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EDITORIAL: GUERRA, PAZ E POLÍTICA

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Foi um militar prussiano, Carl von Clausewitz, quem disse que a guerra é a continuação da política por outros meios. Participou em muitas batalhas, com sorte diversa, e foi um  estudioso notável. Combateu contra Napoleão em várias guerras, pela Prússia  e pela Rússia, e trabalhou na reorganização do exército do seu país. Enfim, sabia do que falava. Hoje em dia, o que se vai passando pelo mundo, faz-nos pensar na sua famosa frase.

Tem sido referido como aquilo que se tem designado genericamente por Wikileaks afectou a credibilidade das potências ocidentais, dos EUA em primeiro lugar. Fundamentalmente por que deu um contributo muito importante para desmascarar um elemento fundamental da sua propaganda: a ideia da sua superioridade moral sobre os outros países do mundo. Essa ideia ajuda a compreender a história dos últimos séculos, desde que começou a expansão dos países europeus, a portuguesa à cabeça. E talvez ainda mais a história desde a Segunda Guerra Mundial até aos dias de hoje. O Wikileaks, nas suas várias fases, tem ajudado muita gente a compreender como essa ideia é falsa. Os líderes das potências têm tentado desacreditar os promotores das revelações, directamente ou por interpostas pessoas, mas com pouco sucesso. A maioria das pessoas compreendeu que pouco interessa discutir se Julian Assange, Bradley Manning ou Edward Snowden são bons ou maus, loucos ou sãos. A dimensão dos factos revelados é que conta, e põe a nu as ambições das oligarquias que controlam as potências afectadas. Ficou à vista o controle espantoso que detêm sobre as nossas vidas, e tem todo o sentido a grande dúvida: quem são, o que querem?

Nos últimos dias, voltou a agravar-se a situação na Síria. Logo a seguir aos terríveis acontecimentos no Egipto, vem o episódio do gás sarin em Damasco, ou muito perto. A compaixão pelos mortos, a solidariedade necessária para com os vivos requerem que se olhe muito a sério para este assunto. Obama, Cameron, Hollande, amanhã provavelmente Merkel, quando tiver as suas eleições despachadas, ameaçam, e agitam a ameaça da intervenção militar. Puxam pela superioridade moral, invocam os civis mortos num ataque que têm à partida como provado que foi lançado por Assad, o inimigo que querem abater. Os horrores que se vão repetindo no Iraque, no Afeganistão, no Iémene, noutros países,  são assim varridos para debaixo do tapete. Tenta-se que fique apenas à vista da opinião pública a chacina de Damasco. É uma moral dupla, que serve para mascarar os objectivos de expansão e domínio. Nós vamos lá porque somos melhores, é a mensagem que se pretende fazer passar. Já servia como justificação nos tempos da Guerra dos Boxers e da Conferência de Berlim.

A situação na Síria é gravíssima. Uma intervenção militar em grande escala só iria agravar o sofrimento do povo. Os líderes ocidentais estão obviamente a pesar a hipótese da intervenção, incitados pelo caos que reina no Egipto, e pela fraqueza de Assad, muito desgastado pelos anos de guerra. Nem quererão aguardar pelos resultados de uma investigação aos factos, que poderá não chegar aos resultados que lhes convêm. Só a oposição da Rússia, possivelmente também do Irão e da China, os fará hesitar. Mas o descrédito em que estão a cair nos seus países também os poderá incitar a repetir a atitude de Margaret Thatcher e dos generais argentinos em 1982, quando se meteram na guerra das Malvinas/Falkland. Travar uma guerra no estrangeiro para ganhar a paz em casa. Onde acaba uma e começa a outra?

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