O PRESIDENTE QUE NÃO ESTAVA NA PRESIDÊNCIA: O LEGADO DE BARACK OBAMA É UM LEGADO DE IMPOTÊNCIA, por JEFFREY ST. CLAIR

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Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

O Presidente que não estava na Presidência: O legado de Barack Obama é um legado de impotência

 

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The President Who Wasn’t There: Barack Obama’s Legacy of Impotence

JEFFREY ST. CLAIR, disponibilizado por CounterPunch

Data da publicação do original: 13 de Janeiro de 2017

Este artigo foi traduzido e publicado com a permissão do autor.

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Foto de RubyGoes | CC BY 2.0

 

Barack Obama estava em Brasília em 19 de março de 2011, quando anunciou com limitada fanfarra a última guerra da sua presidência tendo como objetivo uma mudança de regime. O bombardeamento da Líbia tinha começado com uma saraivada de ataques de mísseis de cruzeiro e de bombardeamentos aéreos. Era algo de uma intervenção improvisada e orquestrada em grande parte por Hillary Clinton, Susan Rice e pela diva da vingança, Samantha Power, sempre disposta para um bombardeamento de saturação em nome dos direitos humanos.

Obama logo aumentou a parada, sugerindo que era tempo de Kaddafi se ir embora. O Império tinha chegado ao limite da sua paciência para com este imprevisível coronel. A vaga de tensão sobre a guerra na Líbia tinha ameaçadoramente acabado por impor “uma zona de exclusão aérea” para forçar uma mudança de regime. Os bombardeamentos rápidos visavam Kadafi e a sua família. Vinham na esteira do assassinato extra-judicial de Osama Bin Laden, numa invasão de domicílio que ficou manchada de sangue. Kadafi era certamente temido, Obama queria igualmente o seu corpo metido num saco.

Na ausência de protestos em massa contra a destruição iminente de Tripoli, coube ao Congresso tomar algumas medidas provisórias para contestar a última guerra não autorizada e não provocada. Numa altura anterior da história da República, o desafio arrogante de Obama face ao Congresso e à War Powers Act of 1973 poderia ter provocado uma crise constitucional. Mas estes eram outros tempos, os de agora são mais maleáveis mais dóceis, em que tais matérias vitais desceram ao nível de uma espécie de teatro político oco. Todos os atores desempenharam devidamente os seus papéis, mas cada um, mesmo os noticiários por cabo consideraram que era apenas uma demonstração. As guerras seguiram-se. O Congresso irá financiá-las. As pessoas não irão dizer nada sobre estas matérias. Como Oscar Wilde ironizou: “Toda a gente está em cena, uma má representação.”(All the world’s a stage, badly cast.”

Aquele velho molengão que é John Boehner, o filho do taberneiro com lágrimas nos olhos, esculpiu uma resolução exigindo que Obama explicasse as suas intenções na Líbia. Esta foi aprovada na Câmara por uma maioria esmagadora. Uma resolução concorrente trabalhada pelo imbecil Dennis Kucinich defendia uma retirada imediata das forças norte-americanas em operações na Líbia. Esta medida radical sã recolheu uma grande votação: 148 votos. Obama rejeitou as duas tentativas de redução do volume de forças americanas em operações militares na Líbia, dizendo com um certo toque de frio surrealismo que os 14.000 raides aéreos feitos sobre a Líbia não correspondiam a uma “guerra”.

Este é o Barack Obama, o político moralista? O agente de mudança? O estudioso constitucional? Ouçam aquela voz. É arrogante e plena de desdém. Alguns poderiam dizer que é melancólica, como a lamentação de um talentoso estudante apanhado a fazer batota no exame final

Sim, todos os atores políticos fizeram a sua parte nesta peça. Mas qual foi exatamente o papel que Obama assumiu?

Obama, o prémio Nobel, lança-se como um Novo Internacionalista, o diretor-executivo do império global, mais desejoso de consultar os chefes de Estado europeus do que os membros do Congresso, mesmo do seu próprio partido. Na verdade, os seus co-conspiradores na surpreendente desventura na Líbia eram Nicolas Sarkozy e David Cameron, uma Troika estranha para não dizer mais. Mesmo o próprio secretário de Defesa de Obama, Robert Gates, parece ter sido discretamente afastado do pequeno círculo de decisão.

Começa-se por ver Obama a ter uma atitude fortemente violenta e tão violenta como as atitudes mais histriónica da Direita libertária. Obama tem um sentido majestático da sua própria certeza. O presidente muitas vezes parece cativado pela nobreza das suas intenções, oferecendo-se ele próprio como uma espécie de salvador do Imperium americano em clara erosão.

Enquanto Obama vende para as massas um idealismo límpido e cristalino, ele está no centro de um pragmatismo ultra-bernie-the-sandernistas-cover-344x550-e1477943826411-1calculista, especialmente quando se trata de avançar nas suas próprias ambições. Obama não quer ser marcado pela derrota. É uma das razoes porque Obama desistiu de apoiar (lutar) por um estado palestiano, no seguimento do pedido de demissão, como sinal da frustração do seu enviado ao Medio Oriente George Mitchell. É por isso que Obama se recusou teimosamente em insistir numa opção pública para a sua má lei sobre os cuidados de saúde, o Obamacare. É por isso que ele recuou relativamente a legislação de proteção ao meio ambiente e de restruturar o quadro legislativo relativo aos direitos sindicais tendo a mesma postura de distanciamento relativamente ao DREAM ACT (acrónimo de Development, Relief, and Education for Alien Minors)

Obama assumiu a presidência num momento em que grande parte da nação parecia pronta para enfrentar o fato indesejável de que o projeto norte-americano tinha saído dos carris. Antes de morrer, Norman Mailer lamentou-se de que a cultura americana estava a ser minada por uma má consciência. O país estava a deformar-se sob o peso psicológico de anos de guerras ilegais, torturas, ganância oficial, puritanismo religioso, vigilância governamental, por insatisfação sexual acompanhada pela utilização do Viagra, da existência crescente de alimentos geneticamente modificados, de empregos de baixa qualidade, de filmes sombrios e infantis, da mercantilização extrema dos espetáculos musicais a sucederem-se como uma infinita montagem de tweets irritantes. Mesmo o virtual commons do ciberespaço tinha ido solipsista.

O capitalismo das grandes empresas privadas simplesmente não estava adicionalmente a produzir mais bens. Não para os 80 por cento de menores rendimentos, de toda a maneira. A economia estava a ficar em ruínas, atolada no que parecia ser um estado recessivo permanente. O setor transformador tinha sido morto de dentro para fora, com milhões de empregos bem remunerados a serem terceirizados e a não haver mais nada para substituir esses empregos e essas produções senão tristes empregos no setor de serviços. O desemprego crônico de longo prazo oscila em mais de 10 por cento, pior, muito pior, para os negros americanos. Aqueles que se agarraram aos seus postos de trabalho viram os seus salários estagnados, os valores das suas habitações a descerem e as pessoas a ficarem sufocadas sob montes de dívida. Enquanto isso, o capital movia-se em círculos cada vez mais pequenos entre uma odiosa geração de novos-ricos, de super-ricos, ganhando sem nenhum suor milhares de milhões a partir da movimentação fácil dos capitais.

Por volta de 2008, a melancolia parecia ter-se evaporado do espírito americano. O país viu o seu próprio governo repetidamente pregar o medo do futuro aos seus cidadãos. A paranoia tinha-se tornado a última indústria em crescimento. A partir das High Sierras para a zona das montanhas  Blue Ridge, a paisagem política tornou-se azeda e rancorosa, e isto era a preparação adequada do terreno político para que a semente do Tea Party germinasse e crescesse, assim como a plataforma ranker ou ainda movimentos mais venenosos da direita norte-americana. Estes não eram os descendentes ideológicos do arrebatado libertário que foi Barry Goldwater. Os adeptos do Tea Party perderam a inocência ocidental e o idealismo ingénuo de Goldwater. Estes populistas suburbanos, de um modo geral, são brancos, infelizes e envelhecidos. Animados por uma penosa nostalgia por uma terra da fantasia pré-lapsariana defendida pela Administração Reagan, muitos sentiram a sua posição na sociedade a descer de uma forma impossível de ser evitada. Eles queriam: o seu país de volta. De volta, mas de onde?

Em vez de responsabilizarem as grandes empresas multinacionais pelas enormes e violentas deslocalizações ou os banqueiros predadores, eles dirigiram o seu desejo de se vingarem para os imigrantes e negros, para os funcionários públicos e professores, para os cientistas e para os homossexuais. Há algo de profundamente patético sobre o fatalismo política desta nova espécie de know-Nothings[1]. Mas, deve-se dizer, a sua ira é basicamente pura. Esta estranha associação de descontentamento fervilhava com um sentido rudimentar de alienação, de um desespero ácido com a diminuição das potencialidades de vida na América pós-industrial.

Não, estes não eram idealistas fanáticos, ou mesmo utópicos dos tempos da Secessão. Eram niveladores, de uma espécie, de niveladores alimentados pelo medo e pelo cansaço, conspiracionistas com um apetite político nixoniano pela destruição. Num frenesim e incentivadas pelos devaneios cínicos de Glenn Beck e Rush Limbaugh, as manifestações de massas organizadas pelos Tea Partiers em todo o verão de 2009 mostraram sinais de uma psicopatia coletiva, como se a loucura enervante de décadas de confinamento na estufa dos subúrbios americanos finalmente rompesse no horário nobre para todo o mundo assistir repetidas vezes e numa mortificação crescente às montagens feitas para o You Tube. Bem, ali, no National Mall podiam ser ouvidos os palavrões insípidos de Michele Bachmann e o novo pretérito americano, estas almas perdidas e amarguradas que sentiam que a sua cultura os tinha deixado ficar muito para trás.

Com a sua disposição radiosa e a sua capacidade tipo Próspero para a mistificação, Obama poderia ter sido capaz de as converter ou então, de levá-las a renovar o seu discurso. Em vez disso, deram cabo dele. Como?

Obama é um mestre da política gestual, mas tende a recuar em todas as frentes, em todas as batalhas campais, mesmo quando as probabilidades e o público estão ao seu lado. O seu instinto político leva-o a procurar abrigo no meio-termo. Ele é um homem que por princípio defende os compromissos, mais Rodney King “Nós podemos em conjunto ir em frente ” do que Luther King. Mesmo quando confrontado pelos desastrados e agressivos adversários como John Boehner e Eric Cantor, Obama tendem a fraquejar, a apagar-se.

Talvez Obama nunca tenha sido confrontado com esse nível de hostilidade tóxica. No fundo, ele tinha vivido uma vida calma, a de uma criança brilhante, mimada, sempre encorajada e adulada, desde a Indonésia a Harvard. Obama foi a encarnação física e psíquica do novo multiculturalismo: magro, afável, seguro, delicado. A sua ideologia política vagamente liberal permaneceu opaca no que lhe é fundamental. Em vez de uma agenda abrangente, Obama apresentou jingoísmos fáceis, ou seja slogans nacionalistas e agressivos em termos de política externa, proclamando uma América pós-racial e pós-partidária. Em vez de uma mudança radical, Obama ofereceu simplesmente uma competência de gestão. Isso, naturalmente, foi interpretado pelos guerreiros da direita como sendo arrogância e triunfalismo e tais homilias ocas serviram apenas para exacerbar a sua raiva. A direita virulenta tinha visto o perfil de Obama e descobriu que ele era o alvo perfeito para o seu criticismo fortemente ácido. E, melhor ainda, a direita tinha-se concentrado num inimigo tão intrinsecamente hostil ao conflito que, mesmo quando espezinhado com insultos racistas, ele não os iria punir.

Evidentemente, as mais dolorosas feridas políticas de Obama foram autoinfligidas, e começaram mesmo antes da sua eleição, quando veio a correr para Washington e para ajudar a salvar o plano de resgate de Bush para Wall Street. Esta foi talvez a primeira indicação real de que os luminosos discursos de campanha sobre a mudança sistémica e geracional mascararam a mentalidade servil de um homem que ansiava desesperadamente por ser abraçado pelas elites políticas e financeiras da nação. Em vez de se encontrar com as vítimas dos predadores de Wall Street ou com os seus advogados, como Elizabeth Warren e Ralph Nader, Obama preferiu ir apertar a mão aos cérebros de Goldman Sachs e tagarelar com a creme de la creme dos lobistas ao serviço das multinacionais da K Street. Por fim, Obama ajudou a salvar algumas das empresas mais venais e corruptas em Wall Street, aceitando proteger os seus executivos de topo por acusação de crimes financeiros e, possivelmente, mais tarde terá sido compensado com desprezo.

Assim, a revolução de Obama terminou antes de começar, balizada sempre pelo desejo arrogante do político se querer mostrar aos grandes do Establishment. A partir daí, outras promessas, desde o desejo de enfrentar as mudanças climáticas ao encerramento de Guantánamo, desde o desejo de acabar com a tortura ao desejo de querer iniciar um sistema de saúde nacionalizado, todas elas se mostraram ainda mais fáceis de não serem cumpridas.

Peguemos no tema que alimentou toda a sua campanha: o fim da guerra no Iraque. Poucas semanas depois de tomar posse, Obama foi levado ao Iraque e ao Afeganistão, pela mão de Robert Gates e do general David Petreaus e tinha regressado à Casa Branca ferido e humilhado. A retirada prosseguiria lentamente, mas uma força sinistra ficaria por trás indefinidamente, um contingente mortífero de cerca de 50.000 agentes da CIA, de unidades de forças especiais, esquadrões de caçadores assassinos e mercenários implacáveis ao serviço de empresas privadas. A guerra aberta de Bush tornou-se silenciosamente numa operação clandestina sob Obama. Fora de vista, fora do pensamento.

Até ao Outono de 2009, mesmo os mais insensíveis de Washington estavam a ficar cansados com o facto de que a ocupação americana no Afeganistão se ter enredado completamente. Os ritmos e os sons selvagens da guerra tinham saído pela culatra. Muitas promessas quebradas, muitos casamentos foram bombardeados, muitos assassinatos foram realizados, muitas crianças foram mortas ou mutiladas, muita covardia e corrupção nas satrapias fantoches em Cabul. A maré tinha-se virado irrevogavelmente contra os EUA e as suas políticas esquálidas. Longe de serem finalmente neutralizados, os Talibãs estão agora mais fortes do que em qualquer outro momento desde 2001. Mas, em vez de capitalizar essa mudança tectônica de sentimentos no que se refere a este falhanço das tropas americanas, Obama, num estratagema cínico para provar a sua posição militarista, viajou Para West Point e anunciou num discurso sombrio que ele estava a subir o nível de objetivos militares e políticos no Afeganistão pondo em prática uma série de propostas elaboradas pelo General Petreaus, como o aumento de forças no terreno para levar a cabo novas campanhas letais que permitiriam descobrir o rasto e visar alvo suspeitos de rebeldes através do Hindu Kush (cordilheiras na Ásia Central)  e no Paquistão.

Naquela noite, Obama falou com uma severa cadência, repleta de pausas imperiosas, como se sugerisse que ele, ao contrário do inconstante George W. Bush, ia continuar a guerra no Afeganistão até que a vencesse. Mas ele sabia melhor fazê-la. E assim a faziam os seus altos comandos – mesmo Stanley McChrystal e David Petreaus, que tinham concebido a estratégia de contra-insurreição dos rebeldes Sabia que não havia nada a ganhar no Afeganistão. Naquela distante zona do mundo, não havia sequer padrões para medir o sucesso militar. Isto significava ser uma guerra punitiva, pura e simples, destinada a extrair o máximo de sangue possível, uma guerra obscena feita em grande parte por aviões teleguiados atacando indiscriminadamente e de modo assassino aldeias de camponeses

Depois, o movimento pacifista norte-americano não foi capaz de mostrar mais do que uma impotente indignação. Mas à medida que as guerras de Obama se espalharam do Afeganistão e do Iraque para o Paquistão e para o Iêmen, Somália e Líbia, com exclusão dos ativistas Trabalhadores Católicos e dos Quakers e ainda alguns Code Pinkers – as últimas trémulas luzes morais da nação – mesmo aqueles gritos de protesto ocos dos pacifistas dissipavam-se em murmúrios abafados e cheios de desilusão. Será que a esquerda americana se extinguiu como qualquer tipo de forte força política e tomou a presidência de Barack Obama como prova disso mesmo?

E o que dizer dos apoiantes encantados de Obama, aqueles jovens cruzados que o viram iluminado no fulgor sagrado da sua retórica etérea e se apegaram a ele durante a dura batalha de duas campanhas com uma devoção quase religiosa? O que se estaria a passar pelas suas cabeças quando a névoa finalmente se separou para revelar que Obama tinha andado a desenvolver vias astuciosas para levar a cabo as políticas da era Bush em tudo, desde a detenção indefinida de prisioneiros sem culpa formada na guerra contra o terrorismo aos assaltos[2] sobre os centros oficiais de distribuição de marijuana para fins médicos em estados americanos onde a distribuição médica tinha sido legalizada? O que, sem dúvida.

As ilusões são difíceis de desaparecerem, especialmente quando são destruídas por mísseis de cruzeiro.

This essay is adapted from Hopeless: Barack Obama and the Politics of Illusion.

 

 JEFFREY ST. CLAIR, Counterpunch, The President Who Wasn’t There: Barack Obama’s Legacy of Impotence, disponível em:

http://www.counterpunch.org/2017/01/13/the-president-who-wasnt-there-barack-obamas-legacy-of-impotence/

________

[1] N.T. Segundo wikipédia: The Native American Party, renamed the American Party in 1855 and commonly known as the Know Nothing movement, was an American political party that operated nationally in the mid-1850s

[2] N.T. Raides feitos pelos polícias da Drug Enforcement Agency

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