the American Left

by JEFFREY ST. CLAIR

Geração abandonada – A morte silenciosa da esquerda americana 

Existe uma esquerda na América, hoje?

Existe,  claro, uma ideologia de esquerda, uma  esquerda na nossa cabeça,  uma esquerda da teoria e da crítica. Mas há um movimento de esquerda?

Existe uma esquerda  como força de oposição política, cultural ou económica? Ninguém se sente intimidado ou constrangido  pela esquerda? Há uma contra-reacção contra  o  rolo compressor do capitalismo neoliberal e contra os seus gestores políticos?

Podemos e fazemos no nosso site CounterPunch  e em publicações similares, tais como nas revistas Monthly Review  New Left Review, a publicação de análises do capitalismo e das suas inerentes  fragilidades, e continuamos aí a falar dos seus mecanismos  predadores do capitalismo e das suas guerras de conquista militar e da sua  exploração imperialista. Mas onde está a nossa capacidade de enfrentar os horrores diários de lançamento de voos de combate não pilotados, das listas de morte, das demissões em massa, dos ataques contra as  pensões de reforma e contra o pesadelo da  iminência das mudanças climáticas?

É uma realidade amarga, a que nos é mostrada   de forma muito viva por cinco anos de Presidência Obama, em que a esquerda tem sido  uma força completamente  imobilizada e politicamente impotente, numa altura em que as desigualdades económicas,  criadas pelos  nossos senhores feudais da Goldman Sachs que controlam a economia global, podiam e deviam ter reanimado  um movimento de resistência moribundo  desde longa data.

Em vez disso, dessa reanimação, desse retorno à actividade política, a esquerda parece  incapaz de realizar a sua convalescença, incapaz de passar da  crítica à prática, incapaz de se  mobilizar contra as guerras,  incapaz de  resistir às incursões contra as  liberdades básicas, impotente para enfrentar as regras impostas pelos Hedge funds e pelos especuladores sobre a dívida pública ou outra, incapaz  de fazer significativamente frente contra a vanguarda de um sistema económico parasita  que glorifica a ganância enquanto destrói os mais fracos  e os mais pobres  e é  incapaz de enfrentar o verdadeiro legado do homem que puseram no poder e em que confiaram .

Esta é a política de exaustão. Somos uma geração de gente abandonada. Chegámos a um momento de fracasso histórico que faria estremecer até mesmo Nietzsche

Estamos marginalizados, somos exilados políticos no nosso país, no meio desta muda  escuridão, uma oclusão política, cada vez mais obcecados, como o historiador de arte radical Tim Clark o escreveu  há alguns anos num  ensaio perturbador publicado na  New Left Review, com   a tragédia da nossa própria derrota.

Considere isto. Dois terços do eleitorado americano opõem-se  à guerra em curso no Afeganistão. A mesma percentagem da população  opôs-se  à intervenção na Líbia. Com ainda mais gente a recuar  diante da perspectiva sombria de entrar no teatro sírio.

No entanto, ainda não há nenhum movimento anti-guerra para expressar a visível desilusão em acção. Não há manifestações de massas. Não há esforços sistemáticos para tentar contrariar o recrutamento militar. Não há greves pelo país. Não há greves nos campus universitários. Não há sérias campanhas de envolvimento contra as empresas envolvidas nas tecnologias dos aviões de combate teleguiados.

Semelhante desagrado popular é evidente em relação a imposição de medidas de austeridade severas durante uma recessão prolongada e enervante. Mas mais uma vez este ultraje latente não tem saída política no clima político actual, em que ambos os partidos abraçaram  totalmente a matemática dos limites mínimos impostos pelo   neoliberalismo selvagem.

Os sem abrigo, em número crescente  em toda a América, são um tema proibido por lei, não mencionado na imprensa, ausente do discurso político. A fome, como consequência do  aprofundamento da crise na zona rural e na América urbana, é um assunto tabu,  qualquer coisa deixada ao cuidado das instituições  de  caridade religiosa em que se reza para  comer ou  aos  caprichos volúveis dos despedimentos pelas grandes empresas.

O que é que eles nos oferecem, em vez disso? Homilias piedosas sobre a ética de trabalho, a santidade da família, a laxante auto-correção das forças de mercado.

O empobrecimento económico da América negra, brutal e implacável, é simplesmente omitido, apagado do diálogo político, mesmo nas sessões  organizadas pelo Black Caucus do Congresso. Em vez disso, sempre que com o Barack Obama sem esperança e com os políticos utilizadores dos livros de ilusões se menciona a situação dos negros americanos (aproximadamente uma vez em cada dois anos pelas minhas contas), como ele o fez no seu discurso paternalista nesta primavera, é para repreender os negros sobre a limpeza de seus actos, aconselhando-os a deixarem de protestar  sobre as suas condições de  vida e sobre o trabalho mais  duro e  adaptarem-se ao plano de acção da cultura empresarial da comunidade branca.

A necessidade evidente para projectos de grandes obras públicas não poluentes para a economia e para colocar as pessoas a trabalhar nem sequer é mencionada  enquanto a imprensa e os políticos se envolvem   num falso debate sobre a minúcia do sequestro e afiam  as facas uns dos  outros para começar a acabar  com a Segurança Social e com o apoio nos cuidados de saúde, com Medicare. Onde é que esta a revolta colectiva? Onde estão as marchas sobre o Capitólio? Ou sobre os membros do Congresso acomodados  nos sofás dos gabinetes do Congresso?

Há algumas semanas atrás escrevi um ensaio sobre o memorando infame da administração Obama, justificando a utilização de aviões telecomandados  sobre  países como Paquistão e o Iémen contra quem  oficialmente os Estados Unidos não estão em guerra. Num parágrafo bem revelador, um advogado do departamento de Justiça citava o bombardeamento ilegal  do Camboja durante a guerra do Vietname como um precedente para os ataques assassinos dos teleguiados mandados por Obama. Deixem-nos recordar  que o bombardeamento  do Camboja levou rapidamente a que vários altos funcionários do gabinete de Nixon apresentassem o seu pedido de demissão, incluindo o escritor Roger Morris do Counterpunch. E isto também fez desencadear uma revolta no campus em Kent State, o que terá levado o governador de Ohio Jim Rhodes a declarar o estado de emergência, mandando a guarda nacional para limpar o campus. As tropas da guarda prontamente começaram a disparar contra os manifestantes, matando quatro e ferindo nove. A guerra tinha chegado a  casa.

Onde é que estão os protestos hoje?

O ambiente está a desfazer-se, peça a peça,  bem à frente dos nossos olhos. Cada dia trazem-nos mais más notícias. Os anfíbios estão em forte declínio na América do Norte. As tempestades de ferocidade inimaginável estão a desgastar as grandes planícies, semana após semana. O Ártico em breve estará livre de gelo. O lençol freático está ficar cada vez mais fundo no grande  aquífero do mundo. O ar é cancerígeno em dezenas de cidades da Califórnia. A coruja malhada está a ser extinta. Os lobos estão a começar  a descer  às centenas ao longo das montanhas rochosas. As abelhas, os grandes polinizadores, estão a desaparecer de costa a costa, dizimadas pela agricultura química. Agora a temporada de furacões vai de Maio a Dezembro. E sobre tudo isto o que o movimento ambientalista pode oferecer como resistência são  alguns protestos esboçados contra um gasoduto que já é um fato consumado.

A nossa política tem sido sociopata e os liberais na América têm sido flexíveis  a cada abuso, marinando no  lodo tóxico da retórica mordente do Presidente  Obama. Eles engolem ansiosamente cada política placebo que Obama lhes serve, obedientemente,  defendendo cada incursão contra os direitos fundamentais. E cada traição só serve para fazer com que a sua comitiva pareça estar a querer beber ainda mais os seus sorrisos, as suas palavras: o seu ocasional encanto e os seus acenos de forma mais acentuada. Ainda outros,  do círculo da esquerda infinitamente dogmática, como personagens destinadas aos eternos papéis criados  por Dante, estão situados num  beco político, sem saída,  quanto à sua identidade ideológica.

Até quanto  é que nós toleraremos tudo isto  antes de rebentarmos? Uma guerra fabricada, uma economia pilhada, uma atmosfera escaldante,  um golfo espoliado, a perda de habeas corpus, o assassinato de cidadãos americanos…

Olhamos  em vão através desta vasta paisagem de  desespero mesmo à procura dos mais ténues lampejos de rebelião real e de motins  populares, como se  estejamos  a analisar uma nação de sonâmbulos.

Nós permanecemos estranhamente impassíveis face à  nossa própria extinção.

Jeffrey St. Clair é o editor de CounterPunch. O seu livro mais recente  (com Joshua Frank) é Hopeless: Barack Obama and the Politics of Illusion (AK Press).
Acima apresentamos uma versão condensada de uma conferência  feita na Universidade de Oregon.

 Ver em:

 http://www.counterpunch.org/2013/05/24/the-silent-death-of-the-american-left/

Exit mobile version