Quando se aceitam como norma axiomas de uma monstruosa desumanidade, abrem-se as portas do Inferno e os atávicos fantasmas da animalidade, que milénios de civilização arredaram do convívio com os homens, regressam, enraivecidos por termos ousado aprisioná-los. Ao aceitar-se que há etnias, credos religiosos ou políticos, comportamentos sexuais, condenáveis e que só quem pensa e se comporta de acordo com as regras aprovadas tem direito à vida, tornámos normal a anormalidade – banalizámos o mal. A expressão “banalização do mal” é da autoria de Hannah Arendt na obra Eichmann in Jerusalem : A Report on the Banality of Evil, Nova Iorque, 1963, Arendt defende que uma mudança de paradigma, convertendo a anormalidade em coisa corrente, pode transformar homens em monstros. Um funcionário metódico que estava a montante de uma extensa cadeia de responsabilidades terá sido “vítima” da instauração do mal na Alemanha de Hitler. “Solução final”, Endlösung der Judenfrage, foi a designação criada para o plano de genocídio sistemático e Adolf Eichmann terá sido o criador de tal expressão.
Para os nazis, os judeus eram um problema endémico, exterminá-los seria a solução. Em Janeiro de 1942, num palacete situado a sudoeste de Berlim, foi tomada a decisão que levaria ao Holocausto. O objectivo era estudar o modo de erradicar os judeus da sociedade alemã. Os maiores horrores, ditos eufemísticamente, assumiam um ar de normalidade. Calculados os judeus em onze milhões, foram meticulosamente definidos meios de «eliminar a praga» – Sendo sujeitos a «tarefas e alimentação apropriadas» (trabalho escravo e subnutrição em campos de concentração), calculou-se que uma elevada percentagem seria eliminada por «causas naturais», O remanescente seria tratado de «forma adequada»- (câmaras de gás e fornos crematórios).
Terá então Eichmann inventado a expressão «solução final». Para seu azar, entre o pessoal que servia à mesa havia um judeu que fixou. Houve quem interviesse mais. Por exemplo o médico Josef Buhler terá insistido com Heydrich no sentido de levar a cabo a « solução final» como dissera, e muito bem, o camarada Eichmann. A questão judaica, tinha segundo Buhler de ser resolvida no curto-prazo. As actas de reunião foram encontradas. Lá estava o louvor a Eichmann por ter encontrado uma expressão feliz para extermínio – a «solução final» pôs a corda ao pescoço de Eichmann. Mas, além desta expressão «feliz», Eichmann foi quem tudo organizou como funcionário competente que era. A tese de Hannah diz-nos que teria levado a cabo com igual eficiência uma operação de salvamento de náufragos Talvez sim, mas em todo o caso, a execução de Eichmann foi mais do que justa..
O julgamento foi rodeado de grande mediatismo com enviados dos grandes jornais de todo o mundo. Hannah Arendt era a correspondente da revista The New Yorker e foi nessa qualidade que recolheu elementos para o seu livro, Eichmann foi acusado de crimes contra a Humanidade, e de pertencer a um grupo organizado com fins criminosos. Foi condenado e enforcado em 1962, nas proximidades de Telavive.
Arendt expendeu então a sua tese sobre a banalização do mal, dizendo ter sido «uma pura ausência de pensamento que lhe permitiu transformar-se num dos maiores criminosos da sua época. É banal e até mesmo cómico: nem com a melhor boa vontade se conseguiria descobrir em Eichmann a mais pequena profundidade diabólica ou demoníaca», diz Hannah Arendt na obra citada. Por «ausência de pensamento» quer ela significar, inexistência de sentido critico que leva as pessoas a aceitar como normais as maiores anormalidades. Não sei se no caso de Eichmann teria razão. De qualquer dos modos, perante a banalização do mal nem todos os seres humanos esquecem a sua humanidade. Por outro lado, Eichmann ajudou o mal a banalizar-se. Os verdugos podem ser compreendidos, mas nunca perdoados.
A violência extrema que em certo tipo de sociedades, como a islâmica, a discriminação da mulher atinge, é um exemplo de como seres humanos podem regredir no plano comportamental. E as culpas cabem à sociedade no seu conjunto e não exclusivamente dos homens. Muitas mães islâmicas exigem que as filhas sofram a excisão genital e estão de acordo com a repressão a que o Islão submete as mulheres. O inaceitável de um ponto de vista humano é aceite socialmente. O mal banaliza-se. Seres normais transformam-se em criminosos. São os monstros que habitam cada ser humano e que à primeira oportunidade surgem à luz do dia.
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Ouçamos “Nuit Et Brouillard” Composição e interpretação de Jean Ferrat -«Noite e nevoeiro» foi o nome de código que os nazis atribuíram à operação de envio de judeus para os campos de extermínio – pessoas que desapareciam na noite, na neblina, como se nunca tivessem existido. O pai de Jean Ferrat, Jean-Pierre, foi um dos milhões de judeus assassinados pelos alamães.
