E, com um post diferente dos que habitualmente publicamos para assinalar os dias de aniversário de gente famosa, homenagemos o grande Orson Welles. Faria hoje cem anos. Desta vez, fomos ao arquivo e reunimos trabalhos de três argonautas sobre o genial homem de cinema. Uma homenagem merecida.
Começamos com Eduardo Gageiro que, nos seus RETRATOS COM HISTÓRIAS nos mostra ORSON WELLES no Guincho
Sobre Orson Welles, comenta Eduardo Gageiro:
“Era quase impossível de fotografar. Consegui duas fotografias no Guincho”.
Clara Castilho conta-nos como Orson Welles pregou uma partida a milhões de norte-americanos
UM DIA DAS BRUXAS ESPECIAL, O DA “GUERRA DOS MUNDOS” por Clara Castilho
Foi há 75 anos que uma “partida” de Orson Welles pôs os habitantes dos EUA em polvorosa. Orson Welles tinha 23 anos, tinha desafiado a sociedade com uma peça de teatro em Harlem (vudu de Macbeth), era famoso na rádio. E no dia 30 de Outubro, na rádio, fez uma emissão que levou os ouvintes a acreditar que estavam a ser invadida por marcianos.
Quando estudei psicologia das multidões, li “O mal-estar da civilização”de Freud e “A Psicologia de Massas” de Gustave Le Bon, entre outros e também me apareceu referido este episódio. Hoje interesso-me também pela análise da importância dos meios de comunicação e da sua influência na vida social. Se na altura era a rádio, agora, ainda mais força, temos a televisão e a internet.
Mas antes, ainda adolescente lera A Guerra dos Mundos de H.G. Wells, naquelas longas férias de verão em que o tempo nunca mais passava e dava para ler tudo o que aparecesse à frente. Felizmente tinha muito por onde escolher.
Disse então Orson Welles: “A rádio, naqueles dias, antes dos transístores, não era apenas um ruído no bolso de alguém, era a voz da autoridade. Até de mais. Pelo menos, eu pensava que sim.”
Mas voltemos aos anos trinta, ao Mercury Theatre, a partir do qual eram gravados alguns programas, como os que havia na época, histórias em capítulos, peças de teatro de escritores famosos (Charles Dickens, Alexandre Dumas, Chesterton). Quando surgiu a ideia de avançar para uma temática mais inovadora, com terror à mistura (não esquecer a importância que os americanos dão ao Halloween) fizeram-nos num formato em que aos leitores pareciam ser noticiários, com pessoas a comentar as notícias, jornalistas na rua…. E para tema, a invasão pelos marcianos. Por serem honestos, e depois não responsabilizados, iam avisando que aquilo tudo se tratava apensas de uma encenação. Informação que não era ouvida, nem retida.
Vejamos um diálogo de um dos actores: “Meu Deus, algo se revolve na sombra como uma cobra cinzenta, Agora vem aí outro e mais outro. Parecem tentáculos. Agora consigo vislumbrar o corpo da coisa. É grande como um urso e brilha como cabedal molhado. Mas aquele rosto… é indescritível. Não sei como consigo olhar para aquilo. Os olhos são negros e brilham como os de uma serpente. A boca tem um formato de “v”, com saliva a escorrer de uns lábios que parecem tremer e pulsar.” Cerca de seis milhões de pessoas terão ouvido esta emissão.
E que aconteceu? O pânico, com pessoas a esconderem-se, a pegarem em armas, os da cidade a correram para o campo e vice-versa. Alguns depoimentos:
JOSEPH HENDLEY: “…Caímos de joelhos e toda a família rezou…; MRS. JOSLIN: “…Quando o locutor disse – Abandonem a cidade! – …agarrei o meu filho nos braços, e precipitei-me, pela escada abaixo…”; MRS. DELANEY: “…Segurava um crucifixo e olhava pela janela, à espera de ver cair meteoros…”
Houve quem se aleijasse… até a polícia aparecer no estúdio onde, nessa altura Orson Wells leu aos microfones:
. “Fala-vos Orson Welles, senhoras e senhores, para vos assegurar que A Guerra dos Mundos não tem qualquer significado, a não ser o entretenimento que presidiu à sua criação. É a forma do Mercury Theatre se vestir com um lençol e saltar de um arbusto, a dizer ‘boo!’ Não podíamos pôr sabão nas vossas janelas e roubar os portões dos vossos jardins, até amanhã à noite… por isso, fizemos a segunda melhor coisa de que nos lembrámos: aniquilámos o mundo aos vossos ouvidos e destruímos literalmente a CBS. Mas ficarão descansados, espero, ao saber que eu estava a brincar e que ambas as instituições ainda estão perfeitamente activas… por isso, adeus a todos, e lembrem-se, por favor, durante um dia ou dois, da terrível lição que aprenderam esta noite. Aquele invasor brilhante, sorridente e globular que invadiu a vossa sala, não passa de um habitante de uma abóbora. E se a vossa campainha tocar e não estiver lá ninguém, não era nenhum marciano… lembrem-se, é Dia das Bruxas.”
Três anos mais tarde, Wells realizará o célebre filme Citizen Kane, onde aborda uma personagem influente dos media. Sabia bem voltar a ver o filme. E já agora o Processo e Falstaff…
E finalmente
A LIÇÃO DE «CITIZEN KANE» – por Carlos Loures
/
Um tarde do «Verão Quente» de 1975 dei comigo na Avenida da Liberdade, no meio de uma multidão enfurecida que gritava o nome de um político antecedido da palavra «abaixo». Lembrei-me de quando, anos antes, eu e o dono do nome, ambos recém-casados, mostrávamos orgulhosamente num café, salvo erro na Riviera (da Caparica) retratos dos respectivos primeiros rebentos. uma filha, no meu caso. O nome que milhares de pessoas gritavam era o de um amigo que deixara de existir.
Frequentamos ambos a esplanada do Paulo China, em Vilamoura. Acenamos. Um polegar para cima. Ambos sabemos que não há espaço para conversas, vivemos em mundos não miscíveis. O Paulo China é a único ponto onde os nossos dois mundos se tocam.
Quem tenha visto com atenção O Mundo a Seus Pés, título português, prosaico e redutor, de Citizen Kane percebe tudo o que se passa no mundo da política: as lutas pelo poder, o vício de ser poderoso, as desonestidades, a corrupção,. Está tudo ali. Poupa-se o dinheiro das propinas de um curso em ciências políticas. E o tempo. Um MBA em duas horas.
Citizen Kane, realizado e interpretado por Orson Welles, conta a história de um homem cuja grande paixão é o jornalismo. Um rapaz pobre transforma-se num dos mais poderosos milionários do mundo. Vence no jornalismo, na política, torna-se imensamente rico e poderoso. Tudo o que o dinheiro e o poder podem comprar ele possui. Porém não é capaz de conservar o amor nem a amizade daqueles que sempre o apoiaram e envelhece mergulhado numa pungente solidão. «Rosebud», a nostalgia da pureza juvenil que esse velho corrompido pelo poder evoca ao morrer.
Quem envereda pelos caminhos da ambição, entra num labirinto sem saída. É uma escolha que muitos fazem. Com a minha idade já vi jovens com valor e inteligência, trocarem uma vida simples, de estudo, de investigação e pesquisa ou de criatividade, pelas voltas tortuosas da política. Lembro-me de alguns desses amigos que «singraram» no mundo da política, quando jovens muitas das suas inquietações e convicções eram coincidentes com as minhas. Vejo-os agora, seguros, sem dúvidas, dando entrevistas na televisão. Defendendo ou atacando governos, mas sempre na perspectiva, quanto a eles dinâmica, de dar mais um passo na carreira. Amigos, não, ex-amigos, não porque nos tenhamos zangado, mas porque vivemos em mundos diferentes, paralelos, mas não miscíveis.
UM DIA DAS BRUXAS ESPECIAL, O DA “GUERRA DOS MUNDOS” por Clara Castilho
Foi há 75 anos que uma “partida” de Orson Welles pôs os habitantes dos EUA em polvorosa. Orson Welles tinha 23 anos, tinha desafiado a sociedade com uma peça de teatro em Harlem (vudu de Macbeth), era famoso na rádio. E no dia 30 de Outubro, na rádio, fez uma emissão que levou os ouvintes a acreditar que estavam a ser invadida por marcianos.
Quando estudei psicologia das multidões, li “O mal-estar da civilização”de Freud e “A Psicologia de Massas” de Gustave Le Bon, entre outros e também me apareceu referido este episódio. Hoje interesso-me também pela análise da importância dos meios de comunicação e da sua influência na vida social. Se na altura era a rádio, agora, ainda mais força, temos a televisão e a internet.
Mas antes, ainda adolescente lera A Guerra dos Mundos de H.G. Wells, naquelas longas férias de verão em que o tempo nunca mais passava e dava para ler tudo o que aparecesse à frente. Felizmente tinha muito por onde escolher.
Disse então Orson Welles: “A rádio, naqueles dias, antes dos transístores, não era apenas um ruído no bolso de alguém, era a voz da autoridade. Até de mais. Pelo menos, eu pensava que sim.”
Mas voltemos aos anos trinta, ao Mercury Theatre, a partir do qual eram gravados alguns programas, como os que havia na época, histórias em capítulos, peças de teatro de escritores famosos (Charles Dickens, Alexandre Dumas, Chesterton). Quando surgiu a ideia de avançar para uma temática mais inovadora, com terror à mistura (não esquecer a importância que os americanos dão ao Halloween) fizeram-nos num formato em que aos leitores pareciam ser noticiários, com pessoas a comentar as notícias, jornalistas na rua…. E para tema, a invasão pelos marcianos. Por serem honestos, e depois não responsabilizados, iam avisando que aquilo tudo se tratava apensas de uma encenação. Informação que não era ouvida, nem retida.
Vejamos um diálogo de um dos actores: “Meu Deus, algo se revolve na sombra como uma cobra cinzenta, Agora vem aí outro e mais outro. Parecem tentáculos. Agora consigo vislumbrar o corpo da coisa. É grande como um urso e brilha como cabedal molhado. Mas aquele rosto… é indescritível. Não sei como consigo olhar para aquilo. Os olhos são negros e brilham como os de uma serpente. A boca tem um formato de “v”, com saliva a escorrer de uns lábios que parecem tremer e pulsar.” Cerca de seis milhões de pessoas terão ouvido esta emissão.
E que aconteceu? O pânico, com pessoas a esconderem-se, a pegarem em armas, os da cidade a correram para o campo e vice-versa. Alguns depoimentos:
JOSEPH HENDLEY: “…Caímos de joelhos e toda a família rezou…; MRS. JOSLIN: “…Quando o locutor disse – Abandonem a cidade! – …agarrei o meu filho nos braços, e precipitei-me, pela escada abaixo…”; MRS. DELANEY: “…Segurava um crucifixo e olhava pela janela, à espera de ver cair meteoros…”
Houve quem se aleijasse… até a polícia aparecer no estúdio onde, nessa altura Orson Wells leu aos microfones:
. “Fala-vos Orson Welles, senhoras e senhores, para vos assegurar que A Guerra dos Mundos não tem qualquer significado, a não ser o entretenimento que presidiu à sua criação. É a forma do Mercury Theatre se vestir com um lençol e saltar de um arbusto, a dizer ‘boo!’ Não podíamos pôr sabão nas vossas janelas e roubar os portões dos vossos jardins, até amanhã à noite… por isso, fizemos a segunda melhor coisa de que nos lembrámos: aniquilámos o mundo aos vossos ouvidos e destruímos literalmente a CBS. Mas ficarão descansados, espero, ao saber que eu estava a brincar e que ambas as instituições ainda estão perfeitamente activas… por isso, adeus a todos, e lembrem-se, por favor, durante um dia ou dois, da terrível lição que aprenderam esta noite. Aquele invasor brilhante, sorridente e globular que invadiu a vossa sala, não passa de um habitante de uma abóbora. E se a vossa campainha tocar e não estiver lá ninguém, não era nenhum marciano… lembrem-se, é Dia das Bruxas.”
Três anos mais tarde, Wells realizará o célebre filme Citizen Kane, onde aborda uma personagem influente dos media. Sabia bem voltar a ver o filme. E já agora o Processo e Falstaff…
E finalmente
A LIÇÃO DE «CITIZEN KANE» – por Carlos Loures
/
Um tarde do «Verão Quente» de 1975 dei comigo na Avenida da Liberdade, no meio de uma multidão enfurecida que gritava o nome de um político antecedido da palavra «abaixo». Lembrei-me de quando, anos antes, eu e o dono do nome, ambos recém-casados, mostrávamos orgulhosamente num café, salvo erro na Riviera (da Caparica) retratos dos respectivos primeiros rebentos. uma filha, no meu caso. O nome que milhares de pessoas gritavam era o de um amigo que deixara de existir.
Frequentamos ambos a esplanada do Paulo China, em Vilamoura. Acenamos. Um polegar para cima. Ambos sabemos que não há espaço para conversas, vivemos em mundos não miscíveis. O Paulo China é a único ponto onde os nossos dois mundos se tocam.
Quem tenha visto com atenção O Mundo a Seus Pés, título português, prosaico e redutor, de Citizen Kane percebe tudo o que se passa no mundo da política: as lutas pelo poder, o vício de ser poderoso, as desonestidades, a corrupção,. Está tudo ali. Poupa-se o dinheiro das propinas de um curso em ciências políticas. E o tempo. Um MBA em duas horas.
Citizen Kane, realizado e interpretado por Orson Welles, conta a história de um homem cuja grande paixão é o jornalismo. Um rapaz pobre transforma-se num dos mais poderosos milionários do mundo. Vence no jornalismo, na política, torna-se imensamente rico e poderoso. Tudo o que o dinheiro e o poder podem comprar ele possui. Porém não é capaz de conservar o amor nem a amizade daqueles que sempre o apoiaram e envelhece mergulhado numa pungente solidão. «Rosebud», a nostalgia da pureza juvenil que esse velho corrompido pelo poder evoca ao morrer.
Quem envereda pelos caminhos da ambição, entra num labirinto sem saída. É uma escolha que muitos fazem. Com a minha idade já vi jovens com valor e inteligência, trocarem uma vida simples, de estudo, de investigação e pesquisa ou de criatividade, pelas voltas tortuosas da política. Lembro-me de alguns desses amigos que «singraram» no mundo da política, quando jovens muitas das suas inquietações e convicções eram coincidentes com as minhas. Vejo-os agora, seguros, sem dúvidas, dando entrevistas na televisão. Defendendo ou atacando governos, mas sempre na perspectiva, quanto a eles dinâmica, de dar mais um passo na carreira. Amigos, não, ex-amigos, não porque nos tenhamos zangado, mas porque vivemos em mundos diferentes, paralelos, mas não miscíveis.