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CELEBRANDO NATÁLIA CORREIA (4) – por Álvaro José Correia

A DEFESA DO POETA

Poema de Natália Correia (in “A Mosca Iluminada”, Lisboa: Quadrante, 1972; “O Sol nas Noites e o Luar nos Dias I”, Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – págs. 443-444; “Poesia Completa”, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2001 – págs. 330-331) Recitado pela autora* (in LP “Amália/Vinicius”, Decca/VC, 1970, reed. EMI-VC, 1988, Valentim de Carvalho/Iplay, 2008)

Senhores jurados sou um poeta

um multipétalo uivo um defeito

e ando com uma camisa de vento

ao contrário do esqueleto.

Sou um vestíbulo do impossível um lápis

de armazenado espanto e por fim

com a paciência dos versos

espero viver dentro de mim.

Sou em código o azul de todos

(curtido coiro de cicatrizes)

uma avaria cantante

na maquineta dos felizes.

Senhores banqueiros sois a cidade

o vosso enfarte serei

não há cidade sem o parque

do sono que vos roubei.

Senhores professores que pusestes

a prémio minha rara edição

de raptar-me em crianças que salvo

do incêndio da vossa lição.

Senhores tiranos que do baralho

de em pó volverdes sois os reis

sou um poeta jogo-me aos dados

ganho as paisagens que não vereis.

Senhores heróis até aos dentes

puro exercício de ninguém

minha cobardia é esperar-vos

umas estrofes mais além.

Senhores três quatro cinco e sete

que medo vos pôs por ordem?

que pavor fechou o leque

da vossa diferença enquanto homem?

Senhores juízes que não molhais

a pena na tinta da natureza

não apedrejeis meu pássaro

sem que ele cante minha defesa.

Sou um instantâneo das coisas

apanhadas em delito de perdão

a raiz quadrada da flor

que espalmais em apertos de mão.

Sou uma impudência a mesa posta

de um verso onde o possa escrever.

Ó subalimentados do sonho!

a poesia é para comer.

Nota da autora: «Compus este poema para me defender no Tribunal Plenário de tenebrosa memória, o que não fiz a pedido do meu advogado, que sensatamente me advertiu de que essa minha insólita leitura no decorrer do julgamento comprometeria a defesa, agravando a sentença.» (in “O Sol nas Noites e o Luar nos Dias I”, Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – pág. 443; “Poesia Completa”, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – pág. 330) * Gravado em casa de Amália Rodrigues, na Rua de São Bento, Lisboa, a 19 de Dezembro de 1968 Gravação e mistura – Hugo Ribeiro

Uma Só Voz de Inumeráveis Bocas?

Poema: Natália Correia (de “Inéditos 1985/90”, in “O Sol nas Noites e o Luar nos Dias II”, Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – pág. 303; “Poesia Completa”, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – pág. 555) Música: António Afonso Arranjo: José Moz Carrapa Intérprete: João Afonso* com António Afonso (in CD “Zanzibar”, Universal, 2002)

De Eva a mulher astronauta

vivo todas as idades,

um fausto de lua lauta

no brilho das brevidades.

Canta-me um louco na pauta,

demónios e divindades

compartilham essa flauta

das minhas variedades.

Ó universo inventado

de noutros me perceber.

Tanto tempo utilizado

numa manhã por nascer!

Sujeitos a estranhas leis

com a sua loucura a sós

solitários como os reis

os poetas dizem: nós.

E pela mesma magia

que ainda ninguém entendeu,

no côncavo da poesia

um deus que falta diz: eu.

* António Afonso – voz Rui Alves – percussão de dedos António Pedro – percussões João Frazão – baixo João Afonso – vozes José Moz Carrapa – guitarras, bicicleta Pré-produção – José Moz Carrapa e António Afonso Produção – José Moz Carrapa Produção executiva – Paulo Salgado / Vachier & Associados Gravado por Jorge Avillez, na Verdizela – Seixal (assistido por Nuno Rebocho) e Sassoeiros – Caascais, entre Junho e Agosto de 2001 Misturado por Jorge Avillez e José Moz Carrapa, em Portalegre Pós-produção – estúdio MDL, Paço d’Arcos Masterizado por António Pinheiro da Silva, nos Estúdios Tcha Tcha Tcha, Miraflores

E eu sem amor…

Poemas: Natália Correia (“Já luzem as galas” e excerto de “Mocinhas gráceis, fungíveis”) [textos integrais >> abaixo] Música: Afonso Dias Intérprete: Afonso Dias* com Tânia Silva (in CD “13”, Bons Ofícios – Associação Cultural, 2010)

Já luzem as galas

Do Maio florido.

Iria à bailada

Mas não tenho amigo.

Vêm as andorinhas

No tempo da flor.

Bailam as meninas.

E eu sem amor…

Por galas luzidas

Do florido Maio,

Louçã bailaria

Mas não tenho amado.

Voam as andorinhas

À volta da flor.

Folgam as meninas.

E eu sem amor…

Já murcham as galas

Do Maio florido.

Perdi a bailada

Por não ter amigo.

Vão-se as andorinhas,

Cai do tempo a flor.

Guardam-na as meninas.

E eu sem amor…

Galas já sumidas

Do florido Maio

Porque dás bailias

Se negais amado?

Fogem as andorinhas

Do tempo sem flor.

Sonham as meninas.

E eu sem amor…

Mocinhas gráceis, fungíveis

Mimosas de carne aérea

Que pela erecção dos centauros

Passais como doida hera!

Por ardentes urdiduras

De Afrodite que abonais

Passais como queimaduras

E tudo em fogo deixais.

Já luzem as galas

Do Maio florido.

Iria à bailada

Mas não tenho amigo.

Voam as andorinhas

No tempo da flor.

Bailam as meninas.

E eu sem amor…

[instrumental] *

[Créditos gerais do disco:] Adriano St. Aubyn – piano, percussões, calções, coros Afonso Dias – guitarras, calças de ganga, kazoo, coros e mais umas coisas Ana Marques – coros Tânia Silva – voz solista (em “E eu sem amor”) Tó Correia – contrabaixo e coros Virgolino Zacarias “Ben” – saxofone soprano Paula St. Aubyn – coros Arranjos e direcção musical – Adriano St. Aubyn Gravado em Faro, entre Maio e Setembro de 2010 Captação e masterização – Adriano St. Aubyn Misturas – Adriano St. Aubyn e Afonso Dias

Já luzem as galas (Natália Correia, poema III de “Cantigas de Amigo”, in “O Sol nas Noites e o Luar nos Dias II”, Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – págs. 403-404; “Poesia Completa”, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – págs. 621-622)

Já luzem as galas

Do Maio florido.

Iria à bailada

Mas não tenho amigo.

Vêm as andorinhas

No tempo da flor.

Bailam as meninas.

E eu sem amor…

Por galas luzidas

Do florido Maio,

Louçã bailaria

Mas não tenho amado.

Voam as andorinhas

À volta da flor.

Folgam as meninas.

E eu sem amor…

Já murcham as galas

Do Maio florido.

Perdi a bailada

Por não ter amigo.

Vão-se as andorinhas,

Cai do tempo a flor.

Guardam-na as meninas.

E eu sem amor…

Galas já sumidas

Do florido Maio

Porque dás bailias

Se negais amado?

Fogem as andorinhas

Do tempo sem flor.

Sonham as meninas.

E eu sem amor…

Mocinhas gráceis, fungíveis

(Natália Correia, poema V de “Sete Motivos do Corpo”, in “Armistício”, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1985; “O Sol nas Noites e o Luar nos Dias II”, Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – págs. 248-250; “Poesia Completa”, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – págs. 519-521)

Mocinhas gráceis, fungíveis

Mimosas de carne aérea

Que pela erecção dos centauros

Trepais como doida hera!

Por ardentes urdiduras

De Afrodite que abonais

Passais como queimaduras

E tudo em fogo deixais.

Ofegar de onda retida

Na ocupação epidérmica

De serdes a exactidão

Florida da primavera,

Todas de luz invadidas,

Sois, porém, as irreais

Bonecas de sol sumidas

No fulgor com que alumbrais.

Lá do fundo dos desejos

Chegais macias e quentes

Com violas nos cabelos,

Nas ancas, quartos crescentes;

Nas pernas, esguios confeitos,

Na frescura, o vermelhão

De uma alvorada que rompe

Em seios de requeijão.

Enleais, mas se enleadas,

Ó volúveis, ó felinas!

Saltais fazendo tinir

Risadas de turmalinas;

E com as asas do segredo

Que vos faz misteriosas —

Pois sendo divinas, sois

Do breve povo das rosas —,

Adejais de beijo em beijo

Já que para gerar assombros

Vicejam as folhas verdes

Que vos farfalham nos ombros.

Ó doçaria que em línguas

Acres sois torrões de mel,

Quando idoneamente ninfas

Vos vestis da vossa pele!

Se a olhares venéreos furtar-vos

Em roupas não vale a pena,

Pois mesmo vestidas estais

Nuinhas de graça plena,

De esbelta nudez plantai

Róseos calcanhares nos dias

Fugazes, não vá Vulcano

Levar-vos para sombras frias;

Não sequem os anos corpinhos

De aragem que os deuses sopram,

Que os anos são os malignos

Sinos que pela morte dobram.

Mocinhas fúteis que sois

Da vida as espumas altas

Leves de não vos pesar

O peso de terdes almas;

Que essa força de encantar,

Ó belas! cria, não pensa.

Ser perdidamente corpo

É a vossa transcendência.

(Continua)

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