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MIL E UMA NOITES DE TRINCHEIRA*. Por ANDRÉ BRUN

(1881 - 1926)

1881 - 1926
1881 – 1926

III

Para o museu, para o comando de batalhão, a noite é também o problema. O dia é a papelada, é a interminável perseguição dos mosquitos das recocas: a nota, a relação, o relatório; é todo o bicho-careta de pena atrás da orelha a exigir-nos que justifiquemos a sua existência. A noite é o possível ataque, é o contínuo repique das espingardas automáticas, é a perpétua inquietação. Quatro morteiros que rebentam podem ser o prelúdio da barragem de um raid, qualquer vibrar de metais parece o som das sinetas de alarme de gás. E ali, no abrigo-mess, enquanto o oficial inglês, fumando o seu cachimbo, lê uma ilustração, enquanto o ajudante, abrindo a correspondência de da noite, presta um ouvido distraído a uma história que o artilhas de ligação lhe conta, enquanto o sinalefas vai e vem ao posto de sinais próximo verificar se todas as linhas funcionam, se todos os S. O. S. respondem, pesa sobre todos nós a ansiedade da espera. De quando em quando, um sinaleiro levanta a manta impregnada de líquido anti-gás que nos serve de porta e traz-nos um telegrama nos termos do código: “Vinte e sete!” Vinte e sete quer dizer que se nota algum movimento na linha inimiga. Responde-se “Trinta e nove”, isto é: “Lance patrulhas de escuta”. Enviam-se estafetas prevenir os nossos morteiros e as nossas machine-guns, e o oficial de artilharia manda pôr de atalaia os vigias das baterias.

Que dará esta noite? Outro telegrama: um ferido na segunda linha, algum pobre diabo apanhado pelo fogo indirecto das metralhadoras pesadas. Uma companhia queixa-se de que a ração de aguardente é insuficiente, outra anuncia que o material requisitado ainda não chegou. As horas passam, as velas vão-se substituindo nos castiçais improvisados com o fundo das latas de conserva. A nossa artilharia torna-se de súbito activa. Será um S. O. S. dum sector ao lado? É um frete executado pelo grupo da direita ou da esquerda, um cruzamento de estradas que se bate em represália do mal que D. Berta nos fez na véspera. As horas passam. Uma patrulha nossa da direita recolheu sem novidade. Na nossa esquerda, uma patrulha boche foi escorraçada pelas Lewis. A madrugada, uma madrugada baça e triste vem apontando. Já há quem durma, encostado à mesa sobre os braços cruzados. O dia nasce finalmente, e todos se vão deitar. Mais uma noite, das mil e uma que temos que aqui passar, caiu hora a hora do grande esquecimento.

*IN A MALTA DAS TRINCHEIRAS, MIGALHAS DA GRANDE GUERRA, 1917 – 1918.
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