Um café na Internet
É a jornada mais comprida do Caminho Português, trinta e três quilómetros, mas no ano passado Sérgio e eu inventámos outras mais longas, calcorreando duas etapas entre Ponte de Lima e Valença e entre O Porrinho e Pontevedra. Há exactamente um ano e um dia, quando por aqui passámos, não fazia calor, muito pelo contrário: chovia a cântaros. E eu tive frio. Agora o problema será distinto, se bem que ainda mais difícil. Ontem bebi cinco litros de água… Quase não urinei. E a meteorologia prevê subida de temperatura.
Saio do albergue antes das seis e meia. Vejo nascer o sol enquanto atravesso uma cidade de Barcelos quase sem carros: extremamente bonita. Ultrapassados os arredores, semelhantes aos de tantas urbes portuguesas, embora aqui com muitas rosas, rosas a espreitar por cima dos muros, rosas a escorrer pelas paredes abaixo, reencontro uma paisagem colorida e luminosa.
Passo por Tamel às 8h e 10, Aborim às 10h e 15, Balugães às 11h 50… Caminho no princípio sozinha. Sou ultrapassada às seis e quarenta pelo fininho da selecção espanhola; o papa-léguas não olha para nada. Apanho em Aborim os ingleses que, quando acordei, às seis horas, já haviam saído. O jovem obeso avança com dificuldade e sonha – em voz alta – com pratadas de batatas fritas, por conseguinte eles fazem paragens frequentes, para beber, por enquanto, para descansar, para untar os pés… Transpiramos já todos intensamente. Converso ora com o companheiro de beliche ora com o amigo, ambos muito cavalheiros, ao mesmo tempo sérios e cómicos, amáveis e devastadores – será humor britânico? Caminhamos juntos até Balugães. (Não voltaremos a encontrar-nos: eles projectam dormir numa residencial e só amanhã chegarão a Ponte de Lima.)
Desejo cumprimentar os amigos que, no ano passado, me salvaram da pneumonia mas, quando toco à campainha, ninguém vem abrir. Regresso portanto ao caminho, comendo a terceira sandes de pão com queijo, este derretido por causa do calor, uma espécie de tosta com queijo artesanal. Creio que nunca nada me soube tão bem!
Em Vitorino de Piães surgem os suecos: vermelhos e desidratados. Sugerem que façamos uma paragem, desta vez acompanho-os, pois o albergue de Ponte de Lima abre às cinco e agora, de qualquer maneira, já faz um excessivo calor. Aproveito para beber um leite frio.
Continuam a desvendar-me os exotismos portugueses. A bica demasiado forte, no fundo de uma chávena, em vez do copo de café, que na Suécia lhes servem, os bolos, que acham enjoativos, os incertos cozinhados, será carne, será bacalhau, que vão ingerindo… Ao nosso lado há um limoeiro carregado de frutos – extasiam-se. Lena é enfermeira e Lars fisioterapeuta, mas possuem um quintal com árvores – uma pereira, uma macieira, uma ameixoeira – e uma horta que cultivam ao fim-de-semana. Cito-lhes a conclusão de Candide de Voltaire: “cultivem a horta”. Se cultivar a horta era, no sentido próprio como no metafórico, boa filosofia de vida no século XVIII, melhor é agora no século XXI, concordamos os três nisto, evocando a falta de valor dos produtos, por apagamento do esforço, das horas de vida, dos saberes que eles contêm…
Encontramo-nos na penumbra de um barracão mas impõe-se renunciar a esta frescura. Lars dá o sinal da partida:
– Voltamos para o grelhador?

