
Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

Paul Craig Roberts, Where Is The Left-Wing When A Country Needs One?
IPE- Institute for Political Economy, 17 de Janeiro de 2017

Eu estava prestes a escrever uma recensão desenvolvida e favorável ao livro de Greg Palast, Billionaires & Ballot Bandits, quando um amigo me enviou um pedido para “participar” via Facebook num debate sobre a transmissão em direto do documentário de Palast expondo “exatamente como é que Trump e os seus acólitos atacaram o direito de voto de um milhão de minoritários eleitores para assaltar a Casa Branca. “
Vejamos então. Trump ganhou a presidência por ter obtido os votos de 84% da área geográfica da América, perdendo apenas o voto liberal dos negros, hispânicos, e brancos; no entanto, ele terá retirado o direito de voto a cerca de um milhão de negros. Estes negros não vivem debaixo das pontes na América. Eles vivem nos 500 municípios que foram ganhos por Hillary Clinton e nos 2.600 municípios que foram ganhos por Trump.
Veja aqui o mapa. Este conta-nos a história: http://brilliantmaps.com/2016-county-election-map/
Estou desapontado com Palast, um bom jornalista de investigação, mas compreendo a sua frustração.
Palast, apesar das suas virtudes, comete o erro de muitos dos que estão no centro-esquerda do espetro político. Eles são obrigados a odiar “os conservadores” , ou seja qualquer pessoa identificada como o sendo, justificadamente ou não. A única coisa no livro de Palast sobre a supressão dos eleitores com a qual eu discordo é a sua gratuita e inexplicável designação de Pat Buchanan como “um fanático cabeça de alfinete.”
Como é que podemos nós exatamente entender o mal-entendido de Palast sobre Pat Buchanan? Buchanan colocou a sua sólida carreira com os republicanos em linha quando se posicionou contra eles e contra a deslocalização de empregos feita pelas grandes empresas globais, as grandes multinacionais. Buchanan trabalhou como um candidato em luta constante na defesa dos empregos da classe trabalhadora norte-americana, fossem eles pretos ou brancos. Não há dúvida nenhuma que Buchanan teve razão quando disse que os chamados “acordos de livre troca” foram projetados para deslocalizar empregos norte-americanos para o exterior e para desmantelar as escadas de mobilidade ascendente que fizeram dos EUA uma sociedade de oportunidades. Buchanan tinha totalmente razão. A globalização é um dispositivo para o enriquecimento dos um por cento dos mais ricos e do empobrecimento dos outros. Não é preciso dizer mais nada sobre a globalização.
Poucos têm lutado tanto na defesa dos empregos da classe trabalhadora como Pat Buchanan e eu próprio. No entanto, algumas pessoas do centro-esquerda chamam-nos “fascistas reaganianos.” Isso deve-nos fazer pensar quem é que o centro-esquerda anda a defender. As empresas globais?
Agora temos Donald Trump a procurar recuperar os empregos dos americanos da classe média, pondo-se ao lado destes na luta de classes que contra eles é movida pelos republicanos e pelos oligarcas democratas, e Greg Palast escreve agora que Trump roubou a eleição! Para quem, de quem, Greg?
Obviamente, Trump roubou a eleição à CIA, ao complexo militar e da Segurança assim como a roubou também às empresas offshore globais que inventaram a Parceria Transpacífico e a parceira Transatlântico que tornam as empresas multinacionais americanas imunes às leis dos países soberanos com quem transacionam. Se a eleição foi roubada, o que não foi, e isso é verdade, é roubada a favor de Hilary Clinton, apesar dos melhores esforços do Establishment no poder para o conseguirem, diabolizando Trump, esta foi roubada, isso sim, à CIA e aqueles que estão a arruinar as perspetivas econômicas dos americanos.
Finalmente, temos um presidente independente da oligarquia dominante, e Palast junta‑se à CIA e ao Establishment no poder no seu esforço de afundar seis Donald Trump se os houvesse.
É dececionante ver uma multidão de gente de centro-esquerda comportando-se como se sejam fiéis servidores da elite dominante.
Se alguma vez um país precisou de uma verdadeira esquerda, seria seguramente os EUA agora.
Mas não há nenhuma verdadeira esquerda. As causas da esquerda reduziram-se a pouco mais que os direitos dos transexuais, dos homossexuais, das lésbicas, das feministas, dos direitos dos imigrante ilegais e à perseguição de homem branco heterossexual que se oponha a estes direitos. Como Jeffrey St. Clair questionava há dias, o que é que se passa com a classe trabalhadora?
A esquerda diaboliza e deslegitima. Mesmo a Constituição e a Declaração da Independência têm sido transformadas em documentos de supremacia branca. Thomas Jefferson, que viveu num tempo em que a força de trabalho era composta de escravos, representava o povo contra os interesses. No entanto, a esquerda deslegitima-o como “um detentor de escravos e um violador em série (a slave owning serial rapist)”
Donald Trump representa os povos contra os interesses das deslocalizações e do complexo militar e da segurança. Poder-se-ia pensar que a esquerda apoiaria um presidente tão fortemente oposto à CIA, mas, não, Trump é deslegitimado como um racista eleito por um eleitorado racista. A marca do ódio oprime o senso comum. São todos racistas exceto os negros, hispânicos, nativos americanos [os ameríndios], os ilegais e a esquerda.
Mas este comportamento político não é um programa que junte as pessoas e conduza o país às reformas necessárias.
Não é improvável que Trump venha a ser uma outra deceção. Mesmo que ele seja sincero, os grupos de interesses organizados são mais poderosos do que o presidente. Como Nomi Prins mostrou, bastam até mesmo só os banqueiros para controlarem a Casa Branca. Como Robert F. Kennedy revela nas suas memórias sobre a crise dos mísseis cubanos, um presidente mais fraco do que o presidente John F. Kennedy teria seria forçado pelo complexo militar / segurança a caminhar para a guerra com a União Soviética. Será que o mundo ainda existiria se homens como Bill Clinton, George W. Bush ou Obama tivessem estado no lugar de JFK?
A maneira mais fácil para um presidente “liderar” é acomodar-se às agendas dos poderosos grupos de interesses. É isso que a esquerda quer que Trump faça? Se não é isso, porque é que a esquerda continua a ajudar os grupos de interesses para forçarem Trump a este papel?
