UM DIA DAS BRUXAS ESPECIAL, O DA “GUERRA DOS MUNDOS” por clara castilho
clara castilho
Foi há 75 anos que uma “partida” de Orson Welles pôs os habitantes dos EUA em polvorosa. Orson Welles tinha 23 anos, tinha desafiado a sociedade com uma peça de teatro em Harlem (vudu de Macbeth), era famoso na rádio. E no dia 30 de Outubro, na rádio, fez uma emissão que levou os ouvintes a acreditar que estavam a ser invadida por marcianos.
Quando estudei psicologia das multidões, li “O mal-estar da civilização”de Freud e “A Psicologia de Massas” de Gustave Le Bon, entre outros e também me apareceu referido este episódio. Hoje interesso-me também pela análise da importância dos meios de comunicação e da sua influência na vida social. Se na altura era a rádio, agora, ainda mais força, temos a televisão e a internet.
Mas antes, ainda adolescente lera A Guerra dos Mundos de H.G. Wells, naquelas longas férias de verão em que o tempo nunca mais passava e dava para ler tudo o que aparecesse à frente. Felizmente tinha muito por onde escolher.
Disse então Orson Welles: “A rádio, naqueles dias, antes dos transístores, não era apenas um ruído no bolso de alguém, era a voz da autoridade. Até de mais. Pelo menos, eu pensava que sim.”
Mas voltemos aos anos trinta, ao Mercury Theatre, a partir do qual eram gravados alguns programas, como os que havia na época, histórias em capítulos, peças de teatro de escritores famosos (Charles Dickens, Alexandre Dumas, Chesterton). Quando surgiu a ideia de avançar para uma temática mais inovadora, com terror à mistura (não esquecer a importância que os americanos dão ao Halloween) fizeram-nos num formato em que aos leitores pareciam ser noticiários, com pessoas a comentar as notícias, jornalistas na rua…. E para tema, a invasão pelos marcianos. Por serem honestos, e depois não responsabilizados, iam avisando que aquilo tudo se tratava apensas de uma encenação. Informação que não era ouvida, nem retida.
Vejamos um diálogo de um dos actores: “Meu Deus, algo se revolve na sombra como uma cobra cinzenta, Agora vem aí outro e mais outro. Parecem tentáculos. Agora consigo vislumbrar o corpo da coisa. É grande como um urso e brilha como cabedal molhado. Mas aquele rosto… é indescritível. Não sei como consigo olhar para aquilo. Os olhos são negros e brilham como os de uma serpente. A boca tem um formato de “v”, com saliva a escorrer de uns lábios que parecem tremer e pulsar.” Cerca de seis milhões de pessoas terão ouvido esta emissão.
E que aconteceu? O pânico, com pessoas a esconderem-se, a pegarem em armas, os da cidade a correram para o campo e vice-versa. Alguns depoimentos:
JOSEPH HENDLEY: “…Caímos de joelhos e toda a família rezou…; MRS. JOSLIN: “…Quando o locutor disse – Abandonem a cidade! – …agarrei o meu filho nos braços, e precipitei-me, pela escada abaixo…”; MRS. DELANEY: “…Segurava um crucifixo e olhava pela janela, à espera de ver cair meteoros…”
Houve quem se aleijasse… até a polícia aparecer no estúdio onde, nessa altura Orson Wells leu aos microfones:
. “Fala-vos Orson Welles, senhoras e senhores, para vos assegurar que A Guerra dos Mundos não tem qualquer significado, a não ser o entretenimento que presidiu à sua criação. É a forma do Mercury Theatre se vestir com um lençol e saltar de um arbusto, a dizer ‘boo!’ Não podíamos pôr sabão nas vossas janelas e roubar os portões dos vossos jardins, até amanhã à noite… por isso, fizemos a segunda melhor coisa de que nos lembrámos: aniquilámos o mundo aos vossos ouvidos e destruímos literalmente a CBS. Mas ficarão descansados, espero, ao saber que eu estava a brincar e que ambas as instituições ainda estão perfeitamente activas… por isso, adeus a todos, e lembrem-se, por favor, durante um dia ou dois, da terrível lição que aprenderam esta noite. Aquele invasor brilhante, sorridente e globular que invadiu a vossa sala, não passa de um habitante de uma abóbora. E se a vossa campainha tocar e não estiver lá ninguém, não era nenhum marciano… lembrem-se, é Dia das Bruxas.”
Três anos mais tarde, Wells realizará o célebre filme Citizen Kane, onde aborda uma personagem influente dos media. Sabia bem voltar a ver o filme. E já agora o Processo e Falstaff…