A MARCHA DOS GOSMAS*. POR ANDRÉ BRUN

1881 - 1926
1881 – 1926

 

Ao capitão médico Bossa da Veiga,

grande soldado do 23

 

III

 

Durou cinco dias esta marcha. Acabámos por passar cerca da primeira aldeia onde o batalhão acantonara na sua chegada a França[i]. Vimos ao longe as altas chaminés das minas e voltámos a pisar a região da planície interminável, dos drenos verdes e lodosos. Íamo-nos chegando à fornalha. De noite já se via todo o horizonte em brasa e já se percebia o rumor dos monstros vomitando metralha.

Estamos na testa de todas as unidades. Trazemos avanço sobre todas, e nunca requisitámos um camion para as mochilas, e não ficou um só gosma para trás. Há um estafeta que traz o pé torcido, inchado como um trambolho, e que recusa ser evacuado para o hospital. Volta-se para mim o pobre 100, que eu conheci com uma cara de Páscoa florida e anda agora magro como um cão vadio, e diz-me: ― «Quero ir para onde for o meu comandante.» E lá anda ou de carro ou amparado a um cacete, ou ainda, nas descidas, cavalgando de pernas esticadas a bicicleta dum ciclista.

Em cada paragem, em cada estacionamento, mais me comove esta malta, resignada, amiga, a quem basta amparar com uma palavra para que o seu brio se estimule e dê uma arrancada ainda. Cada marco quilométrico que deixamos ficar para trás é saudado com alegria. É mais um. É também menos um que falta para chegar seja onde for, onde se possa atirar para longe aquela cruz que martiriza os ombros, a cabra maldita, a tralha que os demos levem.

Chega por fim a última marcha. Dentro em pouco teremos de parar, que o boche está ali perto. Um palmípede inglês, gordo, que fuma por uma comprida boquilha de osso, vem dar-me indicação do nosso destino. Vamos acampar num bosque[ii]. Pergunto-lhe que notícias há. Ele substitui o seu King’s One por outro e encolhe os ombros, estende os beiços e responde-me apenas:

Il fô faire des tranchées, tout de suite.

Fizemos alto para comer o rancho da tarde à beira de uma estrada[iii] que leva a uma cidade muito nossa conhecida; e mal a última pinga de caldo está escorrida…

― Vamos, rapazes, é a última…

Uma hora depois após cinco dias de marcha, os pobres gosmas viam o bosque que o Staff-Corps inglês nos tinha destinado. Era um pântano e dormimos todos de pé, encostados às árvores, os pés apoiados sobre toros de madeira, enquanto a artilharia mais próxima ainda enchia de estridor aquela noite miserável. No dia seguinte o batalhão ia cavar durante oito horas, a sete quilómetros dali.

 *IN A MALTA DAS TRINCHEIRAS, MIGALHAS DA GRANDE GUERRA, 1917 – 1918.

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[i] Enquin-les-Mines

[ii] O bosque de la Goulée, cerca de Norrent Fontes

[iii] A estrada de Santo Hilaire ao Aire.

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