No calendário revolucionário em vigor numa França saída da Grande Revolução de 1789, 9 de Novembro correspondia a 18 de Brumário. Dez anos depois a Revolução fatigara a maioria dos franceses e as condições para um golpe contra-revolucionário estavam reunidas. Napoleão Bonaparte, um oficial corso, de pequena estatura, mas dotado de grande ambição e de uma extraordinária capacidade militar, criara uma aura de prestígio que o transformava num «salvador da pátria». Neste dia 9 de Novembro de 1799, um golpe de Estado derrubou o Directório e instituiu o Consulado. O jovem general Napoleão Bonaparte assumiu o cargo de primeiro-cônsul. A burguesia francesa, destruída a aristocracia pelos revolucionários e esmagados agora os revolucionários pela própria Revolução, assumia o poder. Publicamos em três partes uma biografia de Napoleão Bonaparte, escrita por Carlos Loures e publicada no site VIDAS LUSÓFONAS, o site do argonauta Fernando Correia da Silva.
QUANDO TUDO ACONTECEU…
1769:Nasce em Ajácio, Córsega, em 15 de Agosto. –1779:Escola militar de Brienne. – 1784:Artilheiro na escola militar de Paris. – 1789: Revolução Francesa; na Córsega, tem papel activo na resistência. – 1793:Comanda um batalhão de artilharia em Toulon. –1794/95:Brigadeiro, participa na campanha de Itália. Comanda a guarnição de Paris, esmaga insurreição monárquica, salva a Convenção, que o designa general-em-chefe do exército do interior. – 1796/97: Comandante-em-chefe do exército de Itália. Casa com Josefina. Vitórias em Nice, Lodi, Milão, Arcole. Rivoli. –1798:Campanha do Egipto. – 1799:É eleito primeiro cônsul. –1800:Batalha de Marengo. –1802: Cônsul vitalício. – 1804: Napoleão e Josefina coroados imperadores de França. –1805:Batalhas de Trafalgar e de Austerlitz. –1806: Em 21 de Novembro ordena o bloqueio a Inglaterra. –1810:Casa com a princesa Maria Luísa de Áustria. –1812:Invade a Rússia mas retira no Inverno. – 1814: Abdica em Abril; parte para a ilha de Elba. –1815: Regressa a França; fuga de Luís XVIII. Cem dias de governo, derrota em Waterloo. Abdica. Exílio na ilha de Santa Helena, onde morre em 5 de Maio de 1821.
«AH! SE O NOSSO PAI NOS PUDESSE VER!»
2 de Dezembro de 1804. Na Notre-Dame, Napoleão vai transformar-se no imperador dos Franceses. Ali, perante os seus olhos, está toda a família Bonaparte, a mãe, os irmãos e as irmãs, os cunhados. Carlos Magno teve de ir a Roma para ser coroado imperador. Ele é suficientemente poderoso para exigir ao papa que se apresente em Paris. Pio VII suporta a humilhação e submete-se.
“Ah, se o nosso pai nos pudesse ver neste momento”, diz Napoleão a seu irmão José. Com esta frase recorda o caminho percorrido nos últimos dez anos por si e por sua família: aquele conjunto de rostos morenos que, entre príncipes e embaixadores, marechais e altos dignitários, o fita da nave central. Que o seguiu desde a pequena Ajácio até esta catedral. Até à glória.
OS ANOS DA JUVENTUDE
Em 1768 o estado genovês vendeu a Córsega à França. Em 1769 nasce Napoleão. Muitos conselheiros desaprovaram a compra a Luís XV. Se o rei lhes tivesse dado ouvidos, o que seria de Napoleão? E da França?
Carlos Bonaparte, de origem italiana, é um notável da ilha. Vive modestamente com a sua família. Aos dezoito casara com Letícia Ramolino, filha de um funcionário do governo genovês. Quando os franceses tomam posse da ilha, o general Pasquale Paoli desencadeia a luta de resistência. Este líder corso irá ser o ídolo da juventude de Napoleão que, com nove anos, entrará na escola militar de Brienne. O pai viera para França como deputado pela Córsega e conseguira três bolsas para os filhos. Segundo Bainville, o carácter do jovem fortalece-se na escola de Brienne, “pois sofre a grande prova dos espíritos orgulhosos, ardentes e tímidos, ou seja, o contacto com estrangeiros hostis.” Os seus camaradas alcunham-no de la-paille-au-nez, pois pronuncia o seu nome com acento corso, o que soa como “Napolioné”. É uma criança triste, sensível, pouco amante das brincadeiras próprias da idade. Não é um aluno brilhante. Um dos seus professores define-o como “uma rocha de granito aquecida por um vulcão”. Em 1785 passa um exame para entrar em artilharia. O examinador anota: “corso de carácter e de nascimento, este rapaz poderá ir longe se as circunstâncias lhe forem favoráveis”. Nesse ano, morre Carlos Bonaparte com um cancro no estômago. Letícia fica sem recursos, com a família a seu cargo; mas Napoleão já só tem mais um exame antes de começar a receber soldo do exército. Dezasseis anos e ei-lo oficial. Não deslumbra o professor que o examina, o ilustre Laplace. Mas está contente consigo próprio. Do pequeno corso, que só falava o dialecto da sua ilha, ao oficial do exército real foi um grande passo. Em Valence, praça onde é colocado, lê poucos livros militares. Prefere literatura política, principalmente Rousseau. Nele procura argumentos para libertar a Córsega – o mito de Paoli continua a obcecá-lo. Consegue uma licença e vai passá-la à ilha, levando um baú cheio de livros: Tácito, Montaigne e Corneille, que recita de memória. Sonha escrever uma história da Córsega. O que mais deseja é vir a ser um homem de letras.
A ESTRELA COMEÇA A BRILHAR
1789, ano da Revolução Francesa. Distúrbios por todo o país. Também na Borgonha, onde está colocado. Mas ali quem manda é o tenente Bonaparte. Repressão dura. Ameaça disparar. Não hesitará nem um segundo em cumprir a ameaça – prefere a injustiça à desordem. Detém os cabecilhas. Encerra-os num calabouço. Rebelião sufocada. No entanto, esta não é a sua revolução. Francês “de segunda”, soldado do rei por ofício, o que lhe interessa é aproveitar a situação para libertar a Córsega. É espectador da Revolução. Solicita contínuas licenças para “ir a casa”. Entre Setembro de 1789 e Junho de 1793 está quase sempre na ilha e intervém nos pequenos conflitos locais. O que provoca o seu afastamento do exército francês. Tem de mover influências para ser reincorporado. Também consegue ser promovido a capitão. Em 10 de Agosto, ao ver Luís XVI à janela com o barrete frígio na cabeça, grita: “Che coglione!”. Se pudesse, teria aberto fogo contra esta “vil canalha”. Aos vinte e quatro anos perdeu a fé nos ideais revolucionários defendidos pelos filósofos. De agora em diante irá chamar-lhes, depreciativamente, ideólogos. Desprezará definitivamente as teorias. Só uma coisa lhe interessa: a acção. A França mergulha na anarquia. Talvez a queda do rei favoreça a independência da Córsega. O colégio onde estuda a sua irmã Elisa fecha as portas. Bom pretexto para regressar levando a irmã para casa.
Em 1793, os exércitos franceses, tendo repelido a invasão, conquistam a Bélgica, a Sabóia e Nice. Pretendem agora anexar a Sardenha. Tropas francesas reforçadas com voluntários corsos. Eis uma boa oportunidade. Com muita habilidade, Napoleão consegue ser nomeado tenente-coronel e participa na expedição à frente da artilharia. Mas, entre os voluntários corsos, há gente de Paoli apostada em fazer fracassar o empreendimento. Os marinheiros amotinam-se, parte dos corsos rende-se. Bonaparte, raivoso, tem de retirar abandonando os canhões. No entanto se, por um lado, assina um protesto dos oficiais contra esta vergonhosa retirada, por outro manda uma carta muito amável e solidária ao cabecilha infiltrado por Paoli na expedição. Contudo, este cuidado não evita que na Córsega os Paoli declarem a vendetta contra os Bonaparte, acusados de serem aliados dos Franceses. Napoleão escreve a sua mãe: “Prepare-se para fugir, esse país não é para nós”. Letícia consegue abandonar a casa pouco antes de ela ser destruída. A família refugia-se primeiro em Calvi, depois em Toulon e, finalmente, em Marselha. Passam por grandes problemas económicos. Mas Letícia, ainda jovem e bonita, torna-se amante de um marselhês comerciante de tecidos. José irá casar-se com Marie-Julie, uma das filhas deste homem. Um dia será rainha de Espanha. Napoleão gostaria de ter casado com Désirée, a mais nova mas, segundo se conta, Clary, o pai, pensa que já basta um Bonaparte na família e o pretendente é apenas um capitão pobretana e sem futuro. Assim impede Désirée de vir a ser imperatriz. Em todo o caso, ela irá casar-se com Bernadotte, um ex-sargento, e virá a ser rainha da Suécia. Napoleão, que continua a sonhar com as letras, escreve Clisson et Eugénie, um romance em que relata a história dos seus amores com Désirée. Por ora, Napoleão, à falta de melhor, irá servir a Revolução em postos mais do que secundários. Como a sua carreira militar marca passo, refugia-se na escrita e escreve a mais aguda e sugestiva das suas obras – Souper de Beaucaire, um texto apologético da Convenção. A literatura faz o milagre: a obra agrada aos comissários da Convenção e o autor é nomeado comandante do batalhão que assedia Toulon, cidade sublevada e que pedira ajuda aos Ingleses. O exemplo frutifica, Lyon também já arvora a bandeira branca dos monárquicos. É preciso cortar o mal pela raiz. Napoleão dispõe as baterias de forma a poder lançar bombas incendiárias sobre os barcos sitiantes. Obriga-os a abandonar o porto. Dispara pessoalmente um dos canhões e fica ferido. É promovido a general de brigada por proposta de Salicetti e de Robespierre. A sua estrela começa a brilhar…