João Cabral de Melo Neto – poema de Rachel Gutiérrez


ao meio-dia de luz,
de sal, Recife e Sevilha,
poeta branco,
te recebem
a louca luz
que é bailarina
que é labareda e espiga
vence a miséria
do agreste:
reflete no sal,
na pedra, teu rosto
feio e triste, rosto crestado
teu rosto duro
como a seca
do Nordeste
como seco é o teu poema
porém…
tuas palavras são só música
e só delas suportaste
ritmos e sons
– beleza dura
de uma nova arquitetura
em chão de barro
a lâmina do teu verso
– angústia e enxaqueca
mais a cegueira –
corta a redondilha
e a faz de pedra
pedra de sonho
reencontrado, branco,
ao meio-dia
no papel.
Ilustração: Reprodução de quadro de Dorindo Carvalho