EDITORIAL – NUNO CRATO E A BANALIZAÇÃO DA INSENSIBILIDADE
carlosloures
A tese da banalização do mal pertence a Hannah Arendt, uma judia alemã naturalizada norte-americana: uma mudança de paradigma, convertendo a anormalidade em coisa corrente, pode transformar homens normais em criminosos. Adolf Eichmann, situado a montante de uma extensa cadeia de responsabilidades, terá sido “vítima” dessa instauração do mal como moeda corrente. Para os nazis, os judeus eram um problema endémico da sociedade europeia e exterminá-los seria a solução desse problema. Ou seja, uma monstruosidade foi aceite como coisa normal. Noutra circunstância, Eichmann teria sido apenas um funcionário cumpridor.
No final da semana passada, Nuno Crato, ministro da Educação e Ciência, discursava numa sessão solene na Aula Magna do Politécnico de Viseu. O tema era a importância de “dotar os jovens, em todo o seu percurso de estudo, das ferramentas que lhes permitam ter uma capacidade e uma liberdade de escolha nos momentos decisivos”. Foi interrompido por uma professora que lhe recordou que “essas ferramentas têm nomes”, – Português, Matemática, Inglês, Física, História e Geografia,.. Nuno Crato, demonstrou fair play e acrescentou mais ferramentas: Música, Astronomia, Poesia, Pintura, Cinema.:. A professora desferiu uma pergunta retórica -“tem consciência do que está a fazer à educação. À saída, aos jornalistas, disse a professora: «Acho que ele queria uma escola melhor. Porque, um professor como ele foi, é impossível querer a morte da escola”, Quando lhe transmitiram esta opinião, Crato respondeu..“Estou a fazer aquilo que sempre pensei, aquilo que penso que é melhor para a educação».
Na realidade, no meio de uma trupe de arrivistas, de gente que procura colmatar com truques histriónicos, as falhas evidentes de uma política disparatada, no meio destes saltimbancos mentirosos, a competência serena que Nuno Crato tinha demonstrado ao longo da sua carreira docente, fazia prever um comportamento diferente. E a única atitude possível era não ter aceite integrar este executivo ou, tendo aceite por equívoco, a demissão.
Espezinhando a Constituição, roubando reformados e pensionistas, assumindo uma política de erro sistemático, este executivo, ao cabo de dois anos, banalizou a insensibilidade e promove um holocausto silencioso, pondo pessoas idosas a deixar de se medicar e a deixar de se alimentar – esta gente está a matar e é exasperante ver o ar de Passos Coelho, sorrindo e explicando com a pesporrência dos estúpidos o que é inexplicável. Banalizando a insensibilidade, Um dia será feita a história deste período e provavelmente o veredicto será o olvido – como se não tivessem existido. E no meio deste bando de, corruptos e mentirosos, irá um homem que parecia ser diferente e que noutras circunstâncias poderia ter sido útil ao seu país.
Hannah Arendt explicou como, banalizado o mal, os actos mais abjectos passam a ser considerados como coisa normal. No próximo dia 14 de Outubro, dia em que Arendt nasceu, homenageamo-la. Em breve forneceremos mais pormenores sobre esta homenagem.