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Novas Viagens na Minha Terra – Série II – Capítulo 130 – por Manuela Degerine

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Os outros

Sentei-me a comer o último iogurte, a rapariga vem conversar comigo; trabalha na creche, está na hora de almoço. Após as apresentações, onde vivemos, qual a idade, qual a profissão, chega o inevitável.

– Não tem medo?

Há agora, da Portela para cá, caminhantes que ultrapasso e me ultrapassam: a companhia que me convém.

– E não lhe custa ir sozinha?!

Deste modo avanço no meu ritmo, disponível para ver e sentir: mais livre. Entre os peregrinos que encontrei, com quem simpatizei, com os quais caminhei, recordo-me que Maria tinha os seus humores, Lena se queixava penosamente e Brigitte – no ano passado – se pôs a correr à frente sendo, com esta pressão, responsável pela minha tendinite. Eram três boas pessoas que reagiam às dificuldades de maneira distinta da minha. Sérgio revelou-se um companheiro perfeito, porém o duo que formávamos, na sua aparente ambiguidade, não raro me embaraçou; cheguei entretanto à forma de viagem que me convém: caminho sozinha e convivo nos albergues. A solidão incita-me a uma auto-análise e a um aprofundamento que noutras circunstâncias não farei e acompanhada não posso fazer.

Mais adiante sento-me num lugar onde os jarros, espalhados pela encosta, se encontram agora em flor: um jardim todo branco. “Quem quer ir longe, poupa a cavalgadura”, lembra um provérbio francês. Hoje fiz sucessivas pausas, alimentei-me regularmente, mas sinto-me agora cansada e, o que é inquietante, doem-me as costas. O risco de ciáticas, tendinites e maleitas que tais deve ser maior nos cinco primeiros dias… Por falta de treino. Hoje é o terceiro. Baixar-me-ei para desacatar as botas e não conseguirei levantar-me? (A iminência de ter que desistir é menos dramática se caminharmos sozinhos.)

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