EDITORIAL – DO 18 DE BRUMÁRIO À NOITE DOS CRISTAIS, passando pelo acordo PS/PCP/BE

 

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Hoje, 10 de Novembro de 2015, temos um dia rico em termos de actualidade política nacional, como em efemérides – em 10 de Novembro de 1799, embora em termos formais a Revolução continuasse, ela chegava ao fim com o 18 de Brumário impondo o Consulado liderado por um jovem general – Napoleão Bonaparte – e derrubando o Directório. Como no Yellow Submarine, um aspirador depois de aspirar tudo o que o rodeava, aspira-se a si mesmo. A Revolução, desencadeada 10 anos antes, foi devorando tudo e todos e, neste amálgama, devorou os revolucionários que foram surgindo ao longo do processo – ou seja, a Revolução devorou-se a si mesma. O golpe do 18 de Brumário foi entusiasticamente pela burguesia, que estava cansada de agitação e queria agora rendibilizar o derrube da aristocracia iniciado dez anos antes e aniquilar as matilhas de populaça que continuava a acreditar nas três consignas – Liberdade, Igualdade e Fraternidade – bonitas nos discursos, mas inconvenientes na vida corrente. Os conspiradores esperavam que o general Bonaparte pudesse ser afastado logo que estivesse a mais. Foi o que se sabe – o corso tomou as rédeas do poder e produziu o milagre de ornar a História de França com vitórias brilhando entre as derrotas que percorrem a cronologia militar francesa. Moral da história – A Revolução de 1789 consagrou o poder da burguesia e a passagem das aristocracias a meras decorações de uma sociedade em que os ungidos por Deus foram rendidos por mercadores, bacharéis, agricultores….

Em 10 de Novembro de 1918 o II Reich foi substituído pela República na Alemanha e no mesmo dia de 1923, fracassou a conspiração na Cervejaria de Munique liderada por Hitler e Ludendorff. Em 1938, faz hoje 77 anos, foi a Reichskristallnacht ou somente Kristallnacht. Traduz-se por Noite de Cristal  – devia talvez traduzir-se por “Noite dos vidros” (ou montras), pois na noite de 9 para 10, pelas cidades alemãs e austríacas perpassou um furacão de violência nazi que partiu as montras das lojas judaicas, destruiu sinagogas, invadiu residências, espancou e matou cidadãos hebraicos. O assassínio de Ernst von Rath, em Paris, por Herschel Grynszpan, um judeu polaco, serviu de pretexto.

Em Lisboa, hoje há manifestações – uma de apoio ao inqualificável bando que ocupa as cadeiras do poder e outra de júbilo pela assinatura do acordo entre os partidos que se reivindicam da esquerda que, segundo tudo indica, irá formar um novo Governo. A moral destas histórias é a de que coincidem na data de hoje factos de gravidade diferente, mas com uma conclusão única – a estrutura social que 1789 nos trouxe, começou a colapsar no dia em que foi criada e só uma Revolução que organize a «aldeia global» em novos moldes (revolucionários – sem dinheiro, sem o conceito mercantil de lucro, baseando a economia num sistema limpo das tradições de exploração que nos acompanham desde tempos imemoriais). O acordo da esquerda nada tem a ver com essa revolução.

Mas nem por isso deixamos de o saudar.

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