CELEBRANDO NATÁLIA CORREIA – 2 – por Álvaro José Ferreira

(Continuação)

Natália Correia [biografia e bibliografia >> aqui] é, indubitavelmente, uma das três maiores poetisas (ou mulheres poetas, se se preferir) do século XX portuguêsImagem1 (as outras duas são Florbela Espanca e Sophia). Tal evidência não foi, no entanto, suficiente para a direcção de programas da Antena 1 tomar a iniciativa de a homenagear no 90.º aniversário do seu nascimento que hoje se comemora. Tal podia (e devia) ser feito, sem prejuízo da emissão de um programa evocativo (produzido de propósito ou resgatado do arquivo histórico), com a transmissão ao longo do dia de poemas de Natália, cantados ou recitados. O difícil seria mesmo escolher pois é muito e bom o que existe em ambas as formas, gravado em disco, quer avulsamente quer em edições temáticas (destas referenciei quatro – vide as capas ao fundo – mas é provável que haja mais). A título demonstrativo, o blogue “A Nossa Rádio” apresenta uma mão-cheia desses nutritivos espécimes, pois como afirmava Natália «a poesia é para comer» e, ao contrário de Rui Pêgo, não somos «subalimentados do sonho» e gostamos que os visitantes deste sítio tenham a oportunidade de se alimentarem. A talhe de foice, uma interrogação: a ‘playlist’ que tem rodado na Antena 1 inclui alguma canção baseada em poema(s) de Natália Correia? Era capaz de apostar que nem uma…

AUTOGÉNESE

Poema de Natália Correia (de “O Diário de Cynthia”, in “O Vinho e a Lira”, Lisboa: Fernando Ribeiro de Mello, 1966; “O Sol nas Noites e o Luar nos Dias I”, Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – págs. 319-321; “Poesia Completa”, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – págs. 241-243) Recitado pela autora* (in EP “Natália Correia Diz Poemas de Sua Autoria”, col. A Voz e o Texto, Decca/VC, 1969; CD “A Defesa do Poeta”, EMI-VC, 2003

Nascitura estava sem faca nos dentes cómoda e impura de não ter vontade de bater nas gentes.
Nasce-se em setúbal nasce-se em pequim eu sou dos açores (relativamente naquilo que tenho de basalto e flores) mas não é assim: a gente só nasce quando somos nós que temos as dores;
pragas e castigos foram-me gerando por trás dos postigos e fórceps de raiva me arrancaram toda em sangue de mim.

Nascitura estava sorria e jantava e um beijo me deste tu Pedro ou Silvestre turvo namorado do verão ou de outono hibernal afecto casca azul do sono sem unhas do feto.
Eu nasci das balas eu cresci das setas que em prendas de sala me foram jogando os mulheres poetas eu nasci dos seios dores que me cresceram pomos do ciúme dos que os não morderam;
nasci de me verem sempre de soslaio de eu dizer em junho e eles em maio de ser como eles às vezes por fora mas nunca por dentro perfil de uma estátua que não sou de frente.

Nascitura estava e mais que imperfeita de ser sorte ou dado que qualquer mão deita.
Eu nasci de haver os bairros da lata do dedo que escapa dos sapatos rotos da fome que mata o que quer nascer e que o sábio guarda em frascos de abortos;
eu nasci de ver cheirar e ouvir dum odor a mortos (judeus enlatados para caberem mais mas desinfectados) pelas chaminés nazis a sair de te ver passar de me despedir de teus olhos tristes como se existisses.

Nascitura estava tom de rosa pulcra eu me declinava vésper em latim: impura de todos gostarem de mim.
* Gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d’Arcos Técnico de som – Hugo Ribeiro Masterização – Rui Dias, nos Estúdios Tcha Tcha Tcha, Miraflores

Manhã Cinzenta (À partida de S. Miguel)

Poema: Natália Correia (in “Portugal, Madeira e Açores”, Abril de 1946; “O Sol nas Noites e o Luar nos Dias I”, Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – pág. 11; “Poesia Completa”, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – pág. 38) Música: Carlos Alberto Moniz Intérprete: Carlos Alberto Moniz* (in CD “Herdeiros da Maresia”, Carlos Alberto Moniz, 2003)
Ai madrugada pálida e sombria em que deixei a terra de meus pais… e aquele adeus que a voz do mar trazia dum lenço branco, a acenar no cais…
O meu veleiro — era de espuma fria — levava-o o fervor dos vendavais. À passagem gritavam-me: onde vais? Mas só o meu veleiro respondia.
Cruzei o mar em direcções diferentes. Por quantas terras fui, por quantas gentes, nesta longa viagem que não finda.
Só uma estrada resta — mais nenhuma: na Ilha que o passado envolve em bruma, um lenço branco que me acena ainda…
* Carlos Alberto Moniz – voz Ricardo Dias – acordeão João Paulo Esteves da Silva – piano Davide Alfano – violoncelo Captação de som e direcção técnica – Mário Barreiros

OS NUMES DOS NOMES

Poema de Natália Correia (de “O Espírito É Tão Real Como Uma Árvore”, in “O Dilúvio e a Pomba”, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1979; “O Sol nas Noites e o Luar nos Dias II”, Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – págs. 156-157; “Poesia Completa”, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – pág. 459-460) Recitado por Tânia Silva* (in CD “Poesia de Natália Correia”, col. Selecta, Música XXI, 2007)

Não por acaso Natália me puseram: minha mãe que era fada lá sabia. Posta a graça ao afino do mistério para estar sempre a nascer é que eu nascia.
Da avó que era louca veio o Rego em conduta dos anjos que ela via. Desvairanças aladas bom emprego São, se herdadas em grão de poesia.
Pelo avô, do matagal de nomes, Sai-me o Raposo. Aqui ninguém me apanha. Inomeável três vezes é o Esposo, para fazer de solteira há que ter manha.
Também é fortuita a Oliveira De folhas de ouro no meu nome oclusa: a alma é paz de ideias à lareira que o pudor em mau génio não acusa.
E Medeiros, medeiros quantas medas de trigo sideral para que em signo apurada a espiga entre as estrelas Fecundo seja meu trigal de Virgo.
Vem por fim a justiça na Correia: perdoar vendilhões só a chicote. Absolva-os a Virgem que faz meia. Não eu. Adivinhai-me. Eu dei o mote.
* Organização, selecção e apresentação – Afonso Dias Captação de som, mistura e masterização – Adriano St. Aubyn

Cântico do País Emerso

Poema: Natália Correia (excerto) [texto integral >> abaixo] Música: Amélia Muge Arranjo: Michales Loukovikas Intérpretes: Amélia Muge* e Michales Loukovikas (in Livro/CD “Periplus: Deambulações Luso-Gregas”, Periplus (AM-ML) / Eter Music, 2012)
[instrumental]

Não sou daqui das praias da tristeza Do insone jardim dos glaciares Levai minha nudez minha beleza E colocai-a à sombra dos palmares.
Não sou daqui. A minha pátria não é esta Bússola quebrada dos impulsos. Sou rápida     Sou solta     talvez nuvem Nuvens minhas irmãs que me argolais os pulsos! Tomai os meus cabelos     Levai-os para a floresta.

É lá que o meu amigo pastor de estrelas pasce O marulho das folhas com pássaros nas vozes O sol adormecido nos braços da giesta A manhã rarefeita na corrida do alce O luar orbitado no salto da gazela Os animais velozes do sítio onde se nasce…

* Amélia Muge – voz Filipe Raposo – piano Harris Lambrakis – ney (flauta oriental) José Martins – percussão, sintetizador José Salgueiro – percussão Kyriakos Gouventas – violino Ricardo Parreira – guitarra portuguesa Kostas Theodorou – contrabaixo, percussão Direcção artística – Amélia Muge e Michales Loukovikas Produção – Amélia Muge, Michales Loukovikas e José Martins Gravado entre Maio e Dezembro de 2011 Estúdios: Tumbuktu (Lisboa), por André Fernandes e Nuno Costa; Aeolia (Atenas), por Thodorés Manolides; AJM (Sobreda) e Adufe Música (Valejas), por José Martins Gravações móveis em: Salónica, por Christos Megas; Guimarães, por José Martins Misturado em AJM (Sobreda), por José Martins e Michales Loukovikas, entre Julho e Dezembro de 2011 Masterizado por Tó Pinheiro da Silva, em Dezembro de 2011

(Continua)

Leave a Reply